
Deixaram de ser raras as manifestações oculares da tuberculose. O número de casos de coroidite serpiginosa está em crescendo, o que demonstra que o bacilo se mantém dinâmico entre a nossa população, quer na forma de infeção, quer na forma ativa da doença. Aumentam os casos em que o bacilo “adormecido” desencadeia uma inflamação ocular que pode destruir grandes áreas da retina.
As competências imunológicas de cada um, no momento do contágio com o bacilo da tuberculose, podem provocar dois tipos de reação. Se nuns casos a tuberculose se manifesta como uma doença ativa, noutros não há manifestação da doença, apesar de existir infeção. Estima-se que a tuberculose ativa (doença) ocorra apenas entre 5 a 10% das pessoas infetadas pelo Mycobacterium Tuberculosi. Nos restantes casos (90 a 95%), o organismo consegue impedir a infeção eficientemente, pelo que o bacilo pode continuar alojado no organismo, com a infeção em fase de latência, não sendo esta contagiosa, nem causa de doença. A infeção mantém-se presente, mas entra num estado adormecido e, por isso, pode ser reativada anos depois, resultando em doença ativa e transmissível. Ou, então, mais frequentemente, a persistência do bacilo em se manter vivo no organismo pode acabar por causar doença por mecanismos imunológicos, sem que esta passe a ser transmissível.
A imunidade celular acaba por ser o principal mecanismo de defesa contra o bacilo da tuberculose, ditando o destino a dar a este alojamento escondido no tempo. A persistência do bacilo no organismo pode desencadear uma resposta inflamatória por um mecanismo de hipersensibilidade, uns anos mais tarde e sem que tenha surgido qualquer manifestação de doença ativa. A atuação deste mecanismo pode resultar numa doença ocular, denominada por coroidite serpiginosa, que hoje regista um aumento do número de casos, abandonando a categoria de doença rara.
Este tipo de doença ocular está mais relacionada com a infeção e muito menos com casos de doença de tuberculose ativa, mas é a persistência do bacilo da tuberculose, agora ao nível das estruturas oculares, que acaba por desencadear um quadro inflamatório grave, podendo originar lesões permanentes na retina.
Na realidade, tem sido observado um número crescente de casos de coroidite serpiginosa no nosso país, uma doença potencialmente ameaçadora da visão e que evolui por crises sucessivas de inflamação da coroideia e da retina. A sua propagação dá-se de forma geográfica ou serpenteada (serpiginosa) e acaba por envolver áreas contíguas cada vez maiores, causando cicatrizes permanentes. É fundamental o tratamento das crises inflamatórias: só assim se pode evitar a destruição de áreas crescentes da retina. Enquanto o bacilo insistir em permanecer alojado nas estruturas oculares, existirão sempre outras crises inflamatórias. A doença só será travada quando o bacilo for eliminado e, para que isso aconteça, o tratamento definitivo passa pelo recurso aos fármacos anti-tuberculose.
Rui Proença (oftalmologista)

Olá
Por gentileza, poderia esclarecer uma dúvida? Adorei a forma abordada por vocês sobre a Tuberculose ocular…
Dúvida: Os sintomas podem ser mascarados e não detectados nos exames iniciais devido o uso anterior pelo medicamento Dispropan 1 ml (corticóide) que utilizado 20 dias antes para tratar uma inflamação na garganta? Aguardo retorno.
Obrigada
ReplyDora.
Os sintomas podem ser desvalorizados, tal como também existem factores que podem mascarar a situação. O diagnóstico é sempre feito de acordo com os resultados laboratoriais e o aspecto das lesões.
ReplyPrezado Dr. Ruy,
Há um ano venho tratando de uma uveite. Já fazem 3 meses que não uso colírios com corticoide apenas colírio hidratante. Não tenho mais vermelhidão e nem sensibilidade a luz mas ainda sinto dores. Fiz vários exames para pesquisar causas virais como HIV, Megacitalovirus, Artrite Reumatoide, Toxoplasmose, e todos deram resultado negativo, apenas meu PPD resultou uma papula de 15mm (reator forte), porem os médicos descartaram a hipótese de tuberculose ocular. Gostaria de ouvir sua opinião a respeito, se possível.
ReplyAgradeço a atenção.
Pelo que expõe não será de descartar a hipótese de tuberculose ocular. O Prof. Rui Proença acrescenta ainda que deverá ser analisado todo o quadro clínico, mas só depois de uma observação é que poderá dissipar as dúvidas que ainda persistam.
ReplyBoa tarde!
ReplyTenho um amigo que perdeu a visão após ter descoberto a tuberculose ocular. Gostaria de saber se há algum tipo de cirurgia para reverter a cegueira? Seja por meio de tratamentos a laser e/ou cirúrgicos, pois tenho interesse em ajudá-lo.
Muito obrigada pela atenção.
A tuberculose ocular tem tratamento mas, à partida, não será com laser ou cirurgia. Por norma, a opção de tratamento passa pela medicação correta. Deverá ser observado em consulta, para percebermos o estado da evolução da doença.
ReplyDr Rui,em fevereiro de 2014 de repente comecei a perder a visao. Nos exames edema e degeneração de mácula, mas as coisas pioraram e depois de vários exames inclusive 3 angios e PPD 15, comecei o tratamento esquema RIPE e corticóide, tanto oral como colírio. Varias recaídas e efeitos colaterais terminei o esquema ripe 1 ano ……mesmo assim as recaídas continuaram fiz aplicação triancinolona. Fiquei ótima, dois meses depois nova recaída. Voltei aos colírios de corticóide. Pressão ocular alta. A médica falou em doença crónica .vou sempre usar predinisona oral e colirios ? Esse processo dura quase dois anos. Não sei o que fazer penso em parar com o tratamento….
ReplyDeverá ser observada em consulta para percebermos melhor a sua situação
ReplyPor favor me diga quais são os sinais e sintomas?
ReplyBom dia Gilcilene,
São vários os sintomas e sinais da doença, tornando o seu diagnóstico mais complicado. É por isso, fundamental a análise clínica do paciente.
Esta doença pode comprometer todas as partes dos olhos e anexos. As manifestações clínicas mais comuns são a uveíte (inflamação da úvea), endoftalmite (inflamação do globo ocular) e tuberculoma.
É habitual o paciente apresentar fotofobia, lacrimejar mais que o normal, apresentar dor nos olhos e baixa acuidade visual. Podem também surgir outras complicações, nomeadamente aumento da pressão intraocular, aparecimento de catarata, descolamento da retina e/ou hemorragia vítrea.
Muito obrigado.
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