O bem-estar ou o mal-estar de uma mulher é influenciado pela interação entre fatores biológicos, psicológicos, sociais, económicos e ambientais, de acordo com os vários enquadramentos em que a mulher se encontra, como pessoa. A saúde da mulher é essencialmente prevenção e orientação
A comunicação entre o médico e a pessoa que procura a sua ajuda, para ser efetiva e propiciar bons resultados, deve assentar essencialmente na bi-direccionalidade e basear-se numa análise e reflexão crítica. É, no essencial, uma investigação clínica que nos permite colocar questões, decorrentes de uma reflexão profunda e atenta sobre os extratos de vida, mais ou menos sequenciados, que nos estão a ser apresentados, propondo linhas e caminhos de orientação.
A mulher é um todo, indivisível e incompartimentável e a saúde da mulher é essencialmente prevenção. O que ambos tentamos, mesmo numa primeira abordagem, é ir além da relação que se estabelece como possível. É a promoção da humanização e a intervenção personalizada, isto é, a Promoção da Saúde.
Quando uma mulher procura uma consulta médica, quer seguramente saber de si, mas também traz – frequentemente – preocupações com a saúde dos seus familiares diretos. É uma gestora nata.
Por um lado e de acordo com a Organização Mundial de Saúde, “a saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença ou enfermidade, que inclui expressamente no mesmo conceito a saúde física ou corporal e a saúde mental ou psíquica, referindo de maneira concreta o tipo novo de saúde social”. Por outro lado, na realidade de muitas mulheres um dia habitualmente associado ao descanso está, na verdade, associado ao trabalho doméstico. Não por desmerecimento, mas por constituir habitualmente uma sobrecarga, inviabilizando o descanso e o lazer relacionados com a prática de atividades lúdicas, tão necessárias à preservação de uma vida saudável em todos os aspetos.
A raça, a classe social, o género e a dimensão relacional no quotidiano da vida familiar continuam a constituir, para as mulheres, um peso desproporcional. Esta sobrecarga efetiva na vida das mulheres torna-se potenciadora de transtornos mentais comuns, tais como a depressão, a insónia e a falta de autoestima.
Entrecruzam-se, ainda, outras questões: “… as mulheres também choram, não são só os homens”. Miguel Sousa Tavares realça, no Prefácio de entre ossos e a escrita, de Maitê Proença, Oficina do Livro, 1ª edição, Setembro de 2005, que tal “como mostra a escrita expressa da Maitê Proença …”as mulheres“…choram com as coisas normais que fazem chorar os seres humanos: a dor da perda, a saudade, a solidão, o ciúme, o amor, a traição, o abandono”…
Todas estas vertentes devem assim envolver a saúde da mulher, encarada como holística, porque abrange cuidados integrais, físicos e mentais e em todas as fases da sua vida, e não como habitualmente era considerada, apenas a sua saúde ginecológica. Também deve ser abordada numa perspetiva interdisciplinar. O bem-estar ou o mal-estar de uma mulher é sempre e seguramente influenciado pela interação entre fatores biológicos, psicológicos, sociais, económicos e ambientais, de acordo com os vários enquadramentos em que a mulher se encontra, como pessoa. A saúde da mulher é essencialmente prevenção e orientação.
A prevenção das doenças mentais, das doenças neurodegenerativas, das doenças respiratórias, das doenças alérgicas, das doenças da pele, das doenças da nutrição, das doenças digestivas, das doenças oncológicas, das doenças metabólicas, das doenças ósseas, das doenças hormonais, das doenças cardiovasculares, das perturbações do sono, das doenças dos órgãos dos sentidos, das infeções sexualmente transmissíveis, a prevenção e diagnóstico de doenças que ainda hoje são sub-diagnosticadas, a prevenção do envelhecimento patológico.
A orientação sobre os estilos de vida, sobre o exercício físico adequado para uma boa mobilidade geral, sobre os cuidados alimentares adequados, sobre uma hidratação adequada, sobre comportamentos de risco, sobre situações e momentos de risco que não devemos ignorar, nem menosprezar, sobre os rastreios, sobre a vacinação, sobre a diminuição ou perda/as das acuidades visual, auditiva, olfativa, gustativa e sensibilidades, sobre as perturbações do sono, sobre a menopausa, sobre o planeamento familiar, sobre a saúde mental, sobre o envelhecimento saudável e a longevidade.
A orientação sobre literacia, para a compreensão dos processos patológicos e, consequentemente, sobre como preveni-los e evitá-los, e o valor dos exames auxiliares de diagnóstico na prevenção ou na deteção precoce e no seu acompanhamento. E a orientação que esclarece a importância e o valor fundamental da valorização precoce dos sinais e/ou sintomas para a deteção precoce de possíveis patologias, no sentido de as evitar ou de retardar a sua progressão e as suas manifestações, as quais conduzem inevitavelmente à perda de autonomia e à dependência de terceiros, com uma perda inestimável da qualidade de vida, no fundo, de todos os intervenientes, acarretando um sofrimento muitas vezes duro e silencioso.
E ainda a deteção de pobreza, que apesar de atualmente menos visível, existe, e contribui de forma absoluta para más práticas alimentares e para a falta de condições de higiene. Para a combater é necessário o contributo e o envolvimento de toda a sociedade e de todos os prestadores de cuidados de saúde. É fundamental ainda não normalizar a dor ou o desconforto constante. A valorização em todas as fases da vida e em todas as idades deve ser uma constante, bem como a procura de soluções que resolvam ou minimizem o sofrimento.
A saúde da mulher é também sinais, sintomas e alterações de facto e, se já existem, a medicina curativa orienta-nos a atuar de imediato na deteção e diagnóstico. É importante referir
que os avanços na medicina, tais como o rápido avanço da tecnologia e do maior conhecimento médico, permitem-nos hoje garantir uma medicina de maior precisão, com diagnósticos mais precisos e tratamentos personalizados, contribuindo para um significativamente maior sucesso terapêutico, com menores efeitos secundários e adversos. A medicina de precisão, a par da investigação da história clínica, permite este avanço, utilizando tecnologia imagiológica de alta definição, biomarcadores e perfis genéticos individuais e familiares.
Perante doenças como o cancro da mama, endometriose, osteoporose, ou em doenças como a obesidade [que aumenta a incidência de Diabetes tipo 2 e Hipertensão Arterial (entre outras)], ou em outras doenças como a anemia (que pode refletir graves insuficiências alimentares, perdas ocultas ou evidentes de sangue ou doenças oncológicas), por constituírem um elevado risco para doenças cardiovasculares e cerebrovasculares e por serem doenças com elevada prevalência, mantém-se necessária uma atuação muito precoce na sua deteção e no seu diagnóstico.
Na Prevenção, na Orientação e no Diagnóstico a antecipação é vital. O diagnóstico precoce propicia bons resultados e muda as histórias de vida.
Alberto Carvalho
(Médico, Medicina Geral e Familiar;
OM n.º 19624)

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