Acredite. É verdade. Falamos da córnea, a estrutura transparente da parede do globo ocular, que se localiza na sua porção mais anterior. A sua espessura ronda o meio milímetro (mais exatamente 540 micrómetros em média) e é a estrutura do globo ocular com maior poder dióptrico. A cirurgia da córnea tem a capacidade de mudar vidas! Vejamos como…
Nos dias de hoje, ter saúde é muito mais do que a ausência de doença – a qualidade de vida é cada vez mais valorizada. A cirurgia refrativa, ao proporcionar independência de óculos e lentes de contacto, é extraordinariamente impactante no dia-a-dia de míopes, hipermétropes e astigmatas.
A cirurgia com o laser excimer evoluiu muito nas últimas décadas, com aparelhos extremamente precisos, com “eye-trackers” de última geração, que acompanham os movimentos do olho para garantir a centragem do procedimento. A este laser excimer, associa-se o laser de femtosegundo, mais recente, usado no LASIK (laser in situ keratomieleusis). Este é um laser de corte, que permite criar um lentículo a uma profundidade previamente definida com um rigor micrométrico! É debaixo deste lentículo que a magia acontece…!
Na cirurgia a laser, a córnea é esculpida pelo laser excimer, com padrões de ablação individualizados. Podemos dizer, de uma forma algo simplista, que a ablação será tanto maior quanto maior for a graduação, e é a espessura da córnea que dita a correção máxima possível. Sim, há limites de segurança inultrapassáveis! E nem todos os doentes podem ser operados…
O tamanho importa. Mas não é tudo.
O conhecimento da espessura de córnea é, pois, essencial quando se perspetiva esta cirurgia, mas a avaliação pré-operatória vai muito além disso. Há doenças da córnea que devem ser pesquisadas e excluídas, sendo fundamental a avaliação por especialista em córnea, com experiência em cirurgia refrativa. Além da análise do historial refrativo e da avaliação biomicroscópica atenta da córnea, são necessários exames de última geração que avaliam toda a estrutura da córnea e todas as suas camadas – só após esta análise minuciosa se pode garantir a segurança do procedimento.
E se não passar no teste?
Se a cirurgia a laser não for indicada, poderão existir alternativas. Se a graduação for muito elevada e ultrapassar os limites de correção a laser, a cirurgia com lente intra-ocular pode ser uma opção.
Se for diagnosticado um problema da córnea, o médico irá elaborar o plano que melhor se adequa às suas necessidades. Se o diagnóstico surge de forma inesperada sem haver sintomas, isto é, sem perda de visão, uma vigilância atenta provavelmente será suficiente. Se, pelo contrário, existir doença já instalada que comprometa a visão, o médico deverá propor-lhe alternativas terapêuticas.
E quando a córnea não é parte da solução, porque ela é o problema?
Felizmente, a córnea é um problema para uma minoria. Mas para essa minoria, é um problema gigantesco! Porque nestes casos, não há óculos que melhorem a visão, por mais “fortes” que sejam as lentes…!
Felizmente, nas últimas décadas, houve notáveis avanços na oftalmologia e hoje há diversos tratamentos que tornam possível restituir a visão em muitos destes casos de cegueira corneana. Há um vasto espectro de alternativas, que vão desde as mais conservadoras, como o uso de lentes de contacto especiais ou o fortalecimento da córnea com o crosslinking, à terapêutica de fim de linha: o transplante de córnea.
E se a solução for substituir a córnea ou parte dela?
Sim, é possível substituir a córnea. Há situações em que o transplante de córnea é a única opção. Falamos de doenças como o queratocone em estado avançado, a distrofia de Fuchs ou a presença de cicatrizes densas centrais. Na generalidade, o transplante de córnea tem um prognóstico muito favorável, pois a ausência de vasos sanguíneos nesta estrutura torna mínima a possibilidade de rejeição. Além disso, a evolução técnica permite substituir apenas as camadas da córnea que estejam doentes! Por isso, só muito raramente é necessário fazer imunossupressão geral.
A recuperação demora alguns meses, sendo mais ou menos demorada, consoante se trate de um transplante de espessura total ou parcial. É necessário permitir que a cicatrização da ferida cirúrgica aconteça, antes de iniciar a extração de pontos. A remoção de suturas é feita de forma seletiva, para permitir o ajuste do astigmatismo e a visão vai recuperando de forma progressiva.
O transplante de córnea é, para alguns, a luz ao fundo do túnel que muda as suas vidas. É, sem dúvida, uma cirurgia de uma beleza incomensurável em diversas vertentes: pelo que a dádiva simboliza, pela beleza da cirurgia em si e pela grandeza que é restituir a visão a alguém!
Esmeralda Costa
(Médica Oftalmologista; OM n.º 45468)

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