Não é apenas um aviso, é uma lição. Lembra-nos da necessidade de dar tempo à realidade, para que se revele inteira. O que vemos primeiro pode ser apenas o que é visível. E o que é visível nem sempre é o que é verdadeiro. Na saúde, isto não é poesia: é método


Há avisos que nascem para salvar vidas e acabam por descrever o mundo inteiro.
“Um comboio pode esconder outro” é um desses avisos.
Foi escrito para uma passagem de nível: o primeiro comboio que passa pode tapar a visão do segundo; o ruído pode enganar; a pressa pode ser fatal. A lição é simples: não atravessar apenas porque um perigo já passou. Esperar mais um instante. Olhar mais uma vez. Dar à realidade tempo para se revelar inteira.

Kenneth Koch transformou essa frase numa metáfora radical: não é apenas o comboio que esconde outro comboio. É a vida. É a aparência. É a primeira interpretação. É a primeira explicação. É o primeiro diagnóstico. É a primeira certeza.

O que vemos primeiro pode ser apenas o que é visível. E o que é visível nem sempre é o que é verdadeiro. Na saúde, isto não é poesia: é método.


Um sintoma pode esconder outro. Um exame pode esconder uma história.
Uma urgência pode esconder o essencial. Um número pode esconder uma pessoa.
Uma solução eficiente pode esconder uma decisão injusta. E um sistema impecável pode esconder um detalhe que falha — precisamente quando ninguém está atento.

Por isso, a verdadeira excelência clínica não é apenas a capacidade de agir depressa. É a capacidade de não precipitar o juízo. É disciplina para não atravessar antes de tempo. É atenção para ver o que vem por trás do que já passou. É humildade para aceitar que a primeira resposta pode não ser a resposta certa.

A cultura de uma unidade de saúde decide-se aqui: na diferença entre a rapidez e a precipitação; entre o protocolo e a rigidez; entre a confiança e a negligência; entre o “já vi isto” e o “vou olhar outra vez”.

Porque há uma forma de distração muito perigosa: a distração competente. Aquela que nasce da repetição. Aquela que nasce da experiência. Aquela que faz o profissional acreditar que já sabe — e, por isso, não precisa de verificar. É aí que o mundo escorrega. E é aí que a cultura disciplinada se torna um ato moral: não como uma exigência de perfeição mecânica, mas como uma escolha diária de respeito.

Respeito pelo doente, que não é um caso clínico. Respeito pelo colega, que não é apenas uma função. Respeito por quem não tem poder, porque é precisamente aí que a dignidade se prova. Respeito pelo risco, porque o risco não pede licença — surge.

A diferença entre um lugar que cura e um lugar que apenas opera está frequentemente num gesto pequeno: esperar um instante. Perguntar mais uma vez. Confirmar sem orgulho. Corrigir sem humilhar. Pedir ajuda sem medo.

É nesse instante a mais que a realidade aparece inteira.

“Um comboio pode esconder outro” não é só um aviso. É uma ética da atenção.
E talvez seja isso que define a maturidade: o contrário de ter certezas; a capacidade de dar espaço ao que ainda não vimos.

Porque a vida — e a clínica — são assim: o primeiro comboio pode impressionar.
Mas o segundo pode ser decisivo. E a grandeza de uma unidade de saúde mede-se pela sua capacidade de não se deixar enganar pelo primeiro movimento — por mais forte que ele pareça.

No fim, a promessa é simples: não atravessamos apenas porque o ruído diminuiu.
Não decidimos apenas porque o óbvio se apresentou. Não tratamos apenas a doença — cuidamos da pessoa, inteira, com tudo o que ela traz.

E se este texto for sólido, que sirva apenas para isso: para nos lembrar que até a nossa melhor certeza pode esconder outra melhor. Que o nosso melhor gesto pode esconder um gesto ainda mais digno. Que o nosso melhor cuidado pode esconder um cuidado ainda mais humano.

Porque, na saúde, o verdadeiro progresso não é fazer mais. É ver mais e tratar melhor.


António Travassos
(Presidente do Conselho de Administração da Intercir, Centro Cirúrgico de Coimbra)

– Pensar sempre foi e é um risco –

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