As vacinas, os rastreios, os planos nacionais ou a defesa de ambientes saudáveis têm aberto o caminho da prevenção em saúde. Mas não basta. Cada um de nós deve traçar um percurso individual, onde se deve incluir atividade física e uma alimentação saudável. Depois de comer uma Fatia de Bolo Rei sabe qual o gasto energético que se exige?

Nos últimos cem anos, os avanços na comunicação transformaram a forma como vivemos e partilhamos conhecimento. Os progressos foram marcantes também para a medicina. O desenvolvimento dos antibióticos permitiu combater infeções graves, antes fatais. As vacinas modernas ajudaram a controlar doenças infeciosas. Surgiram os transplantes de órgãos, o estudo do DNA e, mais recentemente, a imunoterapia e a medicina de precisão, a abrir caminho para os tratamentos personalizados. 

Hoje, com todo o conhecimento acumulado é possível fazer mais, podemos prevenir e tomar medidas antecipadas. A prevenção ensina-nos isso e há estratégias cientificamente validadas.

A prevenção primordial começa com as políticas públicas que os diversos governos desenham para a proteção de toda uma população e vemos isso, na proibição de publicidade ao tabaco, num plano nacional de saúde escolar ou na defesa de ambientes saudáveis. Na base, estão algumas ações transversais de promoção da saúde, que previnem doenças e que terão efeitos em toda uma população.

A criação de vacinas foi sem dúvida, um marco na medicina, fazendo parte da prevenção primária, por ter como objetivo proteger o indivíduo e a população de doenças antes do seu aparecimento. As vacinas vão estimular o sistema imunitário e criar defesas específicas para doenças como: o sarampo, a poliomielite, ou o tétano, evitando-se assim surtos, epidemias, hospitalizações, sequelas e morte.

O Programa Nacional de Vacinação (PNV) em Portugal serve para prevenir muitas doenças em várias fases de vida mas, além dessas vacinas, podem ser adicionadas outras em casos específicos. Por exemplo, nos doentes com Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica, além das vacinas contra a gripe e Covid 19 (anualmente), também se deve considerar a vacina antipneumocócica, uma dose de reforço de DTP também é recomendada, além de vacinas contra o Herpes Zoster e Vírus Sincicial Respiratório (VSR).

Nas crianças, há vacinas fora do PNV, que devem ser abordadas com os pais: vacinas contra Rotavírus, Meningococos (ACWY) no 1º ano de vida, Varicela. E, no outro extremo da vida e porque são muitas vezes os avós que cuidam dos netos quando estes ficam doentes, não fará sentido um reforço imunitário quando as defesas já começam a falhar? Nestas idades, além do reforço de Tétano e Difteria a cada 10 anos e após os 65 anos, vacinas: Anti Pneumocócica, Herpes Zoster, Gripe (anualmente), a vacina contra o VSR, entre outras, devem ser discutidas com as pessoas. A Vacinação é claramente um marco da prevenção primária, pois permite evitar formas de doenças graves e de doenças infeciosas.

A suplementação com vitamina D no 1º ano de vida para evitar o raquitismo, além de que – no futuro – penso que existirão outras pessoas, em que essa suplementação vai ser necessária, pois começa a ser significativo um deficit global desta vitamina na população portuguesa. O fornecimento e utilização de preservativos, para evitar a disseminação de infeções sexualmente transmissíveis ou a utilização de seringas descartáveis para evitar a transmissão de doenças infectocontagiosas, são outras estratégias de prevenção primária.

O trabalho de prevenção não fica completo, porque cada um de nós tem antecedentes pessoais e familiares, razão porque há ações e estratégias que podem levar cada um a seguir um estilo de vida saudável. Será preciso criar novos hábitos e rotinas, com o foco na prevenção primária. É aqui que o médico de família continua a ter um papel significante, não só na gestão do risco, mas também ajudando na orientação do caminho a seguir.

Estratégias de prevenção primária 

São ações e estratégias realizadas para evitar que doenças, lesões ou problemas de saúde surjam, focando na redução da exposição a fatores de risco e na promoção de um estilo de vida saudável.

Uma medida essencial é a prática de atividade física: A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que os adultos realizem 150 a 300 minutos por semana de atividade física aeróbia, de intensidade moderada ou 75 a 150 minutos de atividade vigorosa e atividades de fortalecimento muscular, pelo menos duas vezes por semana. Estas recomendações são para adultos jovens, mas existem diferenças consoante a idade de cada pessoa. Globalmente, as crianças devem brincar e saltar preferencialmente ao ar livre. Os mais idosos devem ir adicionando no seu treino medidas de equilíbrio e fortalecimento muscular, para evitar quedas e manter a funcionalidade. 

Hoje muitas pessoas dizem não ter tempo para a prática de atividade física, sugiro por isso criar na agenda pessoal, um horário para essa atividade. Se o dia tem 24 horas e a semana tem 7 dias, sendo impossível aumentar o tempo disponível, temos de “agendar” o período que nos sugerem ser benéfico para a atividade física (globalmente 2 períodos de treino por semana, de 45 minutos).

Outro pilar fundamental da prevenção primária é a alimentação saudável: as pessoas têm noção da dieta mediterrânea e da roda dos alimentos, mas têm dificuldade em a implementar. Uma alimentação saudável, envolve priorizar alimentos naturais, como frutas, vegetais, cereais integrais e leguminosas, com ingestão moderada de gorduras, reduzindo o consumo de sal, açúcar e evitar bebidas alcoólicas. O consumo de água deve ser frequente, e devem-se evitar alimentos ultraprocessados, como doces, biscoitos, refrigerantes e carnes processadas. 

As pessoas que são “obrigadas” a fazer muitas refeições em restaurantes, também têm um problema acrescido, pois ingerem mais facilmente produtos processados com excesso de sal e açúcar. Nestes casos, sugiro comer como 1º prato uma sopa de legumes. Porquê? Porque tem uma grande quantidade de água, legumes, sais minerais, vitaminas e fibras, permitindo controlar o apetite, dando uma sensação de saciedade e permitindo comer menos do prato principal.

O gasto energético para “queimar” os doces de Natal

E se a alimentação é um dos pilares da prevenção em saúde, na época do Natal é ponto assente que cada um de nós comete os chamados excessos. A época, as reuniões de família e o convívio são o melhor pretexto para nos sentarmos a uma mesa farta, onde os doces quase nunca faltam. Por isso ficam aqui as dicas sobre consumo de calorias e gasto energético.

  • -No Norte do país existe uma doçaria tradicional muito calórica, os chamados Mexidos ou Formigos têm mais de 500Kcal, por dose, o que corresponde a um treino de corrida de 50 minutos, uma aula de KickBoxing de 55 minutos ou uma partida de futebol de 60 minutos.
  • -A fatia do Bolo-Rei terá entre 350 a 400 Kcal, corresponderá a 30 minutos de treino de remo, uma corrida de 40 minutos ou uma aula de Crossfit de 45 a 50 minutos.
  • -Uma Rabanada ou Fatia Dourada tem quase 300Kcal, corresponde a um gasto de uma aula de Pilates, ou uma corrida de 30 minutos. Imaginem que comem mais que uma rabanada? Basta multiplicar o tempo necessário de treino…
  • -Um sonho terá perto de 200 Kcal e um dos doces menos calórico será o Filhós com perto de 130 Kcal, portanto entre 30 minutos de elíptica no primeiro caso e uma corrida de grande intensidade durante 10 minutos para o segundo exemplo. Mas quem fica por apenas um destes doces?

Nestes exemplos, foram utilizados valores médios, pois as calorias de um doce ou de um alimento, depende da porção que foi consumida e da sua confeção. Há fatias/porções grandes e pequenas, com mais ou menos açúcar e gorduras incluídas que podem alterar os valores, entre outros aspetos. 

Por outro lado, no gasto energético efetuado nas atividades físicas foram considerados valores médios para uma pessoa adulta de 70kg, mas também depende do estado de saúde individual e da intensidade que aplica na atividade física; é fácil de perceber que numa caminhada a 3Km/h o gasto energético é diferente daquela que é efetuada a 5Km/h.

A prevenção primária desempenha um papel crucial na promoção da saúde e na redução da incidência de doenças e por isso este é um assunto que diz respeito a todos e que deve ser sempre falado. A sua implementação eficaz depende de políticas públicas, educação em saúde e do envolvimento ativo individual. O médico de família pode ajudar.

Miguel Pereira

(Médico, especialista em Medicina Geral e Familiar; OM n.º 42177)

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