Pioneiro mundial no uso de vídeo 3D nas cirurgias oculares, António Travassos opera pessoas de todo o mundo, considera os olhos uma obra de arte e diz que o respeito pelos doentes deve ser a primeira preocupação de um médico.

Aos 63 anos, António Travassos é reconhecido como um dos melhores cirurgiões oculares do mundo. No Centro Cirúrgico de Coimbra que fundou e dirige, trabalham 110 médicos e já recebeu doentes de 43 países, incluindo da China, EUA, Canadá, Reino Unido e Alemanha.
Pertence ao Conselho de Curadores da Fundação Champalimaud e tem fama de resolver problemas graves, aparentemente sem solução, através de cirurgias simples. Pioneiro a nível mundial no uso de vídeo 3D nas cirurgias oculares, Travassos é também conhecido pela sua generosidade, porque trata doentes que não podem pagar e defende que não deve haver uma saúde para ricos e outra para pobres. Para ele, a cirurgia é a arte do restauro e os olhos são uma obra de arte que evoluiu ao longo de dezenas de milhares de anos.
Na exposição “Visões”, que inaugurou em março no Museu Nacional de História Natural e Ciência, em Lisboa, com 46 fotos de qualidade artística do interior do olho humano, disse que não vemos com os olhos.
Porquê?

Porque essa é a realidade. O importante é que as pessoas percebam para que servem os olhos: para captar imagens. E para isso é necessário que haja luz. Se não houver luz não é possível fotografar, não é possível fazer exames de oftalmologia. Todos os equipamentos que temos aqui no Centro Cirúrgico de Coimbra necessitam de alguma forma de luz. A luz refletida pelos objetos é que vai ser captada pelos nossos olhos, estamos apenas a receber uma determinada energia do espectro eletromagnético, particularmente da luz que vem do Sol.
E temos células altamente especializadas na nossa retina que captam essa energia luminosa e a transformam num sinal nervoso que é enviado para o cérebro. E é depois o cérebro que interpreta, de acordo com o seu estado de saúde e de conhecimento, porque em determinadas patologias sabemos perfeitamente que o cérebro interpreta de forma diferente.

Há cientistas que afirmam que vemos aquilo que queremos. É verdade?

De algum modo. Vemos de acordo com a nossa capacidade e se tivermos o nosso sistema visual perfeitamente límpido, vemos a cor de uma determinada forma. Se tivermos uma patologia, podemos não estar a ver com os fotorrecetores a cor que veem as outras pessoas, mas ver uma cor alterada ou uma imagem deformada. E sabe-se que isso depende também daquilo que cada um quer ver. Se estivermos vocacionados para olhar para um determinado objeto, uma obra de arte, por exemplo, podemos ver um determinado sentido estético e não observar dois ou três detalhes extremamente importantes que outra pessoa poderá ver. Daí que documentar muito bem as patologias seja tão importante, porque quando voltar a ver esses casos clínicos tenho toda a informação para fazer uma nova avaliação. Gravo em vídeo muitas das intervenções cirúrgicas para que não se perca tempo nas futuras cirurgias oculares e quanto mais rápidas e mais bem executadas forem, melhores serão os resultados. Costumo dizer que a cirurgia é uma forma de arte.

Porquê uma forma de arte?

É uma arte de restauro, a obra de arte são os olhos dos pacientes e os meus, porque consigo utilizá-los para fazer essa cirurgia. Uma obra de arte que evoluiu ao longo de dezenas de milhares de anos, que consegue uma perfeição notável a transmutar continuamente a luz ao longo de 70 a 80 anos, embora com algum desgaste e por vezes com algum sofrimento. E de todos os sentidos, na sociedade agitada em que vivemos, a visão é o mais importante. Saboreamos melhor se estivermos a ver o que estamos a comer, ouvimos melhor se estivermos a ver os lábios do nosso interlocutor, sentimos melhor se estivermos a ver o que tocamos. O olho é um órgão de tal maneira sensível que qualquer deficiência, qualquer atitude menos refletida numa cirurgia, pode comprometer o sucesso da intervenção, ou pelo menos o melhor sucesso. Essa é a minha preocupação: sempre que opero, por uma questão de respeito para com o doente e para comigo próprio, devo fazer o melhor pelo doente e não aquilo que me passa pela cabeça, para que ele recupere. Se tivermos uma visão deformada por um astigmatismo irregular resultante de uma sutura, vamos deixar o doente a ver pior. Na maior parte dos aspetos, a ciência médica é subjetiva e não me revejo nessa medicina. Quero uma medicina objetiva, próxima da Física e da Matemática, para ser muito mais rigorosa, para que todos nós possamos ser mais bem tratados.

Quantos vídeos têm nos vossos arquivos?

Temos milhares de horas de vídeos e as imagens estáticas (fotográficas) já ultrapassam os três milhões. Conseguimos documentar os casos clínicos para fazer uma medicina curativa. Mas também, muitas vezes, uma medicina preventiva ou mesmo preditiva, porque hoje, quando documentamos muito bem o doente e o acompanhamos com todas as imagens que se vão produzindo ao longo dos diferentes exames, muitas vezes conseguimos predizer o que vai acontecer, o que dá uma garantia ao médico de poder atuar no timing certo.

Nos vídeos em 3D o Centro foi pioneiro a nível mundial?

Sim. Soube que havia uma feira de material fotográfico e de vídeo na Alemanha e pensei que, se o cinema já estava a apresentar filmes em 3D, também seria correto começarmos a gravar em 3D. Na altura estávamos a gravar em Betacam digital HD, ou seja, estávamos a um passo de irmos buscar imagens 3D. Tive a perceção de que, se tivesse duas câmaras de vídeo montadas no microscópio a uma distância de 65 milímetros, conseguíamos obter imagens 3D. Contactámos a empresa de quem tínhamos equipamento — a Sony —, que nos disse que não tinha conhecimento de que isso fosse feito, mas que ia contactar a filial da Europa para ver o que podia facultar. Cederam-nos então equipamento para testarmos, montámo-lo no microscópio operatório e obtivemos logo imagens 3D com um efeito espetacular. A Sony, quando viu as imagens, acabou por nos fornecer o equipamento, que veio diretamente da fábrica no Japão para o Centro Cirúrgico de Coimbra. E conseguimos em dezembro de 2010 fazer as primeiras imagens do mundo em 3D. As minhas cirurgias são sempre assistidas por um engenheiro de ótica. E muitas vezes há efeitos sombra, colagens de membranas que podem não ficar perfeitas. O engenheiro está a ver as imagens com uma nitidez perfeita e se eu falhar alerta-me imediatamente para corrigir.

Portanto, a Sony não tinha uma solução específica para a oftalmologia.

Não. Os equipamentos que utilizamos são os que o fabricante fez para muitos outros objetivos. E reconheceu que fomos a primeira equipa a nível mundial a conseguir recolher as imagens em 3D, não só com os aparelhos da empresa mas também das outras marcas. A cirurgia ocular é diferente das outras, porque há poucas áreas do organismo como os olhos onde conseguimos entrar e ver o que está lá dentro, porque temos meios transparentes. Na maior parte dos outros órgãos só conseguimos entrar através de incisões. As imagens em 3D dão ao cirurgião a noção de profundidade e reduzem, por isso, o risco de lesar as estruturas dos órgãos.

Os seus doentes dizem que tem uma forma diferente de se relacionar com eles. Porquê?

Há dois tipos de relacionamento médico/doente, consoante estamos perante patologias agudas ou crónicas. Na patologia aguda — um descolamento de retina, uma ferida grave provocada por um acidente — o doente deve querer que o médico seja um profissional capaz de lhe resolver da forma mais rápida e eficiente o problema, para que possa retomar a sua vida.
Nos doentes crónicos que têm patologias graves que vão evoluir de uma forma complicada e levá-los a visões muito baixas ou mesmo à perda de visão, como na retinopatia pigmentar (doença hereditária da retina que leva à perda progressiva da visão) numa fase terminal, a atitude do médico não pode ser a de quem vai atuar de uma forma decidida como se conhecesse a solução. Aqui o médico tem de ser mais capaz de ajudar psiquicamente o doente a ultrapassar as dificuldades, informando-o do centro de reabilitação que o pode ajudar. E a consulta terá sido importante para lhe fazer ‘ver’ que há outra vida que pode ser vivida mesmo com a limitação da cegueira.

O tipo de relacionamento com os doentes foi a razão que o levou a sair do Serviço Nacional de Saúde?

Sim, saí do SNS porque o projeto que me estava a ser proposto não era o projeto que tenho para a oftalmologia. Há que ter respeito pelo doente. E só respeitamos o doente se pudermos fazer o melhor por ele. Quando vi que estavam criadas algumas condições em que não conseguia fazer o que desejava, entendi que era melhor retirar-me e saí do Hospital de Coimbra há sete anos.
Muitas vezes o que se faz ao doente resulta de convicções pessoais e isso não é ciência. A ciência tem de ser perfeitamente documentada, para que haja sempre memória futura, para que os casos possam ser sempre revistos, para que se possam tirar conclusões que nos permitam fazer melhor pelos doentes e não ficar com a impressão de que um tratamento parece atuar.
Ou atua ou não atua. E neste país continua a gastar-se dinheiro a mais porque os casos clínicos não estão bem documentados, não foram devidamente estudados.

Em 2011 afirmou que em Portugal havia um excesso de cirurgias às cataratas.

Afirmei e tive um inquérito da Ordem dos Médicos e outro do Ministério da Saúde. Nessa altura já não estava no SNS. Quando fui ouvido na Ordem dos Médicos já tinha prescrito o prazo e quanto ao Ministério da Saúde nunca mais me disseram nada. Quem gere a saúde tem de conhecer bem o que as pessoas precisam e aplicar os dinheiros da melhor forma possível. Há cirurgias pagas pelo SNS e que não deviam ser pagas, como uma cirurgia refrativa numa pessoa com duas ou três dioptrias. Não faz muito sentido quanto temos doentes com cancro em listas de espera.

No caso dos seis doentes que cegaram depois de terem sido tratados com Avastin no Hospital de Santa Maria, em 2009, esteve envolvido no esclarecimento do problema?

Sim, nessa altura era presidente da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia e fui contactado pelo conselho de administração do Hospital de Santa Maria. Foi uma situação muito grave que pôs em causa a competência do Serviço de Oftalmologia e do funcionamento do hospital.
Aceitei intervir porque este hospital tem uma notoriedade especial e achei que as notícias que estavam a correr não eram verdadeiras. Já tinha injetado o Avastin em muitos olhos e nunca tive uma situação daquelas, fui eu que introduzi o Avastin em Portugal nos olhos no dia 17 de dezembro de 2005. Hoje continua a ser injetado e até agora salvou ou melhorou muitas cegueiras em milhões de pacientes em todo o mundo. Por qualquer lapso que houve, o Avastin não podia ser incriminado.

Diz-se que quando há doentes que não têm meios para pagar tratamentos e cirurgias os trata na mesma. É verdade?

Como médico tenho obrigação de ajudar os doentes, quer me paguem quer não. Se posso fazer o melhor pelos meus doentes sem comprometer a viabilidade deste centro, faço-o com enorme prazer, porque sempre que recupero a visão a uma pessoa que tinha alta probabilidade de ficar cega realizo-me como profissional e realizo essa pessoa, que pode continuar a fazer a sua vida com maior dignidade.

Mas que critérios usa para tomar essa decisão? Tem de ter uma enorme confiança nos doentes…

Só sei tratar os doentes que me procuram se eles tiverem essa relação de confiança comigo. A relação entre médico e doente tem de ser transparente. Tenho a certeza absoluta que, dos doentes que ajudo, não tenho ninguém a enganar-me. Não quero que os meus doentes peçam esmolas, quero que sejam tratados com a maior dignidade e da melhor forma possível. Claro que esta prática não pode ser generalizada, mas pode ajudar muitas pessoas que têm necessidade mas que não têm outros meios.

Recebe doentes de todo o mundo?

Já observei doentes de 43 países, não posso dizer que recebo doentes de todo o mundo porque não teria capacidade para isso, mas somos procurados por doentes de várias nacionalidades, muitos deles deslocando-se de muito longe para este Centro. Vêm da China, Equador, Canadá, EUA, Inglaterra, Luxemburgo, Alemanha, dos PALOP. Na área da cirurgia vitrorretiniana, das estruturas do interior do globo ocular, todas as grandes figuras da cirurgia mundial me conhecem.
Fazemos 40 mil consultas e quase cinco mil cirurgias por ano, sendo 2% dos doentes estrangeiros. E temos aqui internamento. Estou convencido de que este centro, em termos de equipamento oftalmológico, é provavelmente o mais bem equipado da Europa.

Tem também engenheiros a trabalhar consigo por causa dos equipamentos?

Sim, de uma empresa que nasceu aqui, a Blueworks, que conseguiu desenvolver o OphthalSuite, um programa computorizado, pioneiro a nível mundial, que permite o interface entre todos os aparelhos que temos no centro, e em frações de segundo podemos ir buscar as imagens de qualquer doente a uma base de dados. O OpthalSuite já está instalado em hospitais ingleses. A base de dados é a melhor da Europa, não só pela quantidade como pela qualidade. Temos aqui também a trabalhar três engenheiros biomédicos que não são da Blueworks, no âmbito de um projeto com o Departamento de Física da Universidade Nova de Lisboa para estudo de algoritmos que possam melhorar a imagem.

Portugal tem condições para o turismo de saúde?

Tenho muitas dúvidas. Primeiro, porque o doente estrangeiro chega aqui e fica completamente desprotegido, não tem legislação em que se apoie. Segundo, porque Portugal não é reconhecido internacionalmente como sendo um centro de excelência. Muitos médicos no estrangeiro sabem que há médicos de excecional qualidade em Portugal mas o país não é uma referência em termos internacionais. Quando fizemos o “Atlas RL-eye” no nosso site para mostrarmos casos clínicos de oftalmologia, internacionalizamos completamente o nosso centro: o atlas é visitado por pessoas de 163 países e temos entre 500 a 600 visitas por dia. Se aqui temos cirurgias de excecional qualidade, diagnósticos precisos baseados em exames complementares reconhecidos internacionalmente, o atlas é uma forma de espalharmos a notoriedade deste centro.

Na oftalmologia a fronteira entre a ciência e a arte está um pouco esbatida?

A vida sem arte não faz sentido, quando conseguimos perceber que temos pela frente uma obra de arte como os olhos, que pode influenciar toda a arte na forma como a vemos e na forma como ela se produz. Há grandes pintores que pintaram de determinada maneira porque não tinham uma visão cromática idêntica à das pessoas comuns, e faziam uma interpretação diferente do que viam. O melhor exemplo disso é provavelmente o Van Gogh, que naquele período de alucinação fez as melhores pinturas.
Tenho doentes pintores que me chegam com patologias mais ou menos graves e que me dizem que continuam a ver muito bem as cores, a reconhecê-las e a reproduzi-las. Depois são operados e dizem que afinal não estavam. E outros que não veem bem mas mantêm uma ótima visão cromática.

É por isso que tem o Centro decorado com tantas pinturas?

Sim. Gostava de ter muito mais arte no Centro, tenho exposições regulares e procurarei ter mais. A exposição “Visões” já tem mais sete locais para onde ir, outras cidades portuguesas, e em setembro estará no Luxemburgo, havendo ainda negociações para que possa avançar para Londres, sempre com a perspetiva de que está a transmitir conceitos científicos.

Qual é a doença com maior número de doentes tratados?

É a catarata. Depois são as membranas arquirretinianas que se formam à frente da retina e distorcem a área nobre da visão, os descolamentos da retina e a retinopatia diabética (lesão na retina provocada pela diabetes).

António Champalimaud foi seu doente?

Sim, foi o primeiro doente que observei no Centro antes de este ser inaugurado a 4 de julho de 1989. Observei António Champalimaud no dia 28 de junho e foi uma pessoa com quem estabeleci uma relação privilegiada. Apareceu no centro através de um amigo comum e no fim da primeira consulta perguntou-me quanto é que me devia e eu disse-lhe que tinha sido um privilégio tê-lo conhecido, que tinha chegado através de um amigo, e não lhe queria cobrar os honorários. Mas quando chegou a Lisboa mandou-me um cheque de 100 contos para me pagar a consulta, que na altura custava 12 contos. Liguei ao nosso amigo comum e disse-lhe: “Desculpe, mas nem do sr. António Champalimaud aceito que faça o preço da minha consulta. Diga-me o que devo fazer, porque não quero ser mal-educado e devolver o cheque”. Passados cinco minutos recebo um telefonema de António Champalimaud que me pede: “Entregue o cheque a qualquer instituição de caridade, se é esse o seu desejo”.

E a quem entregou?

Entreguei-o a Fernanda Almeida Santos (irmã de António de Almeida Santos), que estava envolvida na ajuda aos moradores mais carenciados da Baixa de Coimbra. António Champalimaud veio mais três vezes à minha consulta e três vezes mandou depois cheques de 100 contos para eu os entregar a Fernanda Almeida Santos. À quinta e sexta consulta ele já não mandou nenhum cheque e no fim disse-me: “Quero oferecer-lhe uma coisa, não é nenhum quadro nem nada de pessoal, mas um aparelho para o seu centro”.
E assim foi, acabou por pagar 50 mil euros por um OCT [tomografia de coerência ótica, que permite a realização de biopsias virtuais do órgão estudado], e começámos a imprimir no papel dos resultados dos exames aos doentes feitos com o OCT: “Este exame é oferecido pelo sr. António Champalimaud”. No dia 28 de janeiro de 2000 ele deu-me conhecimento da Fundação que queria criar e explicou-me numa consulta: “Tem aqui os estatutos provisórios da Fundação e vai utilizar isto como entender, mas peço-lhe uma coisa — não diga rigorosamente nada disto a ninguém, porque só sei eu, a minha secretária e o dr. Proença de Carvalho”. Nem os filhos sabiam.
Nesses estatutos provisórios já aparecia o meu nome como curador da Fundação, posteriormente confirmado por Leonor Beleza (presidente da Fundação), e hoje tenho um enorme orgulho em pertencer ao Conselho de Curadores, que tem gente de excecional qualidade e de certeza absoluta vai conseguir atingir os objetivos que António Champalimaud desejava.

Quando isso aconteceu, António Champalimaud já estava cego?

Não, estava numa situação complicada mas conseguimos manter-lhe a visão, até que na fase final acabou por a perder. Mas quando fez o testamento ainda conseguia ver e ler.

Leave a reply