Em saúde, entre a desinformação, a informação imprecisa e a má informação, o que sobra nunca é benéfico para o doente. A dúvida é salutar, mas o esclarecimento, além de objetivo, deve estar sustentado pela ciência e não numa mera opinião do “eu acho”. O efeito da mamografia na tiroide é um desses casos em que urge esclarecer e informar.

Este artigo vem no seguimento da minha experiência com as utentes que fazem mamografia no Centro Cirúrgico de Coimbra e surge antes da realização do exame. A questão será transversal a todos os utentes, embora sejam as mulheres as mais “premiadas” com a rotina da mamografia, também alguns homens se vêm obrigados a realizá-la.

Este é um tema que ainda está sujeito a vários mitos e inverdades e se esta é a era da informação, não é menos verdade que também há muita desinformação. Encontro mulheres que “ouviram” ou “leram” algures que a sua saúde pode ser poupada durante a mamografia… que os raios-X da mamografia podem afetar a tiroide… e ainda outras que me avisam logo que têm nódulos e que por isso mesmo será preciso proteger a tiroide quando fazem o exame.

É frequente recebermos utentes que vêm realizar estes exames com dúvidas e informações imprecisas (algumas preocupantes!), que fazem da imagiologia o serviço mais assustador da medicina. Resolvemos colocar a dúvida e apresentar uma resposta com os argumentos validados pela ciência. É para isso que estamos cá, para informar e tranquilizar.

Fazer mamografia com proteção ou não fazer, eis a questão!

A questão é pertinente, tanto mais pelos efeitos que esta questão teve quando, há uns anos, um canal de televisão norte-Americano e um popular clínico (Dr. Oz), lançou esta dúvida para quem faz mamografia regularmente. Foi para esclarecer esta questão e as dúvidas que possam subsistir que foram realizados vários estudos com o objetivo de avaliar a relação entre o aumento da incidência de cancro da tiroide nas mulheres e a realização de exames de mamografia.

As conclusões foram perentórias: de acordo com o American College of Radiology (ACR) e a Society of Breast Imaging, não há uma relação direta entre a radiação recebida pela tiroide em mamografia e eventuais alterações desta glândula. Não só a radiação recebida pela tiroide é inferior a 0,005 mGy, valor que podemos considerar extremamente baixo, uma vez que esta é uma radiação dispersa, ainda mais se comparada com a radiação recebida pela mama, que é de 4 mGy.

A esta certeza junte-se ainda o facto de o próprio exame ficar prejudicado pela eventual utilização de proteção, uma vez que os protetores de tiroide interferem com o posicionamento ideal para o exame, podendo causar artefactos na imagem. Como se costuma dizer, “pior a emenda que o soneto” e, se for necessário repetir o exame, a doente estará sujeita a uma dupla radiação, desnecessariamente.

A mamografia é um exame de diagnóstico de rotina extremamente importante para o despiste precoce do cancro da mama, a ser realizado em mulheres assintomáticas a partir dos 40 anos, de preferência com uma periodicidade anual e sem limite de idade para a sua realização. O objetivo do exame deve ser sempre o de fornecer a melhor imagem, rejeitando redução da qualidade da mamografia que possa afetar de alguma forma o diagnóstico!

É importante informar as mulheres e o público em geral acerca dos exames de diagnóstico, em especial exames que utilizem radiação ionizante e não é demais relembrar que os exames de diagnóstico com recurso a Raios-X são justificados quando o benefício para o utente é maior do que o eventual risco. Neste caso concreto, a nossa resposta é inequívoca. Aconselhamos fazer a mamografia e sem proteção da tiroide.

Teresa Pedro

(técnica de radiologia)

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