Impossibilitados de ver os sorrisos ou de ler nos lábios, resta-nos o olhar. E, para um oftalmologista, a palavra olhar tem um duplo significado e outra responsabilidade.

“Mascarados” fica tudo mais difícil, mas é assim que teremos de permanecer até que a ameaça se extinga. A realidade exige-o. Claro que o SARS-CoV2 não fez tudo isto sozinho, desenlaçou as relações e a vaidade humana ajudou a fazer o resto. O cenário vestiu-se de medo.

A ameaça é ridiculamente pequena (tão só um vírus) e exige que mudemos de rumo. A tradição começa a ser apenas uma memória. A afetividade e as carícias reservam-se para daqui a 3 meses, 6 meses, um ano, sem recorrer a temperos, conservantes ou aromatizantes. As conversas são distantes e o amor já nem às paredes se confessa. A lista do que é essencial vai ficando cada vez mais pequena. Já não deixamos nada para fazer amanhã, adiamos para o próximo ano.

Queremos acreditar que a ameaça será temporária, é preciso dar tempo para que se extinga. Dizem que teremos de esperar mais uns meses ou um ano para que tudo volte a ficar com antes. Suspeito que nunca chegaremos a esse tempo. Não só pelas leis da física, mas também porque nunca voltaremos a ser os mesmos. A pandemia mudou-nos. Resta-nos o olhar e esse continua a ser influenciado pela moldura. 

É tão só isso que vos posso desejar, que procurem a mais bela moldura e que construam o vosso olhar. Seja para este Natal, seja para o próximo ano, seja para toda a vida. Olhar para o outro e pelo outro será o maior desígnio para este Natal.

António Travassos
(Médico oftalmologista)

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