Sons estranhos, incomodativos ou misteriosos podem fazer-se ouvir pela calada da noite e durante o sono das crianças. O que era para ser uma noite de serenidade, nem sempre é

Quando o sol começa a descer, ao longe, na linha do horizonte e começam as rotinas de preparação para o sono. O acto de adormecer uma criança – momento que se deseja repleto de ternura – pode, por vezes, representar um desafio, pelo tempo e dedicação que exige. Mas depois da chega a do sono, aguarda-se a bonança – olhos fechados, respiração calma, corpo confiado à cama – e instala-se o silêncio.

Os pais consumidos pelos afazeres do dia anseiam por poder desfrutar da serenidade da noite.

No quarto da criança, os pais esperam que reine a quietude, que o sono seja calmo e silencioso, interrompido, quando muito, por um choro breve, um suspiro, um gemido, o som de sucção ou uma palavra solta, dependendo da idade. Mas nem sempre assim acontece e sons estranhos, incomodativos ou misteriosos podem fazer-se ouvir pela calada da noite, alguns mais característicos do início do sono, outros do final da noite. Apesar de inquietantes, a maioria desses sons raramente indica doença. Atente a alguns dos sons e comportamentos mais frequentes que “se fazem ouvir” à noite e durante o sono das crianças.

Bruxismo

O bruxismo – ranger involuntário dos dentes – é um distúrbio frequente. Pode surgir ainda no primeiro ano de vida, afetando cerca de metade dos lactentes. Em crianças entre os 2 e os 6 anos, a prevalência varia entre 17% e 30%, podendo, por vezes, persistir até à idade adulta.

Este comportamento está, muitas vezes, associado a fatores como problemas respiratórios do sono, ansiedade, perturbações do desenvolvimento, má oclusão maxilar ou até cáries dentárias. As consequências mais comuns, para além do incómodo para quem está a ouvir (e por vezes não conseguir dormir), incluem desgaste do esmalte dentário, cefaleia e desconforto nos maxilares.

Na maioria dos casos, não há motivo de preocupação. Embora não exista medicação específica para o bruxismo, criar uma rotina de sono tranquila e aplicar técnicas de relaxamento pode ajudar bastante. Com o crescimento, o sintoma vai diminuindo de frequência e habitualmente desaparece antes de aparecer a dentição definitiva. Em alguns casos raros, é necessária uma abordagem multidisciplinar. Se houver sinais de desgaste ou outros sintomas preocupantes, deve-se consultar um médico dentista — e, raramente, pode ser necessário considerar o uso de uma proteção dentária.

Movimentos rítmicos do sono

O headbanging (bater com a cabeça) e o bodyrocking (balançar o corpo) são comportamentos mais frequentes em crianças pequenas, que muitas vezes surgem como forma de autoconforto para facilitar o adormecimento. O headbanging consiste no batimento repetitivo da cabeça contra a almofada, as barras da cama ou a parede, enquanto que no bodyrocking há um abanar do corpo, sobretudo da sua metade superior, de um lado para o outro.

Podem surgir a partir dos 6 meses e tanto acontecem na hora de dormir como durante a sesta — ou até ao longo da noite, quando a criança acorda brevemente. Os episódios acompanham-se, por vezes, de vocalizações e duram cerca de 15 minutos. Mais de metade das crianças apresenta esses comportamentos em alguma fase da infância, e na maioria dos casos, são inofensivos. O incómodo é normalmente para quem ouve os sons repetitivos da cama ou das pancadas contra a parede.

Evitar repreensões é fundamental, pois podem ser contraproducentes. Pode-se proteger as laterais e pés da cama ou afastá-la da parede para minimizar o ruído. Estes movimentos tendem a diminuir com o crescimento da criança e raramente se prolongam até à adolescência. No caso de persistirem, especialmente durante o dia, podem estar associados a dificuldades no desenvolvimento, da visão ou à perturbação de hiperatividade e défice de atenção (PHDA). Nesta situação a orientação de um especialista poderá ser importante.

Sonilóquio (falar durante o sono)

Cerca de 60% das crianças falam durante o sono em algum momento da infância.

Podem rir, chorar, murmurar palavras soltas ou até responder inconscientemente) a perguntas. As respostas podem não ter sentido e os sons emitidos podem ser incompreensíveis. O episódio pode ocorrer em qualquer fase do sono e, na manhã seguinte, a criança não tem qualquer memória do acontecimento. Embora não seja considerado um problema significativo, pode indiciar alguma pressão ou ansiedade sentida pela criança. A melhor forma de lidar é manter a calma e não interagir.

Terrores noturnos

Os terrores noturnos são parassónias – alterações do comportamento durante o sono – da fase NREM, mais frequentes na primeira parte da noite, altura em que esta fase de sono é mais abundante. Mais frequentes entre os 4 e os 12 anos de idade, são por vezes desencadeados por ritmos e/ou horários desadequados de sono. São eventos que se acompanham de sinais de medo intenso, em associação com manifestações fisiológicas; isto é, a criança pode estar com os olhos muito abertos com aspeto aterrorizado, a gritar ou a chorar, por vezes a transpirar e com respiração e batimentos cardíacos acelerados. A criança pode ter comportamentos estranhos e rejeitar a presença dos pais, chegando a ser agressiva. O episódio é mais assustador para quem o presencia do que para quem o está a vivenciar. Na manhã seguinte a criança não tem habitualmente memória do acontecimento. A criança deve ser suavemente conduzida à cama e tentar que não acorde. O facto de despertar no meio de uma “tempestade fisiológica” poderá causar grande desconforto e deixar uma má recordação do evento.

Nem sempre é percebida a distinção entre terrores noturnos e pesadelos que são eventos distintos e que implicam condutas diferentes por parte dos pais. No pesadelo há muito menos turbulência, ocorre mais frequentemente na segunda metade da noite e a criança recorda-se do “sonho mau” no dia seguinte.

Apesar de impressionantes, os terrores noturnos muito raramente indicam doença e costumam desaparecer espontaneamente até à adolescência.

Despertar confusional

Os despertares confusionais caracterizam-se por episódios de confusão mental e/ou comportamental que ocorrem enquanto a criança está na cama, sem que haja tentativa de saída da cama ou expressão de terror. A criança habitualmente senta-se com olhar vago, parecendo acordada, mas desorientada, com respostas vagas a perguntas simples.

Os episódios geralmente ocorrem na primeira metade da noite e começam com um gemido e com alguns movimentos, podendo progredir para o choro. A duração, habitualmente de alguns minutos, pode chegar a uma hora e não fica na memória residual. O seu início ocorre habitualmente antes dos 5 anos de idade e frequentemente desaparecem pela adolescência. Os pais devem deitar a criança com calma, procurando não acordá-la.

Catatrenia

A catatrenia é um distúrbio respiratório do sono raro, caracterizado por gemidos prolongados e repetidos durante a expiração. Muitas vezes confundida com o ressonar, distingue-se por ocorrer na expiração e não na inspiração. O som – por vezes comparado ao grunhido do Chewbacca do Star Wars – dura menos de um minuto e pode surgir por episódios ao longo da noite. Apesar do ruído, o padrão respiratório é calmo e a oxigenação normal.

Pode iniciar-se na infância, mas é mais comum a partir da adolescência. A criança que o manifesta geralmente não se apercebe e acorda bem-disposta, sem sintomas diurnos, exceto, ocasionalmente, uma “impressão” na garganta. O principal impacto é de âmbito social, já que o som pode ser muito perturbador. Pode associar-se a outros problemas do sono e manifestar-se noutros familiares. O diagnóstico é feito por estudo do sono, e o tratamento é individualizado, podendo incluir, muito raramente, medidas posturais ou dispositivos mandibulares.

Ressonar

Ressonar ocasionalmente é comum, mas cerca de 10-15 % das crianças fazem-no de uma forma regular, o que não é normal. O som resulta da vibração de estruturas nas vias aéreas superiores por resistência à passagem do ar na inspiração, que pode ser causada transitoriamente por infeção ou, mais regularmente, por aumento das amígdalas e/ou adenoides (comum entre os 3 e os 7 anos), conformações particulares do crânio e da face, obesidade, rinite alérgica e exposição a fumo de tabaco.

Em alguns casos, ocorrem apneias – pausas na respiração – seguidas de despertares breves que fragmentam o sono e em que pode haver diminuição da oxigenação, situação denominada de síndrome de apneia obstrutiva do sono. Os sintomas noturnos incluem a respiração ruidosa, pausas respiratórias, sudação, enurese, e posições estranhas ao dormir. De dia, surgem dificuldade em acordar, dores de cabeça, hiperatividade ou sonolência, défice de atenção e irritabilidade. A perturbação continuada do sono na criança pode afetar o crescimento e a aprendizagem, além de aumentar o risco de hipertensão e diabetes a longo prazo.

É fundamental reter que ressonar não é normal e que a avaliação clínica deve ser sempre feita por um médico e pode incluir um estudo do sono num laboratório. O tratamento mais comum é a cirurgia para remoção das amígdalas e adenoides, embora casos ligeiros possam melhorar com tratamento medicamentoso. Em situações mais complexas, pode ser necessário o uso de dispositivos dentários ou, muito raramente, de ventilação noturna com máscara.

Após o tratamento, a vigilância contínua é essencial, pois a persistência do problema pode afetar o crescimento facial e dentário, além de manter o risco de complicações.

Quando a noite fala: o ruído do desenvolvimento

A ocorrência preferencial de cada evento em determinada parte da noite é explicada pelo facto de estar mais relacionado com uma fase específica do sono. O sono NREM predomina na primeira parte da noite, ao contrário do sono REM que predomina na segunda metade.

Na grande maioria das situações, as crianças não têm qualquer recordação do episódio na manhã seguinte e existe uma relação com o processo de desenvolvimento da criança, tendendo a desaparecer com o passar do tempo.

A informação e a serenidade dos pais são fundamentais para lidar com esses episódios com confiança e tranquilidade. Entre todos, o ressonar persistente é o que, à partida, exige uma avaliação médica obrigatória.

Maria Helena Estêvão
(Médica Pediatra, com competência em Medicina do Sono; OM n.º 20668)

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