Fazer escolhas implica uma tomada de decisão e é aqui que muitos nos aconselham a ouvir separadamente o coração e a razão. Nada mais errado. Vamos precisar de ouvir os dois

A velha questão do conflito entre o coração e a razão será verdadeira? Será que faz sentido acreditarmos que o coração nos dita caminhos mais impulsivos e até “perigosos” e que o cérebro será o conselheiro equilibrado, que nos faz escolher com base na análise e na razão?

Na nossa vida já todos ouvimos várias vezes as frases “ouve o teu coração” e “tenho que te chamar à razão”, quando nos deparamos com a necessidade de fazer uma escolha importante e nos socorremos da opinião das pessoas que nos são próximas. Mas será que “ouvir o coração” e “ouvir a razão” são atitudes incompatíveis?

Parece-nos que emoção e razão devem ser encaradas como aliadas fortes, completando a sua atuação e a sua influência na realidade de cada ser humano. Já todos tomámos decisões com base na emoção e também com base na razão mas, normalmente, uma sem a outra não produzem o desejado equilíbrio. Emoção e razão fazem parte constante das nossas vidas e assumem uma presença mais ou menos forte, conforme o momento que estamos a experienciar.

Viver com dúvidas e com necessidade de escolher é uma realidade inerente à nossa existência e, desde muito cedo, aprendemos a lidar com essas experiências, aprendendo também a lidar com as consequências das nossas decisões. As decisões resultam, na maior parte das vezes, do diálogo entre a emoção e a razão, que vamos conhecendo ao longo da nossa história pessoal, e só desse diálogo poderá resultar o crescimento.

A ausência de total separação da emoção e da razão que António Damásio defende, ajuda-nos a perceber que as emoções possam gerar sentimentos, mas também atos racionais e, que tanto umas como outros vão influenciar o desenvolvimento individual e a capacidade decisória. Assim, entendemos que uma decisão dita racional possa ter na sua origem a interferência de variáveis emocionais e até que uma decisão da qual resulte um comportamento desejável e bem-sucedido possa ter na sua origem uma emoção caracterizada como negativa. A aceitação de toda esta plasticidade será, a nosso ver, essencial à saúde e ao bem-estar. 

Assim, desvaloriza-se a crença de que as decisões mais acertadas são as que se tomam com base em análises racionais, mas também a ilusão de que a emoção sabe o melhor caminho na procura daquilo que é benéfico para o sujeito. 

Diríamos que a dicotomia emoção versus razão não poderá ter lugar numa tentativa de compreensão do comportamento humano, no que se refere à necessidade (e à possibilidade) de decidir e sim que estes dois conceitos são de complementaridade, não de antagonismo.

Todos já experimentámos a necessidade de ter que tomar uma decisão e o peso de temer que não seja a “certa”. As nossas decisões só se provam mais ou menos acertadas em função das suas consequências futuras e em função dos benefícios que trazem. Seria muito mais simples se pudéssemos anular tudo o que é indesejado, se pudéssemos eliminar tudo o que nos deixa menos felizes. Contudo, a questão reside em fazer escolhas, que denotem um equilíbrio entre emoção e razão e, essas escolhas, serão tanto mais seguras quanto mais forem baseadas no conhecimento que temos de nós próprios e da nossa realidade interna.

As nossas emoções e a nossa racionalidade são características do que é humano, convivem na nossa essência e, embora um ou outro domínio possa prevalecer em certas pessoas ou em certas atitudes, talvez seja consensual se dissermos que a saudável existência destes dois lados em cada um de nós será a condição desejável, no sentido de que nos orientará num percurso de vida mais tranquilo e adaptado.

Ana Beatriz Condinho
(Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta)

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