A necessidade de prevenção tem um reverso. Chama-se efeitos colaterais. A atual pandemia exige uma atitude inteligente e a fórmula passa por conciliar a evidência científica com a tradição humanista. Vamos conseguir?

Cinco meses decorridos sobre a declaração de pandemia, a vida alterou-se
profundamente em todos os aspetos. As medidas delineadas para a prevenção da transmissão, heterogénea, refletem o imperfeito conhecimento do vírus e da sua circulação e a falta de estudos fiáveis que guiem os decisores.


As medidas de afastamento social têm profunda repercussão na comunicação e na forma como nos relacionamos com o “outro” e o seu prolongamento devia mobilizar-nos para diminuir os seus efeitos nefastos.


Depois de várias hesitações, tornaram-se praticamente consensuais: o afastamento de 1,5 ou mais metros; a proibição de convívios alargados (mesmo ao ar livre); o uso de máscara e em alguns casos, de proteção ocular. É importante referir que não há estudos concludentes sobre a sua eficácia. Recentemente, uma meta-análise publicada na revista Lancet (1 de junho de 2020), referia a ausência de estudos controlados randomizados e concluía, por exemplo, que o benefício do uso de máscara existia, mas que o nível de evidência era, estatisticamente, de “baixa certeza” (low certainty).


Os efeitos colaterais das medidas usadas para interromper a cadeia de transmissão acentuaram a desigualdade social, levaram ao encerramento das escolas com a prática generalizada do ensino à distância e do trabalho à distância, à profunda alteração das relações pessoais, quase sempre mediatizadas pelas redes informáticas e à diminuição drástica da atividade física de grupo.


A comunicação através de máscara altera a clareza das mensagens orais e impede a leitura da linguagem facial. Um médico portador de prótese auditiva escreveu que subitamente se tornara “um deficiente profundo”. A prática médica corrente foi profundamente afetada e assim permanece. O afastamento, a ocultação e a restrição de acompanhante traduziu-se no que alguns utentes descrevem como “a redução da empatia do pessoal fornecedor de cuidados de saúde”.


É fundamental ter uma atitude inteligente e baseada na evidência científica, relativamente a esta pandemia. Esta deve ser rigorosa e cuidadosamente apresentada e discutida entre pares, antes de ser apresentada aos decisores e vulgarizada em versões simplificadas. Os decisores devem ser informados de forma alargada com intervenção que não exclua os psicólogos, os sociólogos e os pedagogos.


Os prestadores de cuidados de saúde devem ter bem presente que os cuidados que tomam na sua segurança têm o utente como referência primária. E sim, este comportamento público exige prevenção, mas entre estas precauções e o pulsar para a “festa” há uma distância enorme para percorrer. A evidência científica pode ajudar. Os filósofos também. Giorgio Agamben já começou a alertar para a “barbárie tecnológica” que se está a instalar nas universidades. Os estudantes podem continuar fechados nos quartos? E Coimbra, que parece ter abandonado o seu desígnio de Capital da Saúde, deixará também de ser a Cidade Universitária?


Luís Januário
(Médico Pediatra)

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