Ao longo da minha prática clínica, compreendi que cuidar da visão é, muitas vezes, redesenhar a forma como o indivíduo se relaciona consigo próprio, com o outro e com o real. A realidade não se impõe simplesmente ao olhar; ela revela-se quando o olhar está disponível
Ver é um ato substancialmente mais complexo do que a mera receção de estímulos luminosos. Ao longo da minha prática clínica, compreendi que cuidar da visão é, muitas vezes, redesenhar a forma como o indivíduo se relaciona consigo próprio, com o outro e com o real. Esta constatação obrigou-me a repensar o conceito de beleza e o impacto da intervenção médica na identidade de quem nos procura.
Recordo-me de momentos em que uma pessoa, após recuperar a acuidade visual através de uma cirurgia, permanece em silêncio diante de um espelho antes de confessar: “Doutor, vejo bem… mas sinto-me triste. Não tinha consciência destas rugas.” Este não é um silêncio clínico; é um hiato de autoanálise. Nesse instante, ocorre uma reorganização profunda da identidade. Uma nova realidade emerge, agora com contornos definidos, mas também com uma carga emocional renovada. O detalhe, outrora diluído na névoa da patologia, impõe-se com nitidez — e com ele nasce uma nova, por vezes exigente, forma de atenção.
Foi a partir destas experiências que entendi que a realidade não se impõe simplesmente ao olhar; ela revela-se quando o olhar está disponível. Ver melhor não significa aderir a um padrão estético, mas ganhar acesso a um entendimento mais denso da verdade. Um rosto não se torna belo por corresponder a uma proporção ideal, mas porque, ao ser visto com clareza, permite reconhecer as marcas do tempo que narram uma biografia. A beleza, neste contexto, emerge da proximidade e da honestidade, nunca da idealização.
A dimensão afetiva da visão torna-se particularmente evidente no reencontro com o próximo. Há uma emoção profunda no relato de quem volta a distinguir as expressões daqueles que ama. Nestes momentos, o afeto não surge como um erro de perceção, mas como uma forma legítima de conhecimento.
Amar altera o olhar porque reorganiza aquilo que se torna significativo. O provérbio popular “quem o feio ama, bonito lhe parece” deixa então de ser uma expressão ingénua para se revelar uma síntese rigorosa: a beleza não reside no objeto isolado, mas na qualidade da relação que com ele estabelecemos.
Enquanto médico, o meu papel não é determinar o que cada indivíduo deve considerar belo. A minha missão amplia-se antes à criação das condições técnicas que permitem ao olhar tornar-se mais límpido e atento. Ao restituir a acuidade visual, não impomos consensos estéticos; devolvemos possibilidades. Cada pessoa constrói, a partir da transparência recuperada, o seu próprio modo de ver, sentir e atribuir valor à existência.
A oftalmologia participa, assim, na dignificação da experiência humana. Ao permitir uma visão plena, contribui para que a perceção do belo se afaste de normas rígidas e se aproxime da vida na sua autenticidade. A beleza deixa de ser um critério exterior e transforma-se num acontecimento interior.
Se há algo que a prática me tem ensinado, é que ver melhor é a premissa para nos relacionarmos melhor com o mundo. Talvez a beleza, no seu sentido mais ético e profundo, seja precisamente isto: aquilo que se revela quando o olhar encontra clareza e tempo suficientes para reconhecer o valor do que vê.
António Travassos
(Médico Oftalmologista; OM n.º 15373/C-3334)

Um texto que é um poema de Amor. Obrigado AT.
ReplyFaço minhas as palavras do Jorge Barbosa .
E ainda mais só tenho a agradecer ao Sr doutor a minha visão .
ReplyMuito obrigada por tudo o que tem feito por mim e pelo meu marido .
Muito bom !
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