Há moduladores invisíveis e uma neuroquímica por detrás da habilidade do movimento. Para além dos músculos, da atenção, da tarefa repetida, da emoção e do sono, há um jogo químico que demonstra o poder da neuroplasticidade O cérebro “fala” com os músculos e cada movimento treinado constrói – pouco a pouco – novas estradas neuronais
Durante décadas acreditámos que o cérebro adulto era relativamente imutável. Hoje, sabemos que o sistema nervoso é dinâmico, flexível e capaz de se reinventar ao longo de toda a vida. Esta capacidade – a neuroplasticidade – é o que nos permite aprender, adaptar, recuperar após lesões e moldar comportamentos, em função das experiências que vivemos.
A neuroplasticidade é, em essência, o modo como o cérebro reorganiza as suas ligações, reforçando as mais utilizadas e eliminando as redundantes. E este fenómeno, longe de ser abstrato, é profundamente influenciado pelas emoções, pela motivação, pelos neurotransmissores, pelo sono e até pela idade. É essa habilidade que explica a aquisição de novas competências até à recuperação após um acidente vascular cerebral.
Quando o cérebro aprende – circuitos que ganham vida
Quando prestamos atenção a algo ou vivenciamos uma experiência significativa, determinados grupos de neurónios são ativados com maior frequência. Os estímulos — motores, sensoriais ou cognitivos — ativam vias neuronais específicas, e quanto mais estas vias são usadas, mais forte se torna a sua resposta. É assim que “se grava” algo na memória: através de repetição orientada e atenção focada.
Sempre que praticamos uma habilidade repetidamente — caminhar, tocar piano, executar um exercício de fisioterapia — determinadas vias neuronais são ativadas vez após vez. Com o tempo, esta repetição transforma-se num verdadeiro “reforço estrutural”: as sinapses tornam-se mais fortes, aumentam os neurotransmissores libertados e os recetores tornam-se mais sensíveis ao estímulo.
Sinapses que se fortalecem e outras que se apagam
O processo de fortalecimento das sinapses chama-se potenciação a longo prazo (LTP) e representa a base biológica da aprendizagem. O inverso também acontece: sinapses pouco utilizadas enfraquecem ou desaparecem, num processo designado depressão a longo prazo (LTD). Assim, o cérebro otimiza recursos e concentra energia (o ATP – adenosina trifosfato – produzido nas mitocôndrias, as fábricas de energia celulares) naquilo que realmente importa. A capacidade de produzir energia é limitada e esta otimização é essencial para maximização do funcionamento.
O papel silencioso da dopamina
Entre os inúmeros neurotransmissores envolvidos, a dopamina ocupa um lugar muito especial. Ela participa no movimento, na aprendizagem, na motivação, no prazer e no reforço das sinapses. Em doses adequadas, cria um ambiente químico favorável ao crescimento neuronal, reforça ligações e facilita a consolidação da memória.
Não é por acaso que aprendemos melhor quando estamos motivados ou emocionalmente envolvidos. A dopamina é libertada quando a atividade tem significado ou recompensa, funcionando como um “sinal de aprovação” que diz ao cérebro: continua, isto é importante.
Quando o treino é motivador, prazeroso e emocionalmente significativo, a dopamina influencia a libertação de outros neurotransmissores e modula emoções, humor e capacidade de recuperação, facilitando ainda mais a consolidação das novas ligações neuronais. Mas o equilíbrio é essencial.
Um excesso de dopamina pode gerar agitação, tal como níveis elevados de cortisol — a hormona do stress — podem provocar neuro-inflamação e prejudicar a recuperação. A neuroplasticidade é, por isso, um delicado jogo bioquímico.
Fatores tróficos e neurogénese: os arquitetos internos
Além dos neurotransmissores, o cérebro conta com moléculas chamadas fatores neurotróficos, como o BDNF (fator neurotrófico derivado do cérebro), que reforça sinapses, estimula o crescimento de dendrites (prolongamentos do corpo celular dos neurónios, que ampliam a possibilidade de interconexões neuroquímicas) e promove a neurogénese — a criação de novos neurónios em áreas como o hipocampo (estrutura responsável pelo armazenamento de memórias a longo prazo).
Estes fatores não são iguais em todas as pessoas. A genética individual determina parte da quantidade e qualidade destas proteínas, influenciando o ritmo de aprendizagem, a resposta ao treino e a recuperação após lesão ou doença.
Neuroplasticidade e depressão
Em pessoas com depressão, a produção de BDNF diminui e as dendrites retraem-se. O cérebro perde “raminhos” de comunicação, tornando mais difícil reforçar sinapses ou criar novas ligações. Na prática, significa que a aprendizagem — incluindo a aprendizagem motora necessária na fisioterapia — é mais lenta e exige abordagens motivacionais, progressivas e cuidadosamente estruturadas.
Emoções, atenção e sono: os moduladores invisíveis
Aprender exige mais do que repetir. Exige atenção — um foco cognitivo que orienta o cérebro para a tarefa. Exige emoção, porque o que tem significado para nós fixa-se melhor. E exige sono, etapa crítica para consolidar memórias e reorganizar sinapses. Todos estes elementos interagem com hormonas e neurotransmissores, modelando a capacidade do cérebro se adaptar. O resultado final — mais rápido ou mais lento — depende de um conjunto de fatores internos, que atuam como “afinadores” da maquinaria neuronal. A alimentação e os hábitos de vida são influenciadores importantes a ter também em conta.
Como o cérebro “fala” com os músculos: a neuroquímica do movimento
Produzir movimento é uma verdadeira coreografia química. O córtex motor envia sinais elétricos através das vias motoras; esses sinais dependem do equilíbrio entre glutamato (excitatório) e GABA (inibitório). Quando chegam ao neurónio motor, este liberta acetilcolina, que atravessa a junção neuromuscular e inicia a contração da fibra muscular. Dentro do músculo, o cálcio, o ATP e os iões sódio e potássio completam o processo. Qualquer alteração nesta sequência pode comprometer força, coordenação e resistência.
Na fisioterapia, trabalha-se o corpo… mas sobretudo o cérebro
A fisioterapia moderna é, na sua essência, uma ciência da neuroplasticidade aplicada. O fisioterapeuta não trabalha apenas músculos e articulações — trabalha, sobretudo, o cérebro em adaptação. Quando um/a fisioterapeuta pede a uma pessoa para repetir um movimento, não está apenas a treinar um músculo: está a estimular vias neuronais, a promover libertação de dopamina e BDNF, a reforçar sinapses e a reorganizar circuitos motores.
Por isso, existem três elementos que são fundamentais:
1. Repetição com significado
A repetição ativa vias específicas; a motivação e a emoção reforçam-nas. A atenção focada torna o processo eficiente.
2. Estado emocional da pessoa
Depressão, ansiedade, sono inadequado ou stress elevado podem reduzir neurogénese, baixar dopamina e aumentar cortisol — dificultando a aprendizagem motora.
3. Estímulo sensório-motor e tecnologia
Toque, vibração, carga, fisioterapia robótica, realidade virtual ou estimulação elétrica funcional aumentam a ativação cerebral e facilitam a reorganização cortical.
A regra de ouro da recuperação
O cérebro muda quando é desafiado, motivado, repetidamente estimulado e emocionalmente envolvido. O cérebro está em permanente construção e a neuroplasticidade revela-nos que o cérebro não é uma estrutura rígida, mas um organismo vivo, moldável e responsivo. Cada movimento treinado, cada tarefa repetida, cada emoção positiva e cada noite bem dormida constroem, pouco a
pouco, novas estradas neuronais. Para a ciência do movimento e reabilitação, estes princípios tornam-se ferramentas poderosas.
Fisioterapia não é apenas exercício: é educação neuronal, engenharia sináptica e biologia aplicada ao movimento. E, quando a motivação, a ciência e a prática convergem, o cérebro faz aquilo que sempre soube fazer melhor: reinventa-se.
(Professora, investigadora na UC e mentora científica no CCCI)
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