A elevada frequência das patologias do foro ORL em crianças e adolescentes fazem da otorrinolaringologia pediátrica uma área de particular relevância. A colaboração não está garantida e a expetativa dos pais necessita de alguma gestão
As expetativas
O expetativa é algo poderoso. Não podemos saber ao certo o que pensa e antecipar quem vem à nossa consulta, sobretudo se se tratar de uma criança.
Recentemente, ao terminar uma consulta de um menino de cinco anos, fui surpreendido por uma pergunta que nunca me tinham feito: – “Onde está o meu brinquedo?” A minha surpresa inicial só encontrou solução quando os pais me explicaram que no gabinete do pediatra, onde iam habitualmente, num país estrangeiro, existia uma cesta com brinquedos propositadamente para serem levados pelas crianças após a consulta.
É importante compreender este facto, sobretudo por parte dos pais, pois ainda antes de entrarem no consultório, eles têm o enorme poder de construir uma expetativa positiva relativamente à ida ao médico.
Numa área em que o exame físico é tão importante como na ORL, ter uma criança que colabore nesta avaliação é fundamental. Claro que a colaboração por parte de crianças pequenas, nomeadamente até aos 2 anos, não está garantida mesmo que se tomem todos os cuidados possíveis. Contudo, à medida que a idade aumenta a grande maioria delas, não só colabora, como gosta de vir à consulta, natural e genuinamente, mesmo sem receber uma prenda no final.
As patologias
A otorrinolaringologia pediátrica ocupa um lugar de particular relevância na prática médica, devido à elevada prevalência das patologias tratadas e ao impacto que estas têm na qualidade de vida da criança e dos restantes elementos da sua família. A prática clínica diária caracteriza-se por um conjunto relativamente constante de patologias.
A hipertrofia das adenóides e das amígdalas resulta frequentemente em sintomas como a respiração oral, roncopatia e distúrbios respiratórios do sono, como a ocorrência de episódios de apneia noturna (períodos de tempo com alguns segundos de duração em que a respiração da criança se suspende). Estas alterações do sono podem implicar dificuldades no rendimento escolar e alterações do comportamento, levando à necessidade de acompanhamento prolongado e, por vezes, de intervenção cirúrgica.
As otites médias, incluindo a otite média aguda e a otite média com efusão, são outro motivo de consulta habitual e estão relacionadas com a imaturidade do sistema imunitário e com particularidades anatómicas da trompa de Eustáquio nas crianças, sobretudo nos primeiros anos de vida. Estas patologias são uma das principais causas de dor, febre e preocupação parental, sendo também responsáveis por alterações auditivas transitórias ou persistentes.
Outras infeções como a rinite infeciosa, a rinossinusite e a faringite / amigdalite são também muito comuns e estão associadas ao contexto escolar e à exposição continuada a agentes infeciosos. Estas situações, sobretudo quando são recorrentes, têm impacto direto no bem-estar geral da criança.
Por fim, as alterações da linguagem / fala e da voz, apesar de menos frequentes e por vezes transitórias, estão geralmente associadas a causas identificáveis e tratáveis e, como tal, devem também ser avaliadas pela especialidade.
Os desafios
Apesar da recorrência destas patologias, o que torna a otorrinolaringologia pediátrica particularmente gratificante é o contacto com a criança, enquanto um ser em desenvolvimento.
A partir dos três anos de idade, observa-se frequentemente uma mudança significativa na forma como a criança encara a consulta médica. Nesta fase, muitas crianças já conseguem expressar-se melhor, demonstram curiosidade e participam ativamente no exame clínico. É comum ver crianças que entram no consultório com entusiasmo, interessadas nos instrumentos e no funcionamento dos mesmos, transformando a consulta num momento positivo.
No entanto, a prática da otorrinolaringologia pediátrica apresenta também desafios significativos. O medo e a ansiedade, sobretudo nas crianças mais pequenas, dificultam por vezes a observação clínica. O choro, a resistência ao exame e a necessidade de contenção mínima exigem paciência, sensibilidade e experiência. Acresce ainda a gestão das expectativas dos pais que, muitas vezes, chegam à consulta apreensivos ou com receio de intervenções mais invasivas.
Trata-se de uma área onde o conhecimento técnico se cruza constantemente com a empatia e a capacidade de adaptação do médico às diferentes fases do desenvolvimento infantil. Exercê-la implica compreender que cada consulta vai além do diagnóstico e do tratamento, é um encontro humano muitas vezes marcado pela curiosidade, pelo receio, mas também por momentos de partilha e alegria.
Filipe Rodrigues
(Médico Otorrinolaringologista; OM n.º 51682)

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