Temos essa esperança. A par com o aumento da longevidade da espécie humana, também os implantes ganharam tempo de vida. A artroplastia da anca ou do joelho começa a ser uma cirurgia para a vida, essa expetativa existe

A realização de artroplastias do joelho e anca são cada vez mais frequentes e ganha força a ideia de que a prótese ou implante não terão necessidade de ser substituídos.

Temos verificado uma evolução técnica considerável nos últimos anos, com uma melhoria na qualidade dos materiais usados, melhoria na técnica cirúrgica e nos ensaios clínicos dos implantes em laboratório. Estes fatores têm levado a um aumento da longevidade dos implantes. Tal é comprovado por documentação científica, onde são registadas todas as artroplastias e analisados os casos de falência.

Os “Registos de Artroplastias” de alguns países, nomeadamente da Austrália, Inglaterra, Suécia, são uma mais-valia científica importantíssima para a deteção precoce de implantes com erros de conceção e/ou maus resultados, tornando-se importantes alertas para a comunidade ortopédica. Por outro lado, permitem-nos ainda ter uma noção da longevidade média das próteses aplicadas.

Relativamente às próteses da anca, usadas sobretudo em situações de artroses, mas também em situações de fraturas proximais do fémur, esses mesmos registos dizem-nos que têm uma sobrevida de quase 90% aos 19 anos. Quer isto dizer que de 100 próteses da anca aplicadas, passados 19 anos, necessitam de cirurgia de revisão apenas 10!

Numa perspetiva otimista, com a evolução técnica obtida nos últimos 20 anos, é expectável uma durabilidade ainda maior! Atendendo ao facto de que a artroplastia da anca ser realizada, maioritariamente, no grupo etário acima de 65 anos, podemos dizer com alguma segurança que a cirurgia/prótese é para toda a vida!

Claro que não podemos esquecer que qualquer cirurgia tem riscos e que alguma coisa pode correr mal. Também aqui os registos são um importante auxílio, pois permitem identificar as causas de insucesso. O doente deve ser sempre informado da possibilidade de descolamento/descelamento (a prótese ficar solta, não ficar agarrada ao osso); de ocorrência de uma fratura à volta do implante; luxação (o desencaixe dos 2 componentes) e infeção; são estas as principais causas de insucesso da intervenção.

Presentemente o número de artroplastias realizadas ao joelho é superior ao de artroplastias da anca. Este procedimento tem vindo a ser realizado com frequência crescente, estando cada vez mais adaptado à patologia e ao doente. Neste caso pode ser realizada a substituição de toda a articulação ou apenas de um segmento do joelho.

Ao contrário do que inicialmente se presumia, os resultados a longo prazo das artroplastias do joelho são quase iguais aos da anca: taxa de risco de revisão de 9% aos 19 anos em situações de osteoartrose do joelho! Claro que se trata de uma técnica exigente e que deve ser executada por cirurgiões experimentados, mas as mais recentes publicações científicas eliminam alguns preconceitos existentes.

Quanto aos problemas que podem estar na base de nova cirurgia, destacam-se o descolamento, a infeção, a dor residual e a instabilidade. Podemos concluir dizendo que temos a expectativa de que a artroplastia da anca ou do joelho, será uma cirurgia para a vida. Serão exceção os casos de doentes muito jovens e os casos em que alguma coisa se desvia da normalidade.

Como fatores encorajadores para continuarmos a realizar estes procedimentos, aponto a melhoria dos materiais que hoje usamos (relativamente aos usados no passado e que foram escrutinados) e que por isso sustentam uma expectativa de duração ainda superior; técnicas cirúrgicas cada vez menos invasivas e que garantem uma recuperação cada vez mais rápida dos doentes; o crescente número de soluções técnicas disponíveis, em caso de necessidade de revisão da artroplastia, que garantem a recuperação do doente; uma perspetiva futura de técnicas e materiais ainda mais evoluídos, para solucionar problemas que surgirão daqui a 20 anos…

Pedro Marques 
(Médico Ortopedista)

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