Os neurocirurgiões confirmam que os cérebros são mesmo todos iguais. Num bloco operatório são diferenciados apenas por aquilo que têm a mais, do que pelo que têm a menos. Não será por aumentar o volume do cérebro que as mentes ganham poder. A diferença continua a estar nos circuitos e na velocidade de processamento entre os neurónios

É ainda um mistério como símbolos químicos e elétrodos se transformam em memórias, consciência, pensamento, sentimentos e linguagem – nos humanos – e não nas pedras, nas plantas, nas bactérias e nos vírus. Porque as plantas, as bactérias e os vírus também têm comportamentos, e mudam de lugar, adaptam- se e comunicam entre si, mas não têm sistema nervoso, e provavelmente não pensam.

O cérebro constrói um fluxo de mensagens elétricas, informações químicas e enredos mais ou menos elaborados, entre milhões de células nervosas, estabelecendo a formação de padrões que põem a engrenagem em movimento.

Num bloco de neurocirurgia, um cérebro tingido de vermelho de uma artéria que sangrou é diferente do cérebro coberto pelo pus acastanhado de um abcesso, mas o que não se vê, pode ser exatamente igual.

Cérebros tão iguais, com circuitos tão diferentes. Cérebros de presidentes e reis, brancos, racistas, déspotas sanguinários e tiranos, assassinos, poetas e sábios, carpinteiros, pedreiros e trabalhadores do campo. Cérebros todos iguais no bloco operatório. Tingidos de vermelho, ou com tumores aflorando à superfície, tão iguais na essência e tão diferentes nas ideias que produzem. Se os pudermos fixar numa imagem, todos os cérebros doentes, em circunstâncias idênticas, são iguais. Não há ricos, nem pobres. Há cérebros sãos e cérebros doentes.

O neurocirurgião não abre um crânio para ver um cérebro saudável. Abre sobretudo para tornar um cérebro sadio, para devolver as funções perdidas, readquirindo o mundo anterior daquilo que não vemos, as ideias. Esse mundo invisível, que microscópio algum pode seguir no bloco operatório. Em cérebros tão iguais. Em contextos clínicos tão diferentes. Readquirir pensamentos, sensações, imaginação, sentimentos, respeito pelos outros, humildade e entender que todos morrem.

O cérebro de Einstein, com menos de 1300 gramas, tão igual ao de tantos cabeçudos com pesos superiores a 1500 gramas, na altura da retirada do crânio, verificou-se que não tinha ouro, nem platina e constava de dois hemisférios e corpo caloso, tronco cerebral e cerebelo. E era mole e viscoso, como os outros. E cinzento e branco nacarado. E com lobos e fissuras e enrugado como uma noz. E, se fosse medido com precisão, tinha os mesmos 600 quilómetros de artérias que têm todos os outros. 

Então os neurocirurgiões confirmam que os cérebros, sendo tão iguais no bloco operatório, são definitivamente iguais fora do bloco, independentemente da classe social, do género, da idade, do dinheiro que se tem no banco, do número de filhos e dos gostos musicais e outros. Em resumo, os cérebros, no bloco operatório, diferenciam-se mais por quilo que têm a mais – tumores, etc.. -, do que por aquilo que têm a menos – neurónios-. Então pergunto-me, como perguntam outros neurocirurgiões, porquê tanta desigualdade na forma como se vive. Pobres a viverem tão mal e ricos a viverem tão bem! 

É estranho que cérebros tão iguais produzam condições de vida tão diferentes e, sobretudo, ideias tão diferentes. Seria de admitir que, entre coisas tão iguais, pelo menos o básico fosse democraticamente transmitido à descendência. Na verdade, o básico mantém-se, mais ou menos, dentro dos limites. O aspeto exterior, salvo as características próprias das raças, é mais ou menos igual.

O desenvolvimento da mente adquire-se com treino, trabalho intenso, método e dedicação, não com a aparência exterior, mas sobretudo com a beleza interior. E a velocidade de processamento, das ligações entre neurónios, constituem o elemento fundamental na diferenciação das mentes. Não será por aumentar o volume do cérebro, mas pela velocidade da circulação da informação, que as mentes ganham poder, ou não.

Os neurotransmissores, uns facilitadores, outros inibidores, conduzem a maior parte da atividade intelectual, consciente e inconsciente. A estimulação cognitiva personalizada, que favorece a plasticidade cerebral e melhora a velocidade do processamento celular, é o substrato da qualidade da mente. A reserva cerebral pode estar diminuída, como acontece nos mais velhos, que podem perder 10% das conexões neuronais, mas a reserva cognitiva pode adquirir valores estáveis com trabalho, interesse, motivação, aprendizagem e empenhamento constante. Os cérebros privilegiados, de músicos, pintores, poetas, cientistas, filósofos, ou gente comum, não perdem qualidade por serem velhos.

De entre os que têm cérebro, com estimulação cognitiva personalizada, favorecendo a plasticidade e melhorando a velocidade de processamento entre as células, destaco uma personalidade que me inspirou pelo seu trabalho. Pelas suas ideias. Pela dedicação total à sua missão de vida. Pelo legado que deixou, como exemplo, aos que se dedicaram ao manuseamento do cérebro. Harvey Cushing, considerado, pelos seus pares, o pai da neurocirurgia foi contemporâneo de Freud, Einstein, Picasso, Van Gogh, Dostoiévski, Rachmaninoff e William Osler, entre outros. 

As hemorragias cerebrais incontroláveis, no princípio do século passado, davam mortalidades em neurocirurgia na ordem dos 90%. Inventor de material cirúrgico e técnicas que minimizaram os riscos operatórios, Cushing conseguiu, nos seus mais de 2 mil tumores cerebrais operados, reduzir a mortalidade para valores de 10%. Simultaneamente, para além da competência cirúrgica, desenvolveu qualidades literárias e artísticas complementares, tendo sido nomeado para o Prémio Nobel de Fisiologia e Medicina, mais de 30 vezes. Escreveu a biogra􀏐ia de William Osler, que o antecedeu em medicina geral no Hospital John Hopkins, médico que lhe transmitiu que a medicina se aprendia e propagava à cabeceira do doente.

Apesar de existirem muitas espécies no planeta, para o “Sistema Natura”, só há um tipo de animais – os que existem. No bloco operatório de Neurocirurgia, só há um tipo de cérebro – os que sofrem. Nas sociedades evoluídas, só sobressai um tipo de mentes – as que pensam.

Raimundo Fernandes (Médico Neurocirurgião)

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