Apenas quem pode dizer «não» é capaz de oferecer um «sim» verdadeiro. A liberdade não dissolve o vínculo: liberta-o do domínio e torna possível a reciprocidade. A história da mulher na evolução do amor é inseparável da conquista da liberdade
Antes de alguém pronunciar a palavra «amo-te», a vida já conhecia formas de reconhecimento, proteção e vínculo. A evolução não caminhou em direção ao amor nem tinha um destino traçado: tornou-o possível. O amor humano não é apenas uma herança biológica. É linguagem e memória, desejo e escolha, liberdade e responsabilidade. A natureza ofereceu-nos a possibilidade do vínculo; coube-nos aprender a torná-lo digno.
Falar da mulher nesta história não é atribuir-lhe o dever de amar, cuidar ou gerar. A mulher não existe para completar o homem, servir a família ou encarnar um ideal abstrato de bondade. Existe por si mesma — em corpo, consciência, inteligência, desejo e liberdade. Antes de ser mãe, filha ou companheira, é uma pessoa inteira.
A maternidade pode constituir uma das formas mais profundas de relação humana, mas não define o valor de uma mulher. Há mulheres que desejam ser mães e não o conseguem; outras que podem sê-lo e não o desejam; e há aquelas que adotam, educam, protegem ou encontram noutras formas de entrega o sentido da sua vida. Nenhuma é menos mulher. E nenhuma deve desaparecer sob o peso do cuidado que presta.
Uma sociedade que celebra as mães, mas as abandona à exaustão, à solidão e ao trabalho invisível, não as honra: utiliza-as. Quem cuida também precisa de ser cuidado.
O amor, porém, extravasa a maternidade, o parentesco e até a permanência. Manifesta-se de muitas formas, e talvez poucos gestos revelem tão intensamente as suas possibilidades e os seus limites como o beijo.
Quando duas pessoas se beijam com desejo, liberdade e reciprocidade, os sentidos condensam-se num instante. Os olhos fecham-se não para negar o mundo, mas para habitar uma presença. O ouvido reconhece a respiração; o tato encontra na pele uma linguagem anterior às palavras. Permanecem dois, mas a distância transforma-se em encontro.
Também aqui a mulher é sujeito: da escolha, da entrega, do desejo e da recusa. O consentimento não é uma formalidade exterior ao amor. É o seu fundamento ético. É a fronteira que transforma a aproximação em encontro e impede que o afeto se degrade em domínio ou posse.
A ciência pode descrever os músculos, os nervos e os processos cerebrais envolvidos no desejo e no vínculo. Mas nenhuma imagem cerebral traduz a totalidade de um beijo. Conhecer o mecanismo não esgota o significado.
Nem todo o beijo nasce do desejo. Há o beijo da escolha mútua, o beijo na testa da criança que adormece, o gesto dedicado à mãe, o beijo de consolo oferecido a quem sofre — e o último beijo, inevitável despedida que o amor transforma em memória.
Os beijos mais profundos não dizem: «Pertences-me.» Dizem: «A tua existência importa.»
Durante séculos, muitas sociedades chamaram amor à obediência, proteção ao controlo e virtude ao silêncio. Por isso, a história da mulher na evolução do amor é inseparável da conquista da liberdade. As mulheres resistiram, pensaram, criaram, educaram, trabalharam e transformaram o mundo, mesmo quando lhes era negado o direito de o fazer em seu próprio nome.
Sempre que uma mulher conquistou o direito de aprender, escolher, trabalhar, amar ou partir, a própria ideia de amor tornou-se mais clara. Apenas quem pode dizer «não» é capaz de oferecer um «sim» verdadeiro. A liberdade não dissolve o vínculo: liberta-o do domínio e torna possível a reciprocidade.
Amar uma mulher não é colocá-la num pedestal. A idealização também pode ser uma forma de cegueira, porque substitui a pessoa real por uma imagem construída para satisfazer quem a contempla.
A mulher real reúne inteligência e contradições, coragem e receio, firmeza e fragilidade. Tem o direito de mudar, falhar, recomeçar e não corresponder ao desenho que outros fizeram para ela. Não existe para representar um ideal de beleza, pureza, sacrifício ou disponibilidade permanente.
É também assim que o amor atravessa as gerações. Não transmitimos apenas um genoma. Legamos maneiras de olhar, tocar, escutar, esperar e proteger. Transmitimos medos, silêncios e violências, mas também confiança, liberdade e respeito. Cabe-nos conservar o que merece continuar e interromper aquilo que nunca deveria ter sido repetido.
Na mãe reconhecemos a origem sem lhe roubar o destino. Na mulher idosa não vemos apenas aquilo que o tempo retirou, mas tudo o que nenhuma juventude poderia ainda conter: experiência, perdas, escolhas, reconstruções e memória. Ela não é somente testemunho do passado. Continua a ser presença, desejo, consciência e liberdade.
Na mulher que amo não procuro um símbolo. Não a amo por representar o seu sexo — nenhuma pessoa existe para ser alegoria. Amo-a pela sua singularidade, pela sua inteligência, pela forma como reúne força e fragilidade e pela liberdade que lhe pertence de maneira inalienável. Há no seu olhar a luz de quem atravessou o tempo sem renunciar à procura de sentido.
A sua liberdade não diminui o amor: é aquilo que o torna verdadeiro. Amar não é apropriar-se dessa luz nem projetar sobre alguém uma claridade tão intensa que lhe apague as sombras. A luz que verdadeiramente revela não ofusca. Respeita os contornos, a profundidade e o mistério do outro.
Amar é permanecer próximo sem invadir. É cuidar sem diminuir. É procurar conhecer e aceitar que nenhuma pessoa pode ser inteiramente decifrada. O amor verdadeiro não elimina a distância entre duas consciências: torna-a habitável.
A evolução tornou o amor possível. Torná-lo digno é uma tarefa humana. E, se a mulher ocupa um lugar central nesta travessia, não é porque a natureza a tenha destinado a amar mais ou a sofrer em silêncio. É porque a sua voz, a sua experiência e a sua liberdade nos revelaram uma verdade essencial: não existe amor sem reciprocidade, reconhecimento e respeito.
A luz mais humana não é a que brilha para ser admirada. É a que nos permite ver a outra pessoa — inteira, livre e insubstituível.
António Travassos
(Médico, Oftalmologista; OM n.º 15373/C-3334

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