A perícia do cirurgião numa cirurgia da catarata passa por manobrar para lá da córnea, em superfícies finíssimas, elásticas e molhadas, desfazer o cristalino, retirar todos as partículas e colocar em sua substituição uma lente artificial. Um novo laser vem agora dar precisão à cirurgia mais realizada em todo o mundo.

As contas feitas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) dizem que a catarata continua a ser a principal causa de cegueira em todo o mundo. A cirurgia é o único tratamento possível e também por isso a cirurgia da catarata é a cirurgia mais realizada em todo o mundo. A técnica consiste em remover a lente natural (o cristalino) que está opacificada e implantar, em sua substituição, uma lente artificial. A técnica comum designa-se por facoemulsificação e recorre a ultrassons que ajudam a fragmentar e a aspirar o cristalino que opacificou e que, por isso mesmo, perdeu a capacidade de focar corretamente as imagens na retina. Os doentes perdem quantidade e qualidade de visão (ao longe e ao perto).

A intervenção cirúrgica torna-se necessária e tem de ser precisa. Inicia-se com uma incisão de milímetros na córnea, por onde entram os micro instrumentos cirúrgicos necessários à intervenção, bem como a nova lente intraocular que agora se coloca para substituir o cristalino e que também pode ser calculada para corrigir um eventual erro refrativo que exista, como a miopia, o astigmatismo, a hipermetropia ou mesmo a presbiopia.

Um novo equipamento foi agora criado especificamente para reforçar a precisão e a segurança na cirurgia da catarata, recorrendo, em simultâneo, ao laser e à tomografia. Chama-se laser femtosegundo LenSx e chegou recentemente ao Centro Cirúrgico de Coimbra, sendo o único que existe no nosso país. A nova tecnologia foi concebida para traçar o caminho exato que o laser há-de percorrer logo no momento da incisão, a partir de uma imagem gerada em 3D, através de tomografia, sendo também possível, pela primeira vez, quantificar o grau de precisão desta cirurgia, pela monitorização em vídeo de todo o procedimento. Este novo laser atua logo no início da intervenção, criando o corte na cápsula do cristalino, em função do tamanho da pupila, da mesma forma que também está preparado para fragmentar o cristalino em pedaços menores e mais fáceis de remover bem como proceder às diversas incisões na córnea necessárias à aspiração desses fragmentos.

O laser femtosegundo é um equipamento que emite impulsos de energia e há já algum tempo que é utilizado na área da oftalmologia na cirurgia refrativa. Agora, é a adaptação deste mesmo laser à cirurgia de catarata. Os impulsos de energia têm de atuar em tecidos mais profundos e a exatidão do corte conta com o auxílio da tomografia de coerência ótica. Ganha-se imensa precisão técnica, fundamental quando se pretende corrigir astigmatismo ou presbiopia (dificuldade de visão ao perto) com a utilização de lentes intraoculares especiais, que requerem um centramento perfeito.

Visão turva

Designa-se catarata apenas porque a visão fica turva, como se estivéssemos a ver uma imagem através de uma queda de água. Não se trata de uma película que “nasce” no olho, não se contagia o outro olho, nem surge pelo excesso de uso da visão. A catarata é apenas mais uma consequência do envelhecimento, esta é a situação mais comum, mas também pode ser congénita, tal como também existem os chamados fatores de risco que podem acelerar o seu aparecimento. Incluem-se nestes fatores o uso de alguns medicamentos, como os corticosteroides, mas também a nicotina, algumas doenças metabólicas (como a diabetes ou o hipertiroidismo), radiações (raios X e UV), algumas infeções que ocorrem durante a gravidez (rubéola e toxoplasmose), alta miopia e traumatismos oculares.

A boa notícia é que esta é uma situação tratável, não tem de terminar em cegueira irreversível, apesar de as cataratas continuarem a ser a principal causa de cegueira no mundo. O doente começa por perder acuidade visual, a visão fica nublada ou turva (ao perto e ao longe), ganha sensibilidade à luz, pode ter visão dupla e pode registar mudanças frequentes na refração. Estima-se que mais de 50 % da população com mais de 60 anos de idade seja afetada pelas cataratas.

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