– Com infeções e inflamações

Distinguir infeção de inflamação não é tarefa fácil e por isso sempre que opta por tomar um comprimido que funcionou com o colega de trabalho pode estar a esconder a situação real. Simplificando, podemos explicar que a inflamação é a resposta a uma agressão e a infeção a resposta a uma invasão. Mas, há momentos em que as duas ocorrem em simultâneo. Lembra-se da última dor de garganta? Foi infeção ou inflamação?

Quase toda a gente já teve uma inflamação ou uma infeção na garganta, nos olhos, no estômago, nos intestinos; uma constipação, uma tosse, uma vermelhidão na pele, etc… Mas, foi inflamação ou infeção?

Infeções e inflamações são, de facto, situações muito frequentes que nos acontecem e, não raras vezes, confundimos estes dois processos que se desenvolvem no nosso corpo. Até porque, por detrás da inflamação pode estar uma infeção, isto é, a infeção pode ser a causa da inflamação e esta ser a sua primeira manifestação.

Assim, muitas amigdalites, otites, faringites, etc., etc., começam com um sensação de ardor, dor e vermelhidão e só dias depois evoluem para infeção. Claro que também existe apenas inflamação, sem infeção.

Como é que estes dois fenómenos ocorrem no nosso organismo?

A inflamação é a resposta do nosso corpo a uma agressão. É uma proteção normal do nosso organismo e a reação inflamatória é a consequência do contacto do nosso corpo com um agente agressor. A inflamação surge quando os glóbulos brancos entram em ação, para tentar proteger os nossos órgãos ou as zonas atingidas por traumatismos com ou sem ferida, ou por um entorse de uma articulação (de um tornozelo ou de um joelho, por exemplo).

A inflamação pode ser aguda, aquela que acontece, por exemplo, na inflamação do nariz e que ocorre com espirros e congestão nasal – porque estes sintomas só existem durante a constipação – mas também pode ser uma inflamação crónica, isto é, que ocorre recorrentemente, que é o que acontece sempre que o doente tem contacto com o agente que provoca a inflamação, como por exemplo na alergia.

A inflamação significa sempre uma boa resposta imunitária. O que o sistema imunitário faz é localizar os tecidos atingidos e repará-los, de forma a evitar que esta situação avance para fases mais graves. Pode durar longos períodos em doentes que sofrem de doenças que demoram a controlar a situação ou pode durar toda uma vida, como acontece em doentes que sofrem de doenças reumatismais.

Se afeta uma pequena área e não existirem outras lesões associadas (por exemplo fraturas evidentes), então, esta recupera por si mesma (sem ajuda). Se, pelo contrário, afeta uma zona de grandes dimensões e com outras lesões associadas (por exemplo, fraturas importantes, mas disfarçadas, ou corpos estranhos escondidos no interior das feridas, ou ainda hematomas, isto é, nódoas negras), então, esta situação clínica pode requerer tratamento com medicamentos e/ou outros métodos.

Combate aos invasores

Se para a agressão, a resposta é uma inflamação, para os invasores o combate será outro. O nosso sistema imunológico está programado para nos proteger de invasores, e sim, uma bactéria, um vírus, um fungo ou um parasita são sempre invasores. A infeção é a entrada, desenvolvimento, permanência e multiplicação, de agentes infeciosos no nosso corpo. São microrganismos estranhos ou que se tornam estranhos ao nosso organismo tais como, bactérias, vírus, fungos e parasitas.

Uma infeção não afeta a todos por igual. Há fatores que a favorecem, deixando as pessoas mais vulneráveis e isto acontece, principalmente, pela idade (crianças e pessoas de idade mais avançada); pessoas imunodeprimidas; pessoas com doenças crónicas – VIH, diabetes, obesidade, etc.; e ainda pessoas em tratamento para o cancro, doentes transplantados e doentes com tempo de internamento hospitalar muito prolongado.

Em infeções causadas por bactérias é necessário determinar o tipo de bactéria que está a causar a infeção (infeção urinária, infeção genital, infeção respiratória, infeção gastrointestinal…). Tal como nas infeções causadas por vírus em que também é necessário determinar o vírus causador da infeção (infeção genital, infeção respiratória, herpes, hepatite B, hepatite C, gripe, HIV, Sars-CoV-2…). E o mesmo acontece para os contágios por fungos e por parasitas.

Só sabendo qual o tipo de micro-organismo em causa, se poderá estabelecer o tratamento adequado e a medicação eficaz (antibióticos, antivirais, antifúngicos, antiparasitários e/ou decidir outros tipos de tratamentos).

O exame clínico e os exames auxiliares de diagnóstico são fundamentais para identificar o agente causador e para estabelecer o diagnóstico e aplicar o tratamento mais adequado a cada tipo de infeção. Quanto mais rapidamente for tratada, mais e melhor se evitam as complicações associadas e as respetivas sequelas (as marcas que ficam, muitas delas para toda a vida).

A vacinação é a grande prevenção de uma boa parte das infeções, tanto bacterianas como virais, ao longo da vida e de acordo com um calendário vacinal. Outra forma de prevenção igualmente importante e indispensável é a higienização das mãos e dos alimentos. O cuidado de não comer alimentos confecionados em épocas do ano em que facilmente se alteram (pastéis de nata, requeijão e queijo fresco no verão, por exemplo). Para isso também contribui o transporte em más condições de acondicionamento desses alimentos (carnes, peixes, iogurtes, água engarrafada, congelados, etc.). O cozinhar os alimentos de forma adequada (evitar carne e peixe crus ou mal cozinhados, etc.) e o consumo de água filtrada e tratada com cloro. Os locais fechados e de grandes aglomerações de pessoas são ambientes pouco seguros e por isso mesmo se recomenda o uso da máscara facial.

Estas medidas, além de muito importantes, são a melhor forma de prevenção da doença. Por outro, estas recomendações serão ainda mais necessárias para as pessoas com diminuição da imunidade, pois estão, como anteriormente se disse, mais sujeitas a infeções e às suas complicações.

Com a distinção entre infeção e inflamação, fica agora mais claro por que se deve evitar tomar “aquele comprimido” que até fez bem ao colega de trabalho ou ao vizinho, sob pena de se mascarar ou esconder a situação real e a evolução natural da doença. Junte-se ainda a certeza de que nem todos os casos clínicos são iguais (embora alguns sejam parecidos), há diferenças de pessoa para pessoa, porque cada indivíduo é verdadeiramente único.

Alberto Carvalho
(Médico de Medicina Geral e Familiar; OM n.º 19624)

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