A localização dita a gravidade deste tipo de inflamação ocular que se pode assemelhar a uma conjuntivite, mas que tem causas e sintomas mais graves. Este é um daqueles momentos em que as especialidades médicas devem cooperar na busca de uma causa. A uveíte tem esta capacidade de juntar a oftalmologia e a medicina interna na tentativa de eliminar a inflamação, aliviar os sintomas e recuperar a visão

Uveíte é um termo genérico utilizado para designar uma inflamação intraocular, a qual pode ter várias causas, desde a infeciosa às doenças autoimunes, estas sistémicas ou próprias de órgãos, mas que também pode ter uma causa desconhecida, o que se designa por uveíte idiopática.


É verdade que, no início, existem sintomas comuns, por comparação com uma conjuntivite. Contudo as consequências não são de todo idênticas. Na conjuntivite a inflamação está localizada na conjuntiva, a parte externa do olho e são as alergias, agentes tóxicos, bactérias ou vírus que despoletam este tipo de inflamação, que rapidamente é colmatada com medicação adequada. 

No caso da uveíte, o processo é muito diferente. A inflamação está no interior do olho e por isso mesmo se designa intraocular. As causas nem sempre são conhecidas e as consequências podem ser devastadoras, pelo potencial de perda de visão.

É frequente um oftalmologista pedir a colaboração de um internista, no sentido de estudarem, em conjunto, uma possível causa para uma uveíte. Mas este pedido de colaboração não deve acontecer sem serem fornecidas informações sobre o tipo de uveíte em causa: aguda ou crónica, granulomatosa ou não, uni ou bilateral, a resposta prévia à terapêutica e, sobretudo, qual a localização do processo inflamatório intraocular.

A classificação mais importante das uveítes baseia-se na localização do processo inflamatório, isto é, numa classificação anatómica. Quer a clínica, quer a etiologia, quer o tratamento e o prognóstico são completamente diferentes, consoante a localização anatómica do processo inflamatório.

Uveíte anterior


O termo uveíte deriva da palavra “úvea”, que é a camada vascular do globo ocular, apesar de o processo inflamatório não se limitar a esta estrutura, podendo afetar também a retina, os vasos da retina, o nervo ótico e o vítreo, reduzindo a visão ou causando mesmo cegueira. Note-se ainda que este processo pode ocorrer em qualquer idade, mesmo em crianças e a inflamação pode ser aguda (de meses) ou crónica (de anos). Mas também existem crises recorrentes de inflamação ocular, ou seja, acontecem em intervalos irregulares e cada episódio pode deixar sequelas no globo ocular e, consequentemente, na visão.

Como se desenvolve este processo inflamatório intraocular? Existem algumas explicações, mas é necessário ter presente que em 50 % dos casos a causa ainda é desconhecida. Na outra metade dos casos, é possível identificar a resposta inflamatória que acontece no interior ocular, como reação do organismo às lesões dos tecidos. E este potencial agressivo pode acontecer por um ataque do próprio sistema imune (autoimunidade), por infeções dentro do globo ocular ou noutra parte do corpo, traumatismos ou porque algumas toxinas penetraram no globo ocular.

Uveíte posterior


Controlar a doença é uma tarefa que exige parcerias e pode demorar meses ou anos. O prognóstico está sempre muito dependente de um diagnóstico preciso e os fármacos são a única arma contra esta ameaça à perda de visão. Os princípios gerais do tratamento passam por eliminar a inflamação, aliviar os sintomas, recuperar a visão e prevenir futuras crises, quando tal é possível. Contudo, o tratamento a realizar está sempre dependente da causa que está subjacente e ainda do tipo de uveíte (ver caixa).

Os corticosteroides, em gotas ou por via oral, são a base do tratamento standard, a que se podem juntar as injeções intraoculares. Nos casos em que a toma de corticosteroides se prevê ultrapassar os três meses, pode ser equacionada a possibilidade de recorrer a agentes imunomoduladores, sendo sempre necessárias análises clínicas periódicas, para ajudar a excluir eventuais efeitos secundários do tratamento. É ainda de prever os casos  que revelam resistência e, nessas situações, o clínico poderá equacionar os recursos a agentes modificadores da resposta biológica, ou agentes biológicos, fármacos que têm como alvo específico o sistema imunológico.

Catarina Canha
(Médica de Medicina Interna)

Rui Proença
(Médico Oftalmologista)

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