No momento da puberdade são habituais as alterações da voz nas raparigas e nos rapazes mas, de forma mais aparente e exuberante, no sexo masculino. O aumento, relativamente rápido, do tamanho da laringe e as alterações endócrinas/hormonais são caraterísticas desta idade (tal como o início do bigode)

Voz, fonação, palavra e fala são vários conceitos que, não sendo sinónimos, convergem, em conjunto para uma forma de expressão, em que qualquer alteração pode alterar a vida pessoal, social e até profissional de um indivíduo. Mesmo na sociedade tecnologicamente evoluída em que vivemos, a voz continua a ser o nosso meio de comunicação privilegiado.

Costumamos ligar a produção da voz, à existência de estruturas que designamos de cordas vocais (temos duas, direita e esquerda), as quais estão dentro de um órgão que apelidamos de laringe, espécie de caixa formada por cartilagens, ligamentos, músculos e articulações, situada entre os pulmões e a faringe, fazendo ligação entre eles e participando na atividade vital da respiração.

O som produzido pela vibração do ar, entre as cordas vocais, vai ainda ser modificado pelas cavidades da boca, do nariz e pela atividade da língua, transformando som em palavra, riso, choro, grito ou canto… Também podem surgir alterações na voz e essas podem ser de diversos tipos e diferentes origens e causas.

No momento da puberdade são habituais as alterações da voz nas raparigas e nos rapazes mas, de forma mais aparente e exuberante, no sexo masculino, por efeito de um aumento, relativamente rápido, do tamanho da laringe, crescimento consecutivo às alterações endócrinas/hormonais que são caraterísticas desta idade. É o que habitualmente designamos por “Muda de Voz”. Que não deve ser confundida com alterações vocais, disfonia/rouquidão, tão frequente, mas de forma transitória, durante a infância, em crianças muitas vezes classificadas como hiperativas, que usam e abusam, por vezes de forma estridente, da sua voz…

Essa mudança de voz, é mais evidente nos rapazes e, geralmente, ocorre entre os 13 e os 16 anos e é contemporânea com o aparecimento de pelos a nível do lábio superior (o início do bigode…).

A mudança surge porque as cordas vocais alongam-se, ou seja, aumentam de comprimento, mas também de volume e a voz fica mais grave. O processo de muda costuma ser progressivo, embora relativamente rápido (2-3 anos, no máximo) e marcado por momentos de “quebras” vocais, surgindo nas mais variadas situações mas, sobretudo, nas de maior tensão nervosa.

Condicionada, pelo menos nos países ocidentais, por estereótipos em relação aos homens que tornam a voz de “falsete”, que embora seja possível é socialmente inaceitável. Na nossa sociedade, o que é considerado “normal” em termos de voz masculina, é a voz de tenor, barítono, baixo… Essa normalidade corresponde à diferença de uma oitava (medida do intervalo entre uma nota musical e outra) entre a voz de um rapaz e a voz de um homem adulto.

Cabe aqui, a título de curiosidade, lembrar que, por volta do século XVIII, eram muito apreciados os cantores masculinos com extensão vocal semelhante às das mulheres. Para possibilitar isso, as crianças teriam de ser submetidas à castração, para conservarem a sua voz aguda! O mais famoso dos castrati, foi Farinelli, que chegou a ser o cantor de ópera mais bem pago da Europa na sua época. Essa prática, comum em Nápoles/Itália, só foi proibida em 1870!

O porquê da castração antes da puberdade? Tão só porque impedia a libertação da Testosterona, a hormona sexual produzida pelos testículos, considerada a principal responsável pelas alterações da puberdade e, em relação à voz, na mudança de aguda para grave, isto dito de uma forma simplista mas fácil de compreender.

Já em relação às mulheres e às crianças, a tolerância é maior e o chamado registo/extensão vocal acaba por ser mais amplo. Assim, problemas da “muda da voz” apenas costumam ser referidos nos rapazes. Esses problemas/distúrbios surgem quando a pessoa, habitualmente rapaz, tem dificuldade em se adaptar a uma dupla exigência, a fisiológica, com o aumento das cordas vocais e a social, condicionada pela civilização onde se enquadra e pelo meio familiar onde evolui.

Os motivos pelos quais a adaptação, no tempo e/ou na forma, por vezes, falha, variam. E as causas podem ser físicas (hormonais, por exemplo) ou emocionais/psíquicos. Não nos podemos esquecer que todos somos iguais, mas também somos todos diferentes uns dos outros… e cada criança é única e cresce de forma diferente. Todavia, quando se evoca um problema na normal Muda de Voz é necessário agir.

Para além da avaliação vocal e do exame laringoscópico, realizado por otorrinolaringologista, é também útil realizar um exame endocrinológico, sobretudo para avaliar os níveis de testosterona. É com base nessa avaliação, envolvendo frequentemente diferentes profissionais, que se vai decidir sobre a necessidade, oportunidade e tipo de orientação ou tratamento a realizar: terapia da fala (o mais frequente) tratamento cirúrgico (fonocirurgia) ou acompanhamento psicológico,… Não nos podemos esquecer que “a voz é o espelho da alma”.

Jorge Miguéis
(Médico, Otorrinolaringologista)

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