Será inédito e resulta de um protocolo entre Centro Cirúrgico de Coimbra e Universidade de Coimbra. A transferência do saber promete ganhos em saúde e em bem-estar. A investigação da neuroquímica, da genética e da teranóstica passa a estar disponível em sessões individuais de mentoria científica. É o princípio da Medicina Translacional

Não será uma consulta médica. Não há prescrição de análises ou medicamentos. É esta a declaração de princípios. De outra forma não poderia ser. O que agora se propõe e é inédito, são sessões individuais de reflexão científica.

O saber acumulado de Manuela Grazina, investigadora e professora da Universidade de Coimbra, pode agora ser transferido para o comum dos mortais. Seja para aquela pessoa que tem um diagnóstico e quer perceber e participar no processo de tratamento, seja para aqueles que têm doenças multifatoriais e que ainda buscam mais informação. A bioquímica pode ajudar.

“É possível tentar agregar as informações biomoleculares e assim, ajudar a entender os mecanismos de base, de modo a permitir a integração do problema da pessoa”, esclarece Manuela Grazina. A investigadora e docente na Faculdade de Medicina de Coimbra clarifica que a sua intenção passa por recorrer a todo o conhecimento que foi adquirindo pelo estudo contínuo e nas suas investigações, no sentido de apoiar os doentes a terem uma maior literacia científica e em saúde, ajudando também a gerir o seu bem-estar.

“O conhecimento dá liberdade e capacita as pessoas para poderem escolher e decidir. Nós só somos verdadeiramente livres se tivermos conhecimento e isso é importante quando falamos na gestão de uma melhor saúde. Se transmitirmos conhecimento para as pessoas poderem escolher, elas ficam com mais liberdade.

No fundo, é capacitar as pessoas com conhecimento científico de base que as vai ajudar a gerir melhor a sua saúde”, sublinha Manuela Grazina.

Os recentes projetos da medicina de precisão e da teranóstica apontam para esse caminho. “A forma como a individualidade e as diferenças biomoleculares (de cada um) interfere com o funcionamento do organismo são muito importantes”. Já todos sabemos que nem todas as pessoas respondem ao mesmo medicamento e à mesma dose. “Na minha opinião, hoje, o grande desafio da medicina, muitas vezes nem é acertar o diagnóstico – que é difícil por vezes, porque há doenças muito complexas – mas sim a adesão terapêutica, o sucesso do tratamento também passa por aí. E existem pessoas que têm determinadas características ou hábitos de vida, incluindo a alimentação, que podem interferir com a medicação”.

A investigação demonstra isso mesmo. Agora, trata-se de transferir esse conhecimento acumulado e validado para a população em geral, perseguindo sempre o objetivo comum que é a saúde e o bem-estar do doente. A Medicina de Precisão pretende ser assim, translacional. “O conhecimento individual relacionado com o diagnóstico e o risco para uma determinada doença, aumenta a precisão.

Por outro lado, é preciso ter presente que duas pessoas com a mesma doença podem não responder de forma igual à mesma terapia.” Em várias doenças, particularmente em alguns tipos de cancro e de doenças cardiovasculares, já se faz essa diferenciação terapêutica, com aplicação da genética à personalização do tratamento.

Exemplifiquemos com um medicamento comum. “O paracetamol tem um risco de hepatotoxicidade associado, um efeito que deve ser relacionado com um perfil genético, em que se acumula um metabolito, que é altamente tóxico para o fígado e que essas pessoas não têm a capacidade de o metabolizar”. Por outro lado, “outras pessoas metabolizam-no tão rapidamente, que não tem efeito terapêutico significativo e precisam que lhes seja prescrita uma medicação diferente. No fundo, a medicina do futuro liga estas duas vertentes e evolui para a teranóstica, terapêutica e diagnóstico, para ter a vertente da precisão.”

Manuela Grazina sublinha ainda que a própria terapêutica tem duas vertentes, porque quando um medicamento entra no organismo ele tem de ser absorvido, distribuído, metabolizado e eliminado. “O grande foco de todo este processo está na metabolização, que é realizada por unidades chamadas enzimas que, por sua vez, dependem de variantes genéticas que estão inscritas no nosso genoma e influenciam a sua ação; assim, umas são rápidas, outras lentas, outras intermédias na sua atividade. Por outro lado, a afinidade, o “encaixe” que o medicamento tem em relação ao alvo, também não é igual em todas as pessoas”.

No fundo, o avanço científico abre portas a que o futuro inclua a bioquímica, a genética e a neuroquímica na resolução de alguns problemas individuais de saúde de cada um de nós, enquanto seres únicos. Até porque “o funcionamento básico do organismo humano, incluindo o cérebro e a forma como processamos os estímulos que recebemos através dos cinco sentido, depende da individualidade genética e metabólica e, simultaneamente, é influenciado pelos contributos do meio ambiente e hábitos de vida”. Tudo determinante e influenciador de uma boa saúde e bem-estar.

Manuela Grazina não pode, nem quer fazer atividade clínica ou substituir os médicos, mas sabe que o conhecimento que tem pode auxiliar o utente a comunicar de forma mais eficaz com os médicos e otimizar a forma como cada pessoa utiliza as suas capacidades e competências. “O sucesso é sempre para o doente”.

São estes múltiplos saberes que transformam a Medicina numa ciência cada vez mais exata e de incalculável valor para a Humanidade (como um todo) e para cada um de nós, enquanto indivíduos.

Conceição Abreu

Atraída pelas mitocôndrias

Desde a licenciatura em Bioquímica, até ao doutoramento e especializações em Genética Bioquímica, Genética Humana, Neurociências, Bigenómica e Teranóstica (Medicina de Precisão) houve um caminho que Manuela Grazina percorreu em Coimbra, Suécia, França, Reino Unido e Canadá. Mas sempre com o objetivo maior de aplicar as suas competências ao serviço do seu país.

O Laboratório de Biomedicina Mitocondrial e Teranóstica é a sua “joia da coroa”. É ali que aplica e desenvolve toda a investigação, com foco nas avarias da fábrica da energia celular (as mitocôndrias) e teranóstica (uso de informação biomolecular para maior precisão no diagnóstico e na terapêutica).

As doenças raras, as doenças neuropsiquiátricas, a dor e a toxicodependência são áreas de estudo, a par com a química que todos nós podemos produzir para o bem-estar, motivação e felicidade.

Os seus alunos de Medicina dão-lhe sucessivamente o estatuto de “Melhor Docente” de entre toda a comunidade da FMUC e a frase “sejam felizes com o que tiverem à mão” é uma expressão que repete sucessivas vezes.

Hoje e às inúmeras atividades, inerentes à investigação e ao ensino, ainda assume projetos na área da amplificação da literacia em ciência e saúde. É uma comunicadora de ciência, porque a partilha dessa informação acabará por conceder poder e capacitação aos cidadãos. Nos tempos livres ainda faz compota de physalis, bolo-rei, filhós, tapas… “Adoro cozinhar, é uma forma de amar”.

É assim Manuela Grazina, a responsável pelas sessões de mentoria científica que o Centro Cirúrgico passa a acolher às terças-feiras, a partir das 15h00, mediante agendamento prévio.

Protocolo com a Universidade de Coimbra

O potencial da investigação científica – na área da biomedicina – passou a ser reconhecido com superior importância para a atividade assistencial aos doentes e famílias e foi agora objeto de um protocolo entre Centro Cirúrgico de Coimbra e Universidade de Coimbra.

A cooperação envolve a transferência de saberes, em concreto em sessões individuais com a investigadora Manuela Grazina, que assume assim funções de mentora científica, para todos os doentes/utentes que procuram o bem-estar e que queiram compreender a base biomolecular da sua doença e/ou condição.

Cada sessão de mentoria científica é individual e está sujeita à obrigação de confidencialidade, tendo um custo de 123 euros. O Centro Cirúrgico é a entidade responsável por acolher e agendar as referidas sessões, sempre que alguém manifesta esse interesse e intenção.

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