Não. Há riscos. O tromboembolismo venoso é um exemplo. A dosagem e o tipo de estrogénio e progestativo têm um impacto direto. Não significa que os anticoncecionais sejam inseguros, mas é preciso avaliar risco e benefícios

A pílula ou os métodos hormonais de contraceção representaram uma revolução na vida da mulher. A história dos anos 60 não pode ser desassociada deste novo método hormonal de contraceção e, hoje, estima-se que mais de 40% das mulheres em idade fértil recorre à chamada pílula.

A introdução dos anticoncecionais orais teve lugar nos Estados Unidos em 1960, e marcou uma revolução na saúde reprodutiva. Tradicionalmente, estes medicamentos contém 2 componentes hormonais: um estrogénio e um progestativo, embora atualmente existam anticoncecionais apenas com progestativos. É também importante sublinhar que a dose de componentes hormonais – inicialmente usada  – era muito mais elevada do que as que atualmente se encontram nestes medicamentos. 

Apesar da grande mudança na saúde reprodutiva, não deveremos negligenciar os riscos e o tromboembolismo venoso (TVE) é um deles. Falamos de uma doença grave causada pela formação de um coágulo de sangue no interior de uma veia, seja nas veias profundas do corpo (principalmente no membro inferior), seja no pulmão, resultando numa embolia pulmonar. São estes os 2 eventos mais comuns.

A dosagem e o tipo de estrogénio e progestativo têm impacto neste risco. Mas o TVE atinge um número importante de pessoas todos os anos e os anticoncecionais aumentam o risco de trombo-embolismo venoso (e também o arterial), através de inúmeros mecanismos, sendo o componente estrogénico o mais importante responsável por este risco. As pílulas de “nova geração” ou os anticoncecionais que apenas contêm progestativos são aqueles que apresentam mais baixo risco de estar associados a um episódio de TEV.

Um trabalho de 2013 – que reuniu 3110 publicações – estabeleceu um risco de 3,5 vezes maior de ter um episódio de trombo-embolismo venoso para mulheres que tomem anticoncecionais, em relação àquelas que não tomam – mas isto envolve todos os tipos de anticoncecionais e de mulheres com vários tipos de risco adicional.

A maioria dos episódios de trombo-embolismo venoso ocorre nos 3 primeiros meses de toma. O risco diminuiu para além deste período. No entanto, é também importante dizer que estes são medicamentos bastante seguros e que, na grande maioria dos casos, o seu risco é suplantado em muito pelos seus benefícios. Existem ainda muitos casos em que a prescrição de anticoncecionais tem outros objetivos para além da anticoncepção.

O seu médico prescritor está devidamente capacitado para avaliar todos estes fatores e de prescrever o anticoncecional mais adequado (ou até aconselhar-lhe outro método).

No entanto, para além da toma de anticoncecionais orais há muitos outros fatores de risco que aumentam a possibilidade de ter tromboembolismo venoso. Assim, dentro das mulheres que podem tomar anticoncecionais, existem algumas que estão em maior risco de ter episódios de tromboembolismo venoso.

Estes fatores são:

  • Idade – O risco de TEV é maior para mulheres com mais idade que tomem um anticoncecional (3,1 para mulheres com menos de 30 anos vs 5.8 para mulheres entre 40 e 50 anos, num estudo);
  • Obesidade – Risco importante se o Índice de Massa Corporal é maior do que 30 Kg/m2;
  • Tabagismo
  • Imobilidade, hospitalização
  • Cancro

Há ainda um outro fator de risco importante para as pessoas que têm trombofilia (uma predisposição herdada/familiar para ter eventos trombóticos) – existem muitos tipos de trombofilia, que podem causar vários graus de risco de ter uma trombose venosa/embolia pulmonar/trombose arterial.

Nas mulheres que já tiveram um episódio de trombo-embolismo venoso o uso de um anticoncecional é, à partida, contraindicado. Nas que tomam um hipocoagulante a toma de ACO pode ser considerada. De qualquer forma, estes casos devem ser decididos de forma individualizada, após ponderar riscos e benefícios.

Gabriel Anacleto
(Médico, com a especialidade de Angiologia e Cirurgia Vascular; OM n.º 33435)

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