Não, não chegou com a vaga de refugiados e já é quase tão portuguesa como iraquiana. Não fugiu. Saiu do país porque casou e há 23 anos que vê Bagdad pelo olhar de fora. Percebe que o país das mil e uma noites já iniciou a reconstrução e admite que as invasões e ocupações sempre fizeram parte da história do Iraque. «É isso que explica a diversidade, mas também o desígnio de “terra de todos”»

Não há uma religião, uma cultura, uma etnia ou uma tribo. O Iraque é, por definição, um país de cultura mista e sempre foi assim. «Não é a religião que nos separa. Muçulmanos, cristãos, judeus, sunitas e xiitas sempre conviveram e sempre aceitaram a diferença. O povo da rua sempre conviveu com essa realidade, isso faz parte do Iraque».
Sulaf Razzak continua a acreditar nessa tradição e «no respeito pelo outro. O povo sabe que se viver separado nunca ganha. O Iraque é um país do mundo, é um país de multiculturas, multirreligioso e com várias etnias, só por interesse político e económico se pode pensar em dividir o país. Os iraquianos estranham, porque o Iraque sempre foi a terra de todos». A afirmação não pode ser suspeita, Sulaf é iraquiana, nasceu em Bagdad e pertence à “terra de todos”.

Claro que as invasões fazem parte da história do Iraque. «É um território apetecível, pelas riquezas naturais e pela posição geográfica que ocupa». Nem sempre foi assim. Há 4 mil anos A.C., aquilo que hoje se designa por civilização nasceu ali, no sul da antiga Mesopotâmia. Foi na Suméria que se criaram os primeiros códigos de escrita, as primeiras leis e as primeiras cidades-estado. A cidade das mil e uma noites foi um centro cultural durante séculos, mas não para todo o sempre. Seguiram-se uma sucessão de invasões e outras tantas ocupações. Egípcios, gregos, romanos, persas, turcos, mongóis, otomanos e ingleses sempre encontraram um argumento para ocuparem aquele território. Saddam Hussain foi o pretexto usado para a última ocupação, em 2003, pelo exército dos EUA e países aliados.

A história trouxe encontros e desencontros. «Neste momento o Iraque já reiniciou a nova fase e trabalha a reconstrução do país. Claro que ainda há zonas de conflito, mas o país não parou». Vive-se e reconstrói-se. «Há zonas muito seguras (norte e sul) e outras menos seguras, apenas porque são dominadas por grupos de criminosos. O Estado Islâmico é isso mesmo, um grupo criminoso com interesses económicos. Enquanto existirem conflitos no Médio Oriente, o Estado Islâmico continuará a crescer e a provocar uma instabilidade sem fronteiras, que cresce por contágio e que não interessa a ninguém».

cf apreendeu ainda que «o iraquiano é um povo que está geneticamente formatado para trabalhar. Apesar das imagens que vemos pela televisão – que não são iguais em todos os canais – as pessoas saem de casa, casam, têm filhos e os filhos morrem e voltam a ter filhos. É um povo que não pode ficar de luto, não pode parar e o Iraque irá voltar aos tempos de desenvolvimento», aquele que presenciou na infância e na juventude. Um tempo em que a educação e a saúde eram os dois pilares mais importantes de toda aquela sociedade». A saúde era totalmente grátis, tal como a educação, e não era permitido a nenhuma criança ficar em casa. A escola era obrigatória até aos 18 anos e o ensino «era completamente grátis, desde a infância, ao doutoramento. Hoje, há um deficit, “os cérebros”, que tinham reconhecimento internacional, ou saíram do país ou foram eliminados, e o país começou a cair na idade da ignorância, o que só pode ter interesse para a política».
O país está isolado. Hoje, quem quiser sair de Bagdad legalmente terá de passar por um pedido de visto demorado e, mesmo que seja por questões de saúde, o pedido de autorização pode demorar meses. E isso pode explicar a vaga de refugiados iraquianos, mas não explica tudo. «Dentro do Iraque também há zonas para os refugiados, localizadas no Curdistão e no Sul do país – zonas sem conflito. «O problema está nos traficantes que estão a vender a Europa como um paraíso e, se há iraquianos que se sentem ameaçados e em zonas de conflito, há outros que são atraídos e que vêm de zonas onde não há conflito nenhum. Vêm só para chegarem à Europa, porque os traficantes prometem coisas, a troco de milhares de dólares. Depois, muitos acabam por morrer no caminho…, mas o traficante faz negócio».

Por cá, Sulaf Razzak vai querer continuar a saborear o nosso bacalhau, em quase todas as versões e a tratar os seus doentes (é médica dentista). Em paralelo, prepara a próxima viagem em família a Bagdad, porque «quem bebeu água no rio Tigre, nunca esquece aquela terra, seja ou não iraquiano. Mudou-se para Portugal há 23 anos e foi o casamento que a fez conhecer este país, não porque tenha casado com um português, mas porque casou com um iraquiano, que trocou Londres pela cultura portuguesa. «Os portugueses são diferentes, carinhosos e dão muito valor aos laços da família. Dedicam-se ao trabalho e põem qualidade em tudo o que produzem. Só demoram muito tempo a decidir e colocam vezes demais aquela questão: será que somos capazes? Falta-lhes confiança».

No fundo, o português é muito parecido com o povo iraquiano, «pela diversidade. Existe sempre um bocadinho de cada país dentro de um português. O português tem um bocadinho do mundo todo dentro dele, o iraquiano também».

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