A história e as lendas misturam-se e o cenário do alto do cabeço, com os seus gigantes de pedra, deixa qualquer um surpreso. Foram as rochas ou foi a gente que se moldou a Monsanto?

Quem se lembraria de construir casas no cimo de um monte de pedras, com lajes a fazer de telhado e granito como parede mestra? As casas foram apenas um pormenor ou adereço necessário a uma época, porque bem no cimo deste monte de pedra – no cabeço – ergueu-se um castelo. A defesa de território explica esta construção anómala para os dias de hoje, mas necessária à sobrevivência de uma época. Foi essa pedra que moldou aquele povo e que deu inspiração a Fernando Namora e aos dragões da Guerra dos Tronos. A Nave de Pedra é Monsanto. 

Hoje, com uma cota de 758 metros acima do nível do mar e num monte escarpado, foi ali que um punhado de gente criou Monsanto. A altitude dá ares de superior e, entre o miradouro e o céu, há todo um mar de serras e de território que parece submeter-se ao cabeço. Subir ao miradouro ajuda a respirar fundo.

Nem sempre foi assim, o mar já por ali andou. Ninguém diria, é certo. Mas, há 480 milhões de anos um mar imenso ocupava aquele território. Se não acredita, é preciso visitar o Geopark Naturtejo, que tem ali a Rota dos Fósseis, um trajeto de 3 quilómetros que guarda as marcas da biodiversidade marinha de então. Há muitas outras rotas traçadas para quem quer conhecer diversidade: Rotas das Minas, Rota dos Barrocais, Rota dos Veados, Rota dos Abutres, Rota dos Trilhos ou Rota das Aldeias Históricas…

Mas, isso são outras histórias, porque entre barrocos de granito, termas romanas marafonas e adufes, Monsanto já viveu muitas narrativas e, durante algumas semanas, até foi terra de dragões.

No princípio, a sua posição cimeira fez com que integrasse a cortina defensiva da região da Beira Interior. O cabeço trazia vantagens e por isso já outros o tinham utilizado, visigodos, romanos e muçulmanos. O tempo mudou a história de Monsanto e, nesta época mais recente, há quem tenha partido. O mesmo aconteceu em quase toda a Beira Baixa, um território interior que se mantém em estado puro e que – talvez por isso – espera que seja redescoberto.

O médico e escritor Fernando Namora descobriu Monsanto e usou todos os personagens que consigo se cruzaram, o Zé Mocho, a Mariana Escariga e o boticário Rodrigues são figuras que estão presentes nos seus contos vividos nas terras da Nave de Pedra. Um lugar que os amigos acreditavam “não ser lugar azado para um livro que fala de um mundo que pôs o tempo no vento”. Os amigos enganaram-se e “Retalhos da vida de um médico” espelha a sua experiência por terras de Monsanto no início do século XX.

Mais recentemente, os olhares do mundo viraram-se para aqueles barrocais quando algumas filmagens da série “House of Dragon” foram ali captadas. Afinal, não foi preciso construir nenhum cenário, Monsanto já tinha tudo e o cabeço de Monsanto mostrou-se a uma parte do mundo, àqueles que seguem a “A guerra dos tronos”.

Não é por acaso que Monsanto pertence à rede das 12 Aldeias Históricas de Portugal, é mesmo por mérito. A história está ali toda, não só na pedra, mas também naquelas gentes que continuam a pegar no adufe ou a fazer as marafonas, para que outros também possam levar o amuleto de fertilidade e ter felicidade. Se encontrar uma boneca sem olhos, nariz ou boca, mas com trajes bem coloridos, são elas, as marafonas.

O adufe é mais uma história que os árabes nos deixaram, não só em Monsanto, mas em grande parte da chamada Beira Baixa. O instrumento é simples, mas são as sementes e as mãos de quem o toca que fazem o som típico desta pandeireta em modo quadrado. Esta é mais uma história que anda de mão em mão e que Monsanto insiste em não apagar.

Há outras histórias… As festas de maio, ainda celebram o cerco e a resistência daquele povo aos romanos; a laje com 13 tijelas, que poderá ser um processo geológico, mas que acabou por ser motivo para uma lenda, sobre uma fidalga que dava sopa aos pobres…

Este é também o território da Fonte Santa (Termas de Monfortinho), da Reserva Biosfera do Tejo Internacional, da Cidade Criativa da Música (Idanha-a-Nova) e do Geopark Naturtejo. Junte-se Penha Garcia, os canhões fluviais do Ergues (Salvaterra do Extremo) e as muitas histórias do tempo do contrabando (a raia é já ali).

É preciso ir, ficar e descobrir. Lisboa e Porto estão a cerca de 300 quilómetros (Madrid fica a 320 km) e a viagem entre Coimbra e Monsanto demora pouco mais de 2 horas.

Conceição Abreu

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