Chama-se Tomografia Computorizada de Feixe Cónico e traz as imagens de três dimensões ao diagnóstico da saúde oral. Ultrapassam-se as limitações da imagem bidimensional e ganha-se detalhe e informação segura
A medicina dentária tem evoluído de forma significativa nas últimas décadas, beneficiando de novas tecnologias que tornaram os diagnósticos mais precisos e os tratamentos mais seguros. Um dos avanços mais importantes neste campo é a Tomografia Computorizada de Feixe Cónico, conhecida pela sigla CBCT. Este meio complementar de diagnóstico permite observar os dentes, os ossos e outras estruturas da boca em três dimensões, oferecendo uma visão muito mais completa do que as radiografias tradicionais.
Durante muitos anos, os exames dentários basearam-se sobretudo em imagens bidimensionais, que funcionam como fotografias planas. Embora continuem a ser essenciais, estas imagens nem sempre permitem perceber a verdadeira posição ou dimensão das estruturas internas. O CBCT veio ultrapassar esta limitação, possibilitando ao médico dentista visualizar a boca com profundidade, largura e altura, o que facilita a compreensão de situações mais complexas e melhora a decisão clínica.
O CBCT é rápido, indolor e simples. O paciente permanece imóvel enquanto o aparelho roda em torno da cabeça durante alguns segundos. A partir dessa informação, é gerada uma imagem tridimensional detalhada. Uma das suas grandes vantagens é a utilização de uma dose de radiação controlada e ajustada à necessidade clínica. O exame só é prescrito quando a informação adicional que fornece é relevante para o diagnóstico ou planeamento do tratamento, respeitando sempre as rigorosas normas de segurança.
Nos tratamentos de canais dos dentes, também conhecidos como tratamentos endodônticos, o CBCT tem um papel particularmente importante. O interior dos dentes pode apresentar canais muito finos, ramificados ou com trajetos irregulares, que nem sempre são facilmente identificados em radiografias convencionais. Com esta tecnologia, o médico dentista consegue observar estes canais em detalhe, detetar lesões precoces ou fraturas da raiz e planear o tratamento de forma mais precisa. Esta abordagem aumenta as hipóteses de sucesso e ajuda a evitar procedimentos repetidos ou desnecessários.
O CBCT é também muito útil na deteção de infeções junto à raiz do dente. Em alguns casos, estas infeções não provocam sintomas evidentes e podem não ser visíveis com meios radiográficos tradicionais. A imagem tridimensional permite identificá-las numa fase inicial, possibilitando um tratamento mais atempado e conservador, com benefícios claros para a saúde do paciente.
Na área dos implantes dentários, este tipo de aquisição de imagens tornou-se praticamente indispensável. Antes da colocação de um implante, é essencial avaliar se existe osso suficiente e qual a sua forma e espessura. Este exame radiográfico avançado e não invasivo permite realizar estas medições com grande precisão e identificar estruturas importantes, como nervos e cavidades anatómicas, reduzindo o risco de complicações. Com base nestas imagens, o médico dentista pode planear o procedimento com maior segurança e, em muitos casos, recorrer a técnicas digitais que orientam a colocação do implante de forma extremamente precisa.
Este exame também é muito importante na Ortodontia porque permite ver assimetrias faciais, dentes impactados e ajuda no planeamento de cirurgias ortognáticas. Além disso, proporciona uma análise detalhada Além disso, proporciona uma análise detalhada que ajuda a prevenir eventuais complicações. Através da análise tridimensional, o ortodontista consegue identificar limitações ósseas, reabsorções radiculares, proximidade de dentes a estruturas sensíveis e avaliar com maior rigor as possibilidades de movimento dentário.
Outra situação em que o CBCT se revela particularmente útil é na avaliação dos dentes do siso inferiores. Estes dentes podem estar muito próximos de um nervo importante que passa no interior do osso da mandíbula. As radiografias convencionais nem sempre permitem perceber claramente essa relação. O CBCT mostra exatamente a posição do nervo em relação às raízes do dente, ajudando o profissional de saúde a planear a extração de forma mais segura e a reduzir o risco de complicações neurológicas.
Uma preocupação frequente por parte dos pacientes prende-se com a exposição à radiação. Os equipamentos modernos de CBCT foram desenvolvidos para utilizar a menor dose possível, de acordo com padrões internacionais de segurança. Em muitos casos, a quantidade de radiação é semelhante à de outros exames dentários comuns. Além disso, o exame só é recomendado quando os benefícios para o paciente superam claramente os riscos, sendo sempre uma decisão cuidadosamente ponderada.
Nos últimos anos, esta tecnologia tem sido ainda reforçada com a integração de ferramentas de Inteligência Artificial. Estes sistemas ajudam os profissionais de saúde a analisar as imagens com maior rapidez, identificando estruturas importantes ou a existência de eventuais variações anatómicas. É importante salientar que a Inteligência Artificial não substitui o médico dentista, funcionando apenas como um apoio adicional à conduta clínica, contribuindo para diagnósticos mais fiáveis.
Para além da medicina dentária, o CBCT tem vindo a ser utilizado noutras áreas da saúde que envolvem a região da face e do crânio. Na otorrinolaringologia, este exame pode ajudar na avaliação dos seios perinasais, da cavidade nasal e de alterações anatómicas associadas a problemas respiratórios. Na cirurgia maxilofacial é utilizado no estudo de fraturas faciais, deformidades ósseas e no planeamento de cirurgias reconstrutivas. Existe também um interesse crescente na sua aplicação na medicina do sono, nomeadamente na avaliação das vias aéreas superiores em pessoas com ressonar ou apneia do sono.
Em resumo, o CBCT é um exame moderno que apresenta vantagens significativas para a saúde oral e para outras áreas médicas. Ao permitir uma visualização tridimensional detalhada, ajuda os profissionais de saúde a diagnosticar melhor, planear tratamentos com maior segurança e a oferecer cuidados mais personalizados. Quando devidamente indicado, representa um benefício claro para o paciente, contribuindo para que se efetuem tratamentos mais seguros.
Fernando Guerra
(Médico Dentista; OMD n.º 1015)

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