Num tempo em que tanto se falou e outro tanto se escreveu… Escolhemos publicar a opinião de um Pediatra. Partilhamos a carta que Luís Januário escreveu a Noah, tão só porque “precisamos de alguns como tu”.
Escrevo-te esta carta para quando souberes ler. Não é provável que a venhas a encontrar. Mas imagina que um dia resolves pesquisar o ano de 2021, este mês de junho, e deparas com um episódio da tua vida. E opiniões, muitas opiniões. Entre elas estará a minha.
A minha profissão é ver crescer crianças como tu. E responder a perguntas. Está bem ou mal? Magro ou gordo? Alto ou baixo? Devia falar mais? Que lhe dou para comer? Dorme suficientemente? Porque se porta assim? Pode fazer isto? E aquilo?
Pois tu, caso não te lembres já, ou não te tenham voltado a falar disso, esta semana acordaste muito cedo, levantaste-te, e saíste pela porta da rua entreaberta. Dizem que foste atrás do teu pai. E desapareceste. Estiveste desaparecido um dia e meio.
A GNR montou um quartel-general na praça da aldeia onde vives. Vieram pessoas participar nas buscas. Não se cansaram. Fizeram-no sob a coordenação de uma equipa profissional. Milhares de pessoas pensaram em ti com afeto, preocupação e esperança. Até que um casal te encontrou. E voltaste à tua família e ao teu cão.
Tenho duas fotografias tuas. Uma foi a que os teus pais publicaram para que te procurássemos. A outra é a que mostra um momento pouco após o teu achamento. Tu és um menino esperto e aventureiro. Vê-se bem. Também se vê que o teu pai gosta de ti e que os soldados da GNR desta vez estão satisfeitos, porque fizeram o seu trabalho.
Não sei mais nada da tua família. Nem tenho de saber. Basta-me que se tenham reunido. Mas quero que saibas que os teus pais são gente boa. Tu soubeste caminhar pelos baldios de Proença, pela lama e pelos trilhos, atravessaste a vau uma ribeira, talvez te tenhas alimentado e bebido água. Não te magoaste. Não foste atacado. Talvez não tenhas encontrado nenhum animal maior do que tu. Se sobreviveste foi porque os teus pais estiveram contigo, estes anos. E te viram crescer. E te ajudaram, quando precisaste. E agora, que te perdeste, eles estiveram à frente dos que te procuraram.
Tens de ter algum cuidado. Aprender melhor os caminhos de volta. Saber olhar para o sol. Marcar os trilhos. Levar mantimentos.
Mas podes contar connosco. Espero que nos encontres, muitas vezes. Porque nós precisamos das nossas crianças, todas. E precisamos tanto de alguns como tu, Noah.
Luís Januário
(Médico, Pediatra)

Palavras sábias de um pediatra que já viu muitas crianças e muitos pais, e que vê coisas para além do aparentemente óbvio …
ReplyExcelente, Parabéns aos dois, grande coragem.
ReplyOlá Doutor.
ReplyApesar de inicialmente, tb ter equacionado que a saída do Noah de casa tão cedo e pelo tempo que andou perdido…poderiam ter havido outros contornos, tenho de concordar com as, suas palavras.
Um grande bem haja.
Discordo
ReplyCorreu bem, mas podia ter dado para o torto.
Os pais, com tanta mania do "culto a natureza" esqueceram do essencial: dar proteção a uma criança que, com 2 anos e meio, ainda não tem a mínima noção do perigo.
Sempre o admirei, como profissional mas agora ao ler a sua carta ainda passei a admirá-lo mais como ser humano.
ReplyQuem é mãe e pai sabe que é num piscar de olhos que um filho sai do nosso controle.
Não dá para imaginar a amargura desses pais durante horas que representaram longos e amargos dias para eles.
Como mãe obrigado por não julgar mas sim reconfortar.
O Noah certamente para a próxima irá ter mais cuidado e ainda lhe irá agradecer o seu ensinamento.