A resposta inata de sobrevivência ativa os instintos primários e, perante um desastre natural, seja um terramoto ou uma pandemia, a espécie humana pode seguir dois caminhos: “luta ou foge” ou “cuida e faz amizades”. Por ser automática, não conseguimos escolher qual a resposta ao stress que iremos ter, mas podemos treinar a que melhor se adequa a nós

Quando experienciamos uma adversidade – doença ou perda – a nossa relação com o mundo exterior muda. Podemos sentir emoções desagradáveis, como a tristeza, a ansiedade ou a raiva. No entanto, a longo prazo, a adversidade pode ajudar a experienciar uma nova apreciação da vida, pode melhorar a nossa relação com os outros e ajuda-nos a ganhar resiliência, ou seja, “o que não nos mata, torna-nos mais fortes”!

Em situações de stress social, a resposta inata de sobrevivência protege-nos contra a ameaça, mas sendo automática pode ajudar ou prejudicar a forma como lidamos com a situação. Há dois tipos de resposta ao stress. No ser humano, a atitude mais frequente perante um stress é uma resposta de “luta ou fuga” (“fight or flight”), em que, por ativação do sistema nervoso simpático, o corpo prepara-se para lutar ou para fugir da ameaça. Mais especificamente, no cérebro, a amígdala deteta a ameaça e comunica com o hipotálamo, que ativa a hipófise e esta desencadeia uma cascata hormonal, levando à ativação da glândula suprarrenal que liberta adrenalina e cortisol, conduzindo ao aumento da frequência cardíaca e respiratória, à desaceleração da digestão, perda de visão periférica, aumento da glicémia…o que facilita a recção física imediata.

A investigação mais recente mostra que existe outra resposta ao stress, denominada de “cuidar e fazer amizade” (“tend and befriend”). Nesta, a ameaça desencadeia no cérebro a libertação de oxitocina, que promove a construção e manutenção da nossa rede social, reduzindo a ansiedade e melhorando a empatia. Em particular, a oxitocina reduz a atividade hipotálamo-hipófise-suprarrenal, e com a redução do cortisol, diminui também a frequência cardíaca, a tensão arterial, a ansiedade e o stress.

Perante um desastre natural, a resposta ao stress “tend and befriend” reduz a incidência de Perturbação de Stress Pós-traumático e promove o crescimento pessoal. Após a pandemia SARS, em Hong Kong, um estudo mostrou que as pessoas que a experienciaram apresentavam mudanças positivas: maior suporte social, melhor saúde mental e um estilo de vida mais saudável.

Outro estudo, realizado na Nova Zelândia após o terramoto de 2010, corrobora que as pessoas que tinham partilhado esta experiência nutriam sentimentos de união entre si. Para além disso, o facto de assumirem um papel na ajuda aos outros e de contribuírem para a reconstrução da comunidade foi essencial para o seu crescimento pessoal, melhoria da gestão do stress e facilidade no regresso à rotina, após o terramoto.

A investigação mostra que há benefícios em experienciar uma crise coletivamente, e não isoladamente, em que o suporte social sentido durante a crise pode melhorar a saúde emocional e reduzir a reação ao stress, a longo prazo. Com a atual pandemia pelo novo coronavírus, vivenciam-se emoções negativas, incerteza social e económica, sofrimento físico e stress psicológico. E como iremos lidar com esta pandemia? Utilizando a resposta “fight or flight” ou a “tend and befriend”?

A resposta ao stress “fight or flight” é mais utilizada quando se lida com uma ameaça externa, enquanto que a “tend and befriend” ocorre para suportar os outros à nossa volta. Podemos estimular a resposta “tend and befriend” tentando conectar-nos com os outros, ver a sua perspetiva e tentando entender os seus sentimentos e dificuldades. Assim, apesar do distanciamento social, permanecer “ligado aos outros”, sentindo-se conectado com a família e amigos, mesmo que seja através de meios digitais, melhora a filiação e reduz o efeito negativo do stress. Este “coping comunitário” melhora a consciência social, a capacidade de compreender os outros e de interagir de forma empática.

A investigação tem vindo a demonstrar que desastres naturais, como a atual pandemia pelo novo coronavírus, podem “trazer ao de cima o melhor de cada pessoa”, mostrando que uma situação de crise pode ajudar ao crescimento pessoal. E apesar de não conseguirmos escolher a nossa resposta ao stress, podemos treinar a que melhor se adequa a nós!


Sofia Morais
(Médica, Psiquiatra)

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