A situação e a gravidade da doença exigem investigação e certezas. O rótulo de doença misteriosa existe pelo pouco que se sabe. Sugere-se atenção a alguns sintomas e boas práticas de higiene. É preciso dar tempo para que a ciência encontre respostas

Sem saber a causa é difícil prevenir ou tratar. É o que está a acontecer com as inflamações agudas do fígado em crianças de alguns países da Europa, sobretudo no Reino Unido. Poderá tratar-se de um vírus é certo, mas diferente de todos os que são conhecidos, até hoje, como causa de hepatite.

O desconhecimento é terreno propício para teorias com menor ou maior base científica e por isso muito se especula à volta dos casos de hepatite viral, que já afetou 169 crianças em todo o mundo, obrigando, em casos extremos, ao transplante de fígado. 

Nenhum dos vírus conhecido como causadores de hepatite está presente nestes casos, porque nenhuma criança testou positivo para qualquer um deles. Mas o certo é que existem crianças que desenvolveram uma inflamação grave do fígado. Alguns investigadores estão a seguir a teoria dos adenovírus, como explicação. Mas também é verdade que estes sempre existiram, principalmente nesta altura do ano, causando conjuntivites e problemas gastrointestinais. Ou seja, doenças com pouca ou nula gravidade.

Acrescenta-se ainda uma explicação que pode passar pela presença concomitante de SARS-Cov2, o vírus que provoca a COVD-19. Depois, porque saímos de um confinamento que colocou as crianças em ambientes protegidos, também se procura uma explicação para a ausência de mecanismos de defesa contra as infeções. Foi isso mesmo que também terá justificado o número mais elevado de casos com o vírus sincicial respiratório o ano passado.

O certo é que a explicação para os casos de hepatite grave em crianças ainda não existe. Será preciso dar tempo à investigação e à ciência para que se encontre a falha. A situação e a gravidade desta hepatite viral, que está a afetar algumas crianças, exige investigação e por isso se rotula esta nova doença como misteriosa, porque assim é: um mistério. 

Os pais estarão preocupados e desassossegados. Mas, neste momento, o melhor conselho que podem seguir passa por manter as boas práticas de higiene, como lavar as mãos (com água e sabão) e estarem atentos a sintomas, como a icterícia (olhos e pele amarelados); associados a distúrbios gasto-intestinais (diarreia, náuseas e vómitos).

Gustavo Januário
Médico, Pediatra

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