– Há uma prova que avalia saúde e performance

A Prova de Esforço Cardiopulmonar (PECP) fornece uma visão completa da integração dos sistemas cardiocirculatório, respiratório e metabólico quando sujeitos a stress fisiológico

Os últimos anos têm vindo a ser marcados por um interesse pela saúde personalizada, a otimização do treino e a busca de maior longevidade. Nunca se falou tanto acerca de exercício, mas também de recuperação, prevenção de doenças e de lesões. Cada vez mais se procura treinar de forma mais inteligente, e para tal recorremos muitas vezes a dispositivos móveis, como os smart watches, que nos orientam. No entanto, a informação dada por estes wearables baseia-se em estimativas fornecidas pelos dados dos seus milhões de utilizadores ou em fórmulas pouco precisas. A Prova de Esforço Cardiopulmonar (PECP) permite maior rigor na avaliação do desempenho, uma vez que avalia a forma como o coração, os pulmões e os músculos respondem a diferentes intensidades de exercício.

O que é a Prova de Esforço Cardiopulmonar?

A PECP (também conhecida por prova de esforço cardiorrespiratória ou com análise de gases) é uma avaliação dinâmica, ou seja, realizada em esforço, normalmente numa passadeira rolante ou num cicloergómetro (bicicleta estática), durante a qual o indivíduo respira através de uma máscara que está conectada a um analisador de gases. À medida que o exercício aumenta de intensidade de forma progressiva, o equipamento mede o consumo de oxigénio, a produção de dióxido de carbono, a ventilação e também a resposta cardiovascular, incluindo a frequência cardíaca e a pressão arterial.

A análise dos dados recolhidos durante a prova permite avaliar até que intensidade do exercício o corpo é capaz de transportar oxigénio para os músculos e remover os subprodutos metabólicos que se produzem com o esforço. Desta forma, fornece-nos uma visão completa da integração dos sistemas cardiocirculatório, respiratório e metabólico quando sujeitos a stress fisiológico.

É um exame importante não só em atletas mas igualmente em indivíduos sedentários ou com patologia crónica, uma vez que nos permite diagnosticar condições que apenas se manifestam quando o organismo é desafiado, ao contrário dos exames realizados em repouso.

Importância do VO2max

Um dos parâmetros mais reconhecidos resultantes da PECP é o VO2max, a quantidade máxima de oxigénio que o organismo consegue  utilizar durante exercício intenso. Este parâmetro é hoje reconhecido como um dos mais importantes indicadores de saúde global: relaciona-se diretamente com o risco de mortalidade e de sobrevivência, com a saúde cardiovascular, com a qualidade de vida, e com o envelhecimento saudável e a longevidade.

De facto, indivíduos com VO2max mais elevado não só vivem mais anos, como apresentam menor risco de desenvolvimento de doenças crónicas. Enquanto que para atletas o VO2max representa uma medida importante do desempenho e do efeito do treino, para desportistas recreativos é um marcador da sua capacidade funcional e do bem-estar. Desta forma, podemos utilizar o VO2max como um indicador objetivo para ajustar prescrição de exercício e avaliar a eficácia do treino de forma segura.

A importância dos limiares ventilatórios

A forma como o nosso organismo consome oxigénio e produz dióxido de carbono com o exercício fala-nos da forma preferencial do corpo para a obtenção da energia. A determinação dos limiares ventilatórios com a PECP permite definir de forma personalizada as zonas de treino, caracterizadas pela forma como o metabolismo aeróbio e o metabolismo anaeróbio se relacionam entre si, e ajudam a compreender a intensidade de exercício ou de treino ideal para trabalhar e melhorar a resistência, velocidade, potência e capacidade anaeróbia.

Este nível de precisão evita que a intensidade do treino se escolha de forma empírica e com base em dados populacionais, passando a ser realizado com base nos limiares de cada indíviduo, o que permite que o treino possa ser mais estruturado, eficaz e seguro. Além disso, a determinação dos limiares permite igualmente fazer uma monitorização mais fidedigna dos efeitos do treino.

A quem se destina a PECP?

Esta avaliação não é realizada apenas no contexto do treino de atletas de elite. Enquanto que para estes esta prova possa ser usada como forma de otimização do treino, permitindo ajustar zonas de treino e monitorizar a evolução do treino ao longo da época desportiva, a PECP tem um papel muito importante igualmente na monitorização do estado de saúde destes atletas, pois pode ajudar a identificar limitações fisiológicas que poderiam passar despercebidas. Em praticantes recreativos, independentemente do nível de treino habitual, esta avaliação ajuda a orientar o treino de forma mais clara, evitando assim lesões desportivas, fadiga excessiva, ou frustração por ausência de resultados.

Clinicamente, a PECP pode ser utilizada na avaliação de pessoas com dificuldade respiratória, intolerância ao esforço, ou suspeita de patologia do foro cardíaco, pulmonar ou muscular, orientando o diagnóstico e o plano terapêutico.

Como se realiza?

Ainda que seja tecnicamente sofisticado, a PECP é simples e segura para o participante. A prova inicia-se sempre a uma baixa intensidade, que aumenta de forma gradual até se atingir o esforço máximo tolerado. A qualquer momento se pode interromper a prova, que é sempre realizada com monitorização por ECG e supervisionado por uma equipa médica.

Após terminar a prova, os dados recolhidos são analisados e é realizado o relatório final com os dados necessários para a orientação do treino ou o acompanhamento clínico. Neste relatório consta a frequência cardíaca, a intensidade do exercício (ritmo ou velocidade na prova em prova corrida, ou potência se a prova foi em bicicleta) e as zonas de treino adequadas à condição de cada um.

Saúde, performance e longevidade

A PECP é uma avaliação rigorosa, moderna e alinhada à melhor evidência científica na individualização do treino, o que permite não só evitar situações de treino excessivo, mas também garantir uma recuperação adequada, maximizando os benefícios físicos e de saúde. É essencial para compreender o estado funcional do organismo, pois permite a deteção de situações clínicas que se configuram como de risco para a saúde, orientar intervenções de prevenção, e desenhar programas de exercício adaptados a cada pessoa. Para os atletas pode ser uma vantagem competitiva. Para a população em geral, é um investimento na saúde presente e futura.

Diana Ferreira
Médica, especialista em Medicina Desportiva e do Exercício (OM n.º )

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