Há um problema na abertura e fecho das “portas”, comprometendo a normal circulação do sangue dentro do coração, porque as válvulas cardíacas são uma estrutura essencial ao músculo cardíaco. Hoje, é assumido que o diagnóstico mudou e o tratamento também

As válvulas cardíacas são estruturas essenciais para o bom funcionamento do coração. Funcionam como “portas” que se abrem e fecham a cada batimento, garantindo que o sangue circula no sentido correto. Quando uma ou mais válvulas deixam de funcionar adequadamente — abrindo pouco (estenose) ou não fechando bem (insuficiência) — surge a chamada doença valvular cardíaca.

Trata-se de uma condição muito mais frequente do que muitas pessoas imaginam, especialmente com o avançar da idade. Estima-se que até 10% da população – com mais de 65 anos – apresente uma doença valvular moderada ou grave, muitas vezes ainda sem diagnóstico. Com o envelhecimento da população, estas doenças são hoje um verdadeiro desafio de saúde pública.

Diagnóstico preciso e completo

Uma das grandes evoluções das últimas décadas foi a melhoria extraordinária dos métodos de diagnóstico. Atualmente, é possível avaliar as válvulas cardíacas de forma muito detalhada, segura e não invasiva, recorrendo a exames como:

  • Ecocardiograma, que continua a ser a base do diagnóstico e seguimento;
  • Tomografia computorizada (TC), fundamental para o planeamento de tratamentos por cateterismo;
  • Ressonância magnética cardíaca, que permite uma avaliação precisa da função e da estrutura do coração;
  • Prova de esforço cardiopulmonar, que ajuda a perceber o impacto real da doença na capacidade física do doente, mesmo quando os sintomas são discretos.

Estes exames permitem não só diagnosticar mais cedo, mas também escolher o momento ideal para intervir, antes que surjam danos irreversíveis no músculo cardíaco.

Doenças silenciosas

Um aspeto particularmente importante é que algumas doenças valvulares podem evoluir durante anos com poucos ou nenhuns sintomas. É o caso, por exemplo, da insuficiência das válvulas mitral e tricúspide. Muitas pessoas habituam-se lentamente à falta de ar ou ao cansaço, atribuindo esses sinais à idade ou à falta de condição física. No entanto, esperar demasiado pode ter consequências. Quando a doença valvular é tratada tardiamente, o coração pode já apresentar lesões permanentes, limitando os benefícios do tratamento. Diagnosticar e intervir precocemente é fundamental para preservar a função cardíaca e a qualidade de vida.

Tratamento minimamente invasivo

Felizmente, o tratamento das doenças valvulares cardíacas também evoluiu de forma notável. Para muitos casos, é hoje possível tratar válvulas doentes, sem recorrer à chamada cirurgia aberta, através de técnicas minimamente invasivas por cateterismo cardíaco. Estas técnicas consistem na substituição da válvula doente (sobretudo na estenose aórtica e mais recentemente nas insuficiências tricúspide e mitral) ou na sua reparação (implantação de “clip” nas insuficiências mitral e tricúspide, dilatação por balão na estenose mitral).

Coimbra é um exemplo nesta prática e, já é atualmente uma referência nacional nesta área. Foi pioneira a nível nacional e inclusivamente ibérico na introdução de várias técnicas de substituição percutânea das válvulas mitral, tricúspide e pulmonar, e é o grupo em Portugal que mais realiza estes tratamentos minimamente invasivos todos os anos.

Estes procedimentos permitem uma recuperação mais rápida, menos dor, menor risco para pessoas idosos ou frágeis, e os resultados clínicos são muito positivos, quando corretamente indicados.

O cansaço não é normal

A doença valvular cardíaca é muitas vezes silenciosa, mas cada vez mais diagnosticável e tratável. O acompanhamento regular, a realização atempada de exames e a avaliação por equipas experientes fazem toda a diferença. Se tem sintomas como cansaço fácil, falta de ar, inchaço das pernas ou palpitações — ou se lhe foi detetada uma alteração valvular num exame de rotina — não adie a avaliação. Cuidar do coração hoje é investir na sua qualidade de vida amanhã.

Manuel Oliveira Santos
(Médico Cardiologista; OM n.º53094)

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