Os raios misteriosos, invisíveis e indolores, conhecidos como raios X, serão uma vantagem ou uma ameaça à sociedade?

De misteriosos, há quase 120 anos, passaram a relevantes. São conhecidos como raios X, os raios descobertos pelo alemão Wilhelm Roentgen, professor de física teórica. Numa das muitas experiências que realizou, Roentgen reparou que durante o funcionamento de tubos de raios catódicos, às escuras, havia uma película que ficava fluorescente. Foi o passo necessário para se perceber que era possível obter imagens do interior do corpo humano em filmes radiográficos. A partir daí, o futuro do diagnóstico por imagem estava revolucionado.

A verdade é que no nosso dia-a-dia estamos rodeados de radiação que se propaga no ar. Consoante a sua interação com a matéria, podemos dividi-la em ionizante e não-ionizante. A radiação não-ionizante é, por exemplo, a luz visível ou as ondas de rádio; já a radiação ionizante, que significa ter o poder de ionizar células e átomos, e portanto o poder de causar dano nas células e ADN, inclui (entre outros) a radiação X.

A radiação ionizante faz parte da radiação natural, à qual todos nós estamos expostos durante toda a vida, quer por radiação cósmica, radiação que recebemos do espaço e que penetra a nossa atmosfera, quer por radiação provinda de elementos radioativos naturais, presentes no solo, nas matérias-primas, nos alimentos que consumimos e até na nossa própria constituição.

Embora, na esmagadora maioria dos casos, os efeitos negativos da radiação ionizante nos organismos sejam eliminados por “mecanismos biológicos compensatórios naturais”, crê-se que a radiação natural seja responsável pela ocorrência de mutações genéticas, eventualmente as mesmas que levaram à evolução das espécies.

Então, uma vez que a radiação ionizante faz parte da nossa vida, porque nos preocupamos com os seus riscos? Devemos perceber que a radiação ionizante faz parte do nosso meio natural, contudo, há que ter em consideração o limite a partir do qual existem riscos significativos irreversíveis para a saúde.

A descoberta da produção artificial de raios X contribuiu para o aumento do nível global de exposição da sociedade à radiação ionizante. A facilidade de realização/acessibilidade, valor diagnóstico e evolução tecnológica levaram a um aumento exponencial do número de exames radiológicos de diagnóstico.

Hoje, os equipamentos sofreram inúmeras alterações e o advento da radiologia digital trouxe mais eficácia na otimização de imagens radiográficas e, se usado adequadamente, permite uma redução significativa de dose, mas também a manipulação de imagens no pós-processamento, evitando repetições desnecessárias.

Inicialmente, a produção de imagem diagnóstica por raios X era muito ineficaz. Para podermos comparar a evolução, a primeira radiografia da história dos raios X foi a de uma mão sujeita durante 15 minutos à exposição de raios. Atualmente, a esmagadora maioria das radiografias demora menos de metade de 1 segundo.

A formação do técnico de radiologia foi um desenvolvimento crucial, uma vez que para se atingir a imagem diagnóstica ideal não basta saber trabalhar com o equipamento, mas também ter conhecimento anatómico e anatomo-radiológico para o correto posicionamento. A formação do técnico de radiologia não teria sentido sem uma forte componente de proteção radiológica e de controlo de qualidade, uma vez que este desempenha um importante papel na realização de exames radiológicos. Por outro lado, a decisão da realização deste exame estará sempre dependente de algumas premissas, que visam o benefício e a proteção de trabalhadores e utentes.

Nenhum exame médico, com recurso a radiação ionizante, deve ser realizado sem que se verifique claro benefício para o utente, tendo em conta a sua situação clínica. O exame é justificado quando o benefício diagnóstico supera o risco de realização de exame.

Também durante o exame se aplica este princípio à repetição de exames e exposição escolhida para cada utente, sendo igualmente importante o princípio ALARA (As Low As Reasonably Achievable), que determina que a exposição a radiação para fins diagnósticos deve ser tão baixa quanto possível para uma determinada qualidade de imagem. Cada serviço deverá otimizar equipamento e parâmetros de exposição consoante exame e biótipo do utente, definindo “à priori” os seus NRD (Níveis de Referência Diagnóstica), de modo a adequar as doses a cada pessoa.

A nível legal, as primeiras normas europeias no sentido da proteção radiológica de trabalhadores e sociedade datam de 1959. Através destas regulamentações, periodicamente revistas, foi implementada a obrigatoriedade de barreiras físicas, normas de instalações, sinaléticas e monitorização dos valores de exposição, entre outros. Segundo a última revisão da diretiva EURATOM, o valor limite de dose por ano que um utente pode acumular por exposição médica é de 1 mSv para o corpo inteiro. Este valor é inferior ao limite estabelecido para um técnico de radiologia, que é de 20 mSv/ano. Contudo, os vários estudos demonstram que este limite de exposição, seguro e válido para os técnicos de radiologia, acaba por ser muito inferior. Como termo de comparação, a dose de radiação recebida durante um exame de RX de tórax, equivale à mesma que uma pessoa recebe em três dias de exposição à radiação natural, cerca de 0,02mSv.

Os raios X não devem ser considerados vantagem nem ameaça. É o critério no seu uso que definirá a sua qualidade. Deve existir uma cultura de proteção radiológica, mas sem incutir receio, pois é o conhecimento que nos dá o poder de controlar a exposição à radiação ionizante.

Um serviço de Radiologia deve trabalhar sempre em prol do doente, procurando atingir a melhor imagem, com a dose otimizada para cada situação. A sua proteção é o meu empenho.

Teresa Pedro

(técnica de radiologia)

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