Esta é a história de uma família de vírus que veio para nos perturbar: O HPV. Uma família muito numerosa, com muitos irmãos, enteados e filhos ilegítimos espalhados pelo mundo…

Quando pensamos na nossa infância diferentes imagens e sons nos vêm à memória, distintas sensações nos absorvem… o jardim onde brincávamos, o trambolhão de bicicleta, a professora que nos ensinou a ler, a tarde deliciosa a chapinhar no mar, um gelado de morango, chocolate e baunilha e uma bela história!

A história contada à mesa pelo meu pai era uma história verdadeira sobre 3 irmãos: o bom, o mau e o péssimo.

Esta história é, também, a história dos irmãos HPV! A diferença é que esta família é muito numerosa e pensa-se que existem muitos outros irmãos e enteados, filhos ilegítimos e rejeitados espalhados pelo mundo, com caras e cores de pele muito diferentes mas, sobretudo, distintos no seu temperamento e personalidade, na sua passividade ou agressividade.

É assim a família HPV!

Eles são mais de 200 e não têm nomes, têm números! Ainda não se conhece o nº1 mas já temos o bilhete de identidade e a informação genética de cerca de 40 irmãos HPV.

E, de facto, temos uma percentagem elevada de HPV pacíficos, sem maldade, que gostam sobretudo da pele humana para viver, podendo fazer ninhos (verrugas) maiores ou menores e que, muitas vezes, habitam o nosso corpo sem se mostrarem visíveis. Estes HPV são tranquilos e com eles nós convivemos de forma harmoniosa, sem medo da sua agressividade.

Na mulher e além da pele, podem habitar na vulva, na vagina e no colo do útero. Podem estar adormecidos ou, por vezes, particularmente na vulva, gostam de se multiplicar e formar castelos (condilomas) onde vivem em família de forma pacífica, mas não são guerreiros e não invadem os terrenos adjacentes. Podemos destruir estes HPV “bons” mas, se não o fizermos, nada teremos a temer!

Contudo, alguns irmãos são “maus”! Ou seja, se existirem em grande quantidade, se viverem um terreno favorável e o hospedeiro for frágil, sem armas para os combater, eles são capazes de ferir ou, até, matar!

Dentro deste grupo dos irmãos maus existem ainda os muito maus, os “péssimos”! São os irmãos HPV que, quando se alojam no corpo da mulher, particularmente no colo do útero ou na vulva, fazem-no com intenção de matar! Não olham a meios para atingir os fins, embora nem sempre o consigam fazer.

No entanto, em mulheres mais fragilizadas e sem defesas intrínsecas, com outras doenças como infeções, cancro, doenças imunes ou congénitas, mulheres que fazem determinadas medicações de forma crónica e prolongada e mulheres com determinados hábitos, como o consumo de tabaco, entre outros, estão muito mais suscetíveis para sofrerem lesões graves e morte.

Estima-se que uma enorme percentagem de mulheres jovens está infetada por HPV, mas as mais novas e mais saudáveis estão bem protegidas e conseguem, em mais de 80% das vezes, combater sozinhas os irmãos, mesmo os maus e os péssimos. É nas mulheres depois dos 35 anos que os HPV agressivos provocam feridas graves e, por vezes, incuráveis.

Também se sabe que estes HPV tendem a viver nos genitais femininos logo após as primeiras relações sexuais e têm um contrato de arrendamento até 2 anos. A partir dessa data, se não saírem sozinhos, teremos que os expulsar. Não podemos permitir, em circunstância alguma, que se mantenham a ocupar estas habitações e que se proponham destruí–las… 

Podemos expulsar estes HPV de forma menos invasiva, caso estes irmãos ainda não tenham feito estragos. Basta destruí-los, limpar a casa e pintar novamente as paredes. Mas, se já começaram a partir janelas, a destruir o telhado e se se multiplicarem e ficarem em grande concentração a viver neste espaço exíguo, se tencionam invadir o jardim, teremos que utilizar estratégias demolidoras para os arrasar por completo. Se for necessário, abatemos os quartos e salas que eles habitam e construímos de novo.

Os “maus” e os “péssimos” devem ser diagnosticados e rapidamente tratados, desde que estejam a causar estragos.

Esta é a história de uma família de vírus que veio para nos perturbar! Mas esta é, também, a história do avanço da medicina em todo o seu esplendor – a medicina preventiva, a medicina que diagnostica e trata antes da desgraça!

Margarida Figueiredo Dias
(Médica, Ginecologista; OM n.º30672)

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