Esqueçam as botas ortopédicas porque uma criança com pé chato não será, obrigatoriamente, um adulto com pé plano. Na infância, esta é uma situação perfeitamente normal. Num adulto, já não será assim e os problemas começam quando se registam alterações progressivas das articulações

O chamado pé chato é uma situação relativamente vulgar na infância e, na maioria dos casos, reverte para um pé normal – o que chamamos de pé plano dinâmico. Porque esta é uma situação facilmente visível – o pé assenta completamente no chão, não sendo visível a arcada interna – acaba por ser um motivo de preocupação dos pais, principalmente quando associado a alterações da marcha (queda frequente, desgaste de calçado, padrão de marcha com rotação dos pés).

Importa desde logo saber se estamos perante pés flexíveis e que tenderão a evoluir sem problemas ou se podemos estar perante um pé que se tornará rígido e doloroso, tendo presente que o desenvolvimento normal do arco interno não ocorre antes dos 7-10 anos.

Os pés planos, cujo calcanhar elevado do solo se comportam como pés normais, evoluem para pés normais espontaneamente. Sempre que o pé plano se enquadra num fase normal de crescimento, recomenda-se apenas um calçado adequado, com um contraforte rígido, que não é o mesmo que botas ortopédicas.

Para a maioria das crianças, o calçado deve ser primeiro que tudo confortável, flexível e antiderrapante. Ou, tão só e sempre que possível, incentivar a que ande descalça. Por definição, um pé plano caracteriza-se por diminuição ou ausência de arcada plantar interna do pé, com afundamento da abóbada plantar e deformidade em valgo do retropé e a deformidade, com alteração do padrão de marcha e dor é motivo para uma consulta.

Uma observação direta e em podoscópio demonstra o tipo de deformidade, ou seja, se existe um aumento do apoio externo do pé (pé normal), se há um contacto do bordo interno no solo ou se, por outro lado, a abobada plantar desapareceu e, ainda, se estamos perante um pé em balancim.

As causas para um pé plano são diversas e podem estar em alterações ósseas e, neste caso, a situação é redutível nas primeiras etapas, contudo, esta deformidade tende a fixar-se na idade adulta, acrescida de artrose e dor. Alterações musculo-ligamentares e neuromusculares também podem ser causa de pé chato. Numa criança, a decisão de intervir num pé, corrigindo a deformação, só deve ser colocada se existir dor ou se o pé plano for progressivo e rígido.

Convém ter presente que algumas alterações do joelho ou da anca também acabam por provocar alterações no posicionamento do pé, situação mais comum nos adultos, Aliás, na quinta ou sexta década de vida podem aparecer problemas do pé plano em adultos que, até esse momento, não tinham qualquer queixa dolorosa e, quando isso acontece, registam-se alterações progressivas das articulações do retropé. Mais uma vez, se o pé plano for causa de dor, a solução apresentada poderá ser cirúrgica.

Independentemente da idade, devemos ter sempre presente que temos os pés que temos e devemos preservá-los o melhor possível. Claro que a moda é importante, mas dentro da moda deve ser procurado o calçado adequado (forma, contraforte). Sugerimos ainda que não deve utilizar calçado demasiado raso para orientar o peso em cada passada para a frente, evitando sobrecarga da zona lombar baixa e, por fim, mas não menos importante, evite “chinelar”! O esforço despendido aumenta consideravelmente e agrava a tensão muscular no calcanhar.

Gabriela Figo (Médica Ortopedista)

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