Avaliar a função respiratória é fundamental para caracterizar e monitorizar a doença alérgica. Admite-se que o estudo da função ventilatória pode revelar um compromisso funcional muito antes de surgirem os primeiros sintomas de doença, razão porque se deve avaliar os volumes referentes ao fluxo de ar nas vias aéreas, hoje uma prática classificada como essencial e obrigatória.

As doenças alérgicas, à semelhança de outros distúrbios crónicos, têm na atualidade um enorme impacto em todos os países ocidentais. A rinite alérgica constitui uma das formas mais comum de atopia, com uma prevalência crescente ao longo dos últimos anos, tal como acontece para a asma e o eczema atópico.

A demonstração de alergia nestas patologias é muito frequente. Na maioria das situações, os sintomas clínicos têm uma localização inicial à mucosa nasal e ocular (rinoconjuntivite) e vêm a complicar-se com asma brônquica, com claras implicações na qualidade de vida do doente. De facto, o envolvimento de múltiplos órgãos e sistemas após o contacto com o alergénio traduz o conceito sistémico da reação alérgica, nomeadamente da alergia respiratória.

A alergia é, por definição, uma doença inflamatória crónica resultante da exposição do alergénio com estruturas integrantes do sistema imunitário, presentes nas mucosas que representam a interface entre o meio ambiente exterior e o meio interno. Desse contacto resulta, após alguns minutos, o início dos sintomas típicos da mucosa envolvida. Na mucosa nasal os sintomas típicos de rinite são as crises de espirros (ou esturnutos), comichão (ou prurido) corrimento nasal, congestão ou mesmo obstrução, cuja duração e intensidade é muito variável. Na mucosa ocular os sintomas atingem ambas as conjuntivas com vermelhidão, comichão e lacrimejo acompanhando, por regra, os sintomas de rinite mencionados. Já na mucosa brônquica, na maioria dos doentes, a sintomatologia tem uma instalação mais arrastada, sendo a tosse seca irritativa a mais característica, particularmente na criança. A tosse induzida pelo exercício físico ou com agravamento durante a noite é, na maioria das vezes, a primeira manifestação indicativa de asma neste grupo etário. Em situações mais evolutivas, a inflamação crónica dos brônquios vem a associar outros sintomas como a sibilância (pieira ou chiadeira do peito), dificuldade em respirar e aperto torácico.

Naturalmente, a gravidade clínica da alergia respiratória é muito variável, desde as formas ocasionais, intermitentes ou esporádicas, até formas persistentes, sendo que as classificadas de graves são formas muito raras, uma vez que as atuais medidas de tratamento permitem, globalmente, um enorme controlo clínico e funcional.

A inflamação dos brônquios presente na asma determina um aperto do músculo e limitação à passagem do ar, com claras repercussões não só na indução de sintomas como também numa deficiente função ventilatória, com repercussões na oxigenação sanguínea e implicações globais no estado de saúde do doente. É, pois, determinante, uma otimização da função ventilatória para que a limitação ao fluxo de ar seja a menor possível ou se encontre próximo do padrão normal.

A avaliação regular da função respiratória na asma é fundamental para caracterizar e monitorizar a doença. Esta prática, de rotina no âmbito de consultas especializadas foi, recentemente, estabelecida como essencial e obrigatória para todos os tipos de cuidados, independentemente do grau de diferenciação, ao abrigo do programa de Normas de Orientação Clínica da responsabilidade da Direção Geral da Saúde e da Ordem dos Médicos.

Este procedimento de diagnóstico, de certa forma restrito a alguns Centros mais diferenciados, vai necessariamente ter uma aplicação mais alargada, aliás à semelhança de outros exames de prescrição mais comum. A enorme relevância na aferição da permeabilidade da via aérea na asma, alergia respiratória e outras patologias das vias aéreas pode ser comparável ao eletrocardiograma no estudo de doentes cardíacos e na avaliação pré-cirúrgica, ou a ecografia abdominal em doenças do foro digestivo.

Para a realização do exame é requerido equipamento adequado, garantindo o cumprimento das normativas internacionais, executado por um clínico ou por técnico qualificado, sob indicação médica. Trata-se de um procedimento relativamente simples de executar, apesar de exigir colaboração do doente nas diferentes manobras realizadas ao longo do estudo. Genericamente, pretende-se avaliar os volumes referentes ao fluxo de ar das vias aéreas de maior calibre (brônquios principais) e os débitos reportados à via área de menor calibre e dimensão que encaminham o ar até às estruturas mais periféricas onde, por fim, se efetuam as trocas gasosas (oxigénio por dióxido de carbono) entre o pulmão e o sangue.

A análise dos valores obtidos e medidos relativamente às tabelas de valores estandardizadas, estabelecidas internacionalmente, em relação à idade, sexo, peso e altura, permitem aferir qual o grau de integridade, permeabilidade ou obstrução que está presente em cada doente, com enormes implicações na eficácia do controlo clínico e na otimização do tratamento a prescrever.

Apenas esta metodologia permite, com precisão, determinar o padrão da função respiratória/ventilatória, uma vez que muitos doentes com formas clínicas de longa evolução, aparentemente sem sintomas, apresentam compromissos muito significativos. Nestes, a perda da perceção efetiva dos sintomas, a limitação auto imposta à própria atividade física, para patamares menos exigentes, ou a distância no tempo a estadios de respiração normal em período de saúde, são alguns dos fatores mais implicados. A persistência de alterações a este nível têm inevitáveis consequências no plano clínico e da própria doença, podendo determinar consequências estruturais irreversíveis que urge limitar e tratar.

Na alergia respiratória, a rinite ou rinoconjuntivite são, como anteriormente referido, as manifestações clínicas mais frequentes, com maior implicação na qualidade de vida do que a própria gravidade efetiva da doença. Porém, a sua evolução e/ou associação com a asma é extremamente frequente, pelo que o estudo da função ventilatória nestes doentes pode precocemente revelar compromisso funcional, muito antes do estabelecimento clínico dos sintomas de asma, permitindo que um plano de tratamento adequado possa minimizar esse risco.

Celso Pereira (médico, Imunoalergologista)

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