Em pouco mais de 35 mil anos, a obesidade da mulher/divindade transformou-se em ameaça epidémica. Pelo meio existiu a fome e o pecado da gula, mas também o renascimento de uma burguesia que queria mostrar os seus bens e riquezas. O que mudou? O homem sedentarizou-se e modificou drasticamente a sua alimentação. A máquina a vapor, a eletricidade, a ciência, a tecnologia, a robótica, a biotecnologia… não conseguiram alterar este destino. Chegámos ao estado de epidemia

Falar de obesidade é falar de uma situação caracterizada pela acumulação excessiva de gordura no corpo, que se traduz num aumento de peso e que é reconhecida desde há milhares de anos na evolução do Homem. Assim o comprovam inúmeros testemunhos, alguns com milénios de existência, elaborados pela mão humana, na forma de gravuras rupestres, de estatuetas esculpidas nos mais diversos materiais (pedra, madeira, metais, osso, marfim e, finalmente, pela pintura), e que atravessaram séculos de criação e de evolução estilística.


Nesta longa caminhada na História do Homem, desde o Paleolítico ao ano 2020 do Século XXI, a Obesidade foi uma presença constante embora com diferentes prevalências nos vários períodos históricos. Foi relacionada com a beleza, a formosura, a fertilidade, a abastança, a prosperidade e, antagonicamente, com a fealdade, o grotesco, a debilidade e a doença.

A doença é o patamar atual, uma doença epidémica estendendo-se por todo o Mundo, indiferente ao estatuto económico e social de cada obeso. É uma epidemia global. Ambas, a Arte e a Obesidade, são presenças constantes na evolução humana. Pela pintura e escultura o Homem registou a Obesidade ao longo dessa evolução. O que acontecerá no futuro?

A Arte vai seguramente existir enquanto o ser humano existir. Novas formas de expressão artística serão provavelmente desenvolvidas ligadas à Quarta Revolução Industrial, mas a pintura e a escultura continuarão o seu percurso de séculos, concebidas pela mente humana, expressando as suas sensibilidades e executadas pelas mãos, criando novas tendências estéticas, certamente enquadradas em novos movimentos artísticos. Gordos continuarão a existir, como sempre existiram no passado, provavelmente apenas variando o estigma que em cada momento da História lhe foi associado.


O aspeto epidémico da obesidade apenas será resolvido com a adoção de novas formas de vida social, da relação do Homem com o trabalho, do cumprimento de regras alimentares básicas, não submissas aos desígnios de toda uma indústria agrícola e alimentar, frequentemente propriedade de multinacionais agressivas no objetivo final do lucro máximo, utilizando campanhas de um marketing sedutor, apelativo mas maligno.

Educando pedagogicamente as crianças, pelo exemplo da necessidade da mudança de comportamentos. A dimensão da transformação necessária vai abranger a própria conceção dos centros urbanos, as suas acessibilidades, os tipos habitacionais, as zonas verdes, vias pedonais, transportes públicos e tantos outros fatores que possam recuperar a capacidade da movimentação quotidiana do Homem, combatendo o sedentarismo e para uma vida mais sadia e com menos quilos de massa gorda. Contra a atual epidemia global da Obesidade será necessária uma revolução global nos comportamentos do Homem.

Pedro Gomes
(Médico, Cirurgião Geral)

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