Um dia, talvez, cada pessoa que se deite numa mesa de operação não esteja apenas entregue à experiência daquele momento, mas também ao conhecimento silencioso de todos os que ali estiveram antes: dados reunidos, padrões reconhecidos, complicações aprendidas, trajetórias comparadas, possibilidades calculadas. Não para apagar a responsabilidade humana, mas para a ampliar. Tiago Matos explica-nos o cruzamento entre data centers e cirurgia ocular

Há processos humanos que só se compreendem verdadeiramente quando deixamos de os olhar como episódios isolados. A cirurgia, a ciência, a engenharia, a medicina e até a inteligência artificial vivem todas no mesmo território: o da tentativa de criar ordem onde ainda existe instabilidade. Por isso, este texto é antes de tudo um agradecimento ao Dr. Travassos, à equipa do Centro Cirúrgico de Coimbra e também à enfermeira Beatriz, que esteve presente na noite de 29 para 30 de junho, a noite da cirurgia, quando o olho ainda estava tapado e a incerteza era grande. Mas é também uma reflexão sobre aquilo que vi — ou talvez sobre aquilo que ainda espero poder ver — através de uma lente que não é apenas intraocular, mas também simbólica: a lente de uma época em que a humanidade tenta construir novas janelas para o conhecimento.

Nos últimos tempos tenho acompanhado, por motivos profissionais e pessoais, a análise dos chamados projetos de interesse nacional ligados aos data centers, à infraestrutura digital e à inteligência artificial. À primeira vista, pode parecer um mundo distante de uma sala cirúrgica oftalmológica: energia, semicondutores, GPUs, cabos, edifícios, licenciamento, oposição social, atrasos de ligação à rede, modelos de linguagem, eficiência computacional, dúvidas sobre capacidade instalada e até a possibilidade de que parte desta infraestrutura venha, no futuro, a deslocar-se para órbita. Mas, no fundo, estamos perante a mesma pergunta: como se constrói capacidade nova dentro de sistemas frágeis, limitados e profundamente incertos?

A inteligência artificial promete acelerar a descoberta de novas terapias, novos materiais, novas formas de diagnóstico, novas hipóteses para compreender o corpo humano e as suas falhas. Promete, talvez, ajudar-nos a pensar melhor sobre doenças da visão, mobilidade espacial, autonomia, reabilitação e deficiência. No entanto, essa promessa não vive no vazio. A inteligência não é apenas software: precisa de solo, eletricidade, arrefecimento, chips, capital, licenças, tempo e aceitação social. A abundância futura nasce, paradoxalmente, de uma sequência de constrangimentos muito concretos.

Esse paradoxo acompanhou-me também no meu próprio processo cirúrgico. No meu caso, a questão não era instalar capacidade computacional num território energético limitado, mas posicionar uma lente dentro de uma estrutura ocular profundamente volátil, marcada por uma história clínica pouco comum, por fragilidades anatómicas e por margens de manobra muito estreitas. A imagem que me ocorre é a de alguém a tentar abrir janelas numa taça de mousse: uma matéria instável, delicada, pouco previsível, onde qualquer gesto tem de ser suficientemente firme para transformar, mas suficientemente subtil para não destruir.

É aqui que o meu agradecimento ao Dr. Travassos ganha uma dimensão que vai além da competência técnica. A cirurgia, nestas condições, não é apenas aplicação de protocolo. É julgamento em tempo real. É geometria aplicada a tecido vivo. É uma forma de engenharia feita com mãos humanas, conhecimento acumulado e uma tolerância quase artesanal à incerteza. Tal como nos grandes projetos de infraestrutura tecnológica, há planos, modelos, cenários e instrumentos; mas depois existe o terreno. E o terreno, seja ele uma rede elétrica nacional ou um olho altamente irregular, raramente se comporta como nos desenhos.

O que me impressiona, neste cruzamento entre data centers e cirurgia ocular, é que ambos exigem uma coragem muito específica: a coragem de trabalhar antes de haver garantias absolutas. Os grandes projetos de inteligência artificial avançam apesar das dúvidas sobre energia, hardware, regulação, retorno económico e arquitetura futura. A medicina cirúrgica avança, por vezes, apesar da incerteza anatómica, da volatilidade dos tecidos, da imprevisibilidade da recuperação e da impossibilidade de prometer resultados perfeitos. Em ambos os casos, a alternativa a tentar é aceitar que certas janelas nunca sejam abertas.

Mas há uma parte deste processo que não pertence apenas à técnica, nem ao planeamento, nem à capacidade de executar uma intervenção difícil. Pertence à noite. Àquela noite concreta, de 29 para 30 de junho, em que eu ainda tinha o olho tapado, em que nada estava confirmado, em que a luz era ainda uma hipótese e não uma evidência. Essa noite foi, de certa forma, o equivalente humano ao período de espera de qualquer grande projeto incerto: depois da decisão tomada, depois da intervenção feita, depois do investimento de confiança, fica um intervalo suspenso em que ainda não sabemos se a janela abrirá, se a estrutura resistirá, se o gesto encontrará a sua recompensa.

Foi aí que a enfermeira Beatriz teve uma importância que dificilmente se mede em linguagem clínica. No escuro da incerteza, a sua voz lembrou-me o essencial: manter o olhar em frente, mesmo que tapado; imaginar o quadro mais bonito que alguma vez tivesse visto; contemplá-lo por dentro, enquanto esperávamos que a luz eventualmente chegasse. Não era apenas uma frase de conforto. Era quase uma instrução interior. Uma forma simples e profundamente humana de reorganizar o medo, de devolver direção ao pensamento, de lembrar que, mesmo quando os olhos ainda não podem confirmar, a consciência pode continuar orientada para a luz.

Essa voz, naquela noite, foi uma espécie de consciência no escuro da incerteza. Num tempo em que falamos tanto de inteligência artificial, de modelos, de sistemas autónomos e de máquinas capazes de reconhecer padrões, há gestos humanos que continuam insubstituíveis: uma presença, uma palavra certa, uma voz que não resolve tecnicamente o problema, mas impede que a pessoa se perca dentro dele. A enfermeira Beatriz representou isso: o cuidado que acompanha a técnica; a humanidade que atravessa o intervalo entre o ato médico e o resultado; a lembrança de que, antes de qualquer diagnóstico ou medida de acuidade, há alguém à espera no escuro.

Também por isso, a ideia de data centers orbitais — ainda especulativa, mas cada vez mais discutida como resposta a limitações terrestres de energia, arrefecimento e escala — parece-me uma metáfora poderosa. Quando o solo se torna insuficiente, a imaginação procura outro plano. O mesmo acontece na medicina, na reabilitação e na vida com deficiência: quando os caminhos habituais não servem, é preciso procurar outros ângulos, outras tecnologias, outras combinações de conhecimento. Talvez a abundância não comece quando desaparecem os limites, mas quando aprendemos a desenhar soluções que os contornam com inteligência.

No meu caso, essa inteligência teve rostos concretos: o do Dr. Travassos, o da equipa do Centro Cirúrgico de Coimbra, e o da enfermeira Beatriz, naquela noite em que a espera precisava de uma voz. Agradeço não apenas a execução técnica, mas a disponibilidade para entrar num caso difícil sem o reduzir à sua dificuldade. Agradeço a seriedade, a precisão, a atenção, o cuidado e essa forma rara de competência que não faz espetáculo de si própria, mas muda silenciosamente a vida de quem dela depende. Agradeço também a quem, no momento em que eu ainda não podia ver, me ajudou a imaginar uma imagem bonita o suficiente para continuar a olhar em frente.

Se os data centers são, de certo modo, catedrais contemporâneas da inteligência artificial, talvez as salas de cirurgia venham a ser algumas das suas capelas mais humanas. Não porque substituam o cirurgião, nem porque transformem o ato médico numa decisão automática, mas porque poderão tornar-se lugares onde a inteligência acumulada de milhares ou milhões de casos anteriores acompanha, em tempo real, a mão competente de quem opera. Um dia, talvez, cada pessoa que se deite numa mesa de operação não esteja apenas entregue à experiência daquele momento, mas também ao conhecimento silencioso de todos os que ali estiveram antes: dados reunidos, padrões reconhecidos, complicações aprendidas, trajetórias comparadas, possibilidades calculadas. Não para apagar a responsabilidade humana, mas para a ampliar.

Nesse futuro, a sala de cirurgia poderá ser mais do que o espaço onde se trata um caso individual. Poderá ser o ponto de encontro entre a singularidade absoluta de um corpo concreto e a memória coletiva de muitos corpos anteriormente tratados. A mão do cirurgião continuará a ser humana, prudente e responsável; mas ao seu lado poderá estar uma inteligência capaz de convocar, em segundos, uma experiência que nenhum ser humano isolado poderia acumular numa vida inteira. Talvez seja essa a verdadeira migração dos data centers para a medicina: não edifícios cheios de máquinas a substituir salas de cirurgia, mas a inteligência desses mundos a entrar discretamente nelas, ao serviço de uma decisão mais informada, mais precisa e mais justa.

Por isso, este agradecimento não é banal. É o reconhecimento de que, naquele espaço cirúrgico, se tentou construir uma janela numa taça de mousse. E que essa janela, mesmo pequena, mesmo incerta, mesmo dependente da evolução dos próximos dias e meses, representa algo imenso: a possibilidade de continuar a olhar para o futuro não apenas como sobrevivência, mas como projeto. Ao Dr. Travassos, à equipa do Centro Cirúrgico de Coimbra e à enfermeira Beatriz, o meu obrigado por terem colocado ciência, técnica e humanidade ao serviço dessa possibilidade — e por me lembrarem que, mesmo antes da luz chegar, já é possível começar a olhar para ela.

Tiago Matos

(*) Texto de agradecimento ao Dr. Travassos, à equipa do Centro Cirúrgico de Coimbra e à enfermeira Beatriz

Deixar um Comentário