Muitas substâncias naturais nem sempre são seguras e podem mesmo desencadear efeitos indesejáveis. Se a este hábito juntarmos a toma diária de fármacos, o impacto pode ser desastroso, seja pelo perigo de vida, seja pela ineficácia da medicação que devia proteger

O envelhecimento populacional, a crescente prevalência de doenças crónicas e a fragmentação dos cuidados de saúde conduziram a um aumento significativo da polimedicação. Paralelamente, observa-se um uso cada vez mais frequente de produtos naturais, suplementos alimentares e medicamentos ditos “alternativos”, muitas vezes sem conhecimento do médico assistente. Neste contexto, o médico de família assume um papel central na identificação, gestão e prevenção de interações medicamentosas potencialmente prejudiciais.

Um estudo sobre a prevalência de polimedicação (Lisboa em 2004) revelou a existência de 39,6% de polimedicação minor; 17,2% de polimedicação major e 28,3% de uso de produtos naturais, mas atualmente há um aumento exponencial de todos esses números, como foi revelado num projeto de investigação de Bárbara Martins et al. de 2023 (Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar): 79,5% dos utentes estavam polimedicados, com uma média de 7 fármacos por pessoa. As estatinas corresponderam ao grupo farmacológico mais prescrito (64,2%) dos pesquisados, com as benzodiazepinas e os inibidores da bomba de protões a constituírem as classes potencialmente inapropriadas mais utilizadas em igual proporção (35%).

O impacto clínico

A polimedicação é habitualmente definida como a utilização concomitante de cinco ou mais medicamentos. Está associada a maior risco de reações adversas, interações medicamentosas, diminuição da adesão terapêutica, iatrogenia e aumento de internamentos e mortalidade, sobretudo em idosos e pessoas frágeis. Importa salientar que nem toda a polimedicação é inadequada, sendo fundamental distinguir entre polimedicação apropriada e inapropriada. Estando aqui uma ação do médico de família ao gerir a medicação. 

Os produtos naturais, plantas medicinais e suplementos alimentares são frequentemente percecionados pelos cidadãos como “seguros”, por serem de origem natural. No entanto, muitos destes produtos possuem princípios ativos com efeitos farmacológicos relevantes, capazes de interferir com medicamentos prescritos através de mecanismos farmacocinéticos e farmacodinâmicos. De referir que os suplementos alimentares são regulados pela DGAV (Direção-Geral de Alimentação e Veterinária) e os medicamentos pelo INFARMED (Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde), que são as entidades diferentes e com competência em áreas diferentes, com processos de controlo e autorização distintos. 

Com e sem avaliação

Os fabricantes apenas precisam de notificar a DGAV da sua intenção de comercializar o produto, garantindo que cumpre a legislação, mas não há uma avaliação prévia de eficácia ou segurança, tal como existe para os medicamentos.

Por outro lado, os medicamentos requerem uma Autorização de Introdução no Mercado (AIM) e uma avaliação rigorosa de segurança, qualidade e eficácia antes de poderem ser comercializados. 

Os documentos orientadores do setor da saúde destacam a importância de garantir utilização eficiente e monitorização dos medicamentos, segundo princípios de farmacologia clínica e políticas de uso racional.

Alguns exemplos bem estudados de produtos naturais incluem:

Hypericum perforatum (erva-de-São-João): Atualmente utilizada na atividade antidepressiva contra estados depressivos suaves a moderados, ansiedade, insónia, dores nevrálgicas mas indução enzimática (CYP450), reduzindo a eficácia de antidepressivos, anticoncecionais orais, anticoagulantes e imunossupressores. 

Ginkgo biloba: Esta planta despertou interesse por ter sobrevivido à radiação de Hiroshima, tendo sido utilizada em deficit cognitivo ligeiro, mas não reduz a incidência de demência ou Alzheimer, provoca sim aumento do risco hemorrágico quando associado a antiagregantes ou anticoagulantes.

Ginseng: Existem diferentes tipos e com várias características diferentes mas, globalmente, é vendido como sendo um ativador físico e mental, mas apresenta interferência com anticoagulantes e antidiabéticos

Suplementos de cálcio, ferro ou magnésio: muito utilizados pelas mais variadas razões podem levar à redução da absorção de antibióticos e levotiroxina, entre outros fármacos.

Como gerir a terapêutica?

A revisão periódica da medicação deve ser uma prática estruturada na consulta de Medicina Geral e Familiar, idealmente realizada de forma anual ou semestral, em alinhamento com os momentos de renovação de terapêutica crónica. Estas revisões permitem identificar alterações no estado clínico que justifiquem ajuste posológico, suspensão ou introdução de novos fármacos.

Um dos desafios mais frequentes é a identificação de duplicações terapêuticas, medicamentos desnecessários ou potencialmente inapropriados. É comum encontrar utentes a tomar vários fármacos da mesma classe — como omeprazol, pantoprazol ou esomeprazol — ou genéricos de diferentes marcas que geram redundância terapêutica.

A aplicação de critérios explícitos, como os critérios de Beers (dirigidos a indivíduos com ≥65 anos) ou os critérios STOPP/START, são essenciais para apoiar decisões baseadas em evidência. Estes critérios alertam, por exemplo, para o uso excessivo de anti-inflamatórios não esteroides, benzodiazepinas ou hipnóticos em idosos, bem como para contraindicações relevantes — como anticolinérgicos em doentes com glaucoma ou retenção urinária — ou para a necessidade de ajustar medicamentos à função renal, como sucede com a metformina.

Apesar de parecer um processo simples, esta análise é exigente e requer tempo, rigor clínico e ferramentas de apoio à decisão. Em muitos sistemas de prescrição eletrónica, o médico dispõe de alertas automáticos de interações medicamentosas que podem melhorar a segurança terapêutica. 

Redução de risco

A integração terapêutica exige também que médico explore, de forma estruturada, o consumo de chás, plantas medicinais, suplementos, produtos para “reforço imunológico”, emagrecimento ou bem-estar. Muitas pessoas não consideram estes produtos como parte da sua terapêutica, o que aumenta o risco de interações e efeitos adversos. Reforçar a importância da partilha completa de toda a medicação — farmacológica e natural — é um princípio-chave da prática segura.

A evidência mostra que a capacitação dos cidadãos e o acesso a informação clara melhoram a adesão terapêutica e reduzem riscos associados à polimedicação. Neste sentido, o médico de família deve fornecer explicações compreensíveis sobre riscos, interações e limites dos produtos naturais e incentivar escolhas fundamentadas e supervisionadas, combatendo a automedicação desinformada.

A gestão terapêutica otimizada exige uma colaboração interprofissional robusta. Farmacêuticos desempenham um papel determinante na validação de interações; Nutricionistas são essenciais na orientação quanto a suplementos nutricionais; Psicólogos podem ajudar quando o recurso a produtos naturais encobre sofrimento emocional não verbalizado. Uma resposta integrada, como defendida por diversos estudos institucionais, melhora resultados de saúde e reduz riscos e o MF é o profissional mais indicado para essa referenciação/orientação.

Ferramentas e Estratégias Práticas

Para reforçar a segurança e qualidade da terapêutica, destacam-se as seguintes práticas:

  • utilização de softwares de verificação de interações farmacológicas e fitoterápicas;
  • implementação de protocolos de reconciliação terapêutica em todas as transições de cuidados;
  • elaboração de planos terapêuticos simplificados, centrados em cada pessoa;
  • identificação precoce de automedicação insegura;
  • documentação sistematizada de todos os produtos usados;
  • desprescrição.

A prescrição representa um processo contínuo e individualizado, sustentado por uma avaliação rigorosa do balanço risco – benefício de cada fármaco e por uma decisão partilhada entre o médico, o indivíduo e a família. O médico de família, pela relação de confiança estabelecida e pela observação longitudinal do utente, encontra-se particularmente bem posicionado para identificar situações de polimedicação, interações medicamentosas, alimentares, nutricionais e iniciar intervenções seguras e clinicamente justificadas. 

Miguel Pereira
(Medicina Geral e Familiar; OM n. 42177)

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