São quase sempre evitáveis. Acontecem por acidente e podem mudar toda a história de uma vida. Os traumas continuam a ser uma das principais causas da cegueira. As esquinas das mesas, o vidro que salta, a bola que se projeta, a agulha que não se viu, o murro que fez o olho negro ou a rolha que salta podem levar-nos a entrar num jogo de “cabra-cega”. O destino fica marcado nas horas que se seguem

Saiu de casa disposto a enfrentar o trânsito habitual. Ligou a ignição, cumprimentou o vizinho e fez-se à estrada. Aproveitou a viagem para alinhavar ideias e traçar o plano para esse dia. Não estava previsto que o dia iria terminar numa sala de um bloco operatório. O imprevisto desafiou a história de vida de A. quando um choque de retrovisores fez saltar um pedaço do espelho para dentro do seu olho. Valeu-lhe a decisão certa tomada a tempo e horas.

O inusitado também marcou um dia da vida de F., no momento em que se vestia e quando sacudiu o casaco do fato de treino. Um gesto repetido vezes sem conta. Naquele dia, o puxador do fecho éclair soltou-se e projetou-se num olho. A perícia evitou um resto de vida com visão monocular.

Há casos que não se repetem, pela raridade. Nada fazia prever os episódios de A. e de F.. Há outros que se podem prever. Porque na traumatologia ocular, em cada 100 casos, 98 são previsíveis.

Os acidentes de viação, de caça, as rixas, as quedas, as esquinas (de mesas, portas e puxadores), algumas atividades desportivas sem proteção, mas também os acidentes de trabalho por ausência de proteção e os acidentes domésticos (que tantos danos causam), ou o mau manuseamento de produtos de limpeza, inseticidas e de produtos inflamáveis são algumas das causas de trauma ocular, uma situação que nem sempre é valorizada no momento certo.

A atuação, a qualidade e a experiência do desempenho e o tempo que medeia entre o trauma e o procedimento necessário ditam, quase sempre, os episódios que se seguem e qual o final de uma história que, não tem, necessariamente, de terminar em cegueira. Em Portugal ainda não nos habituámos a fazer conta aos casos de cegueira provocados por traumas e acidentes. Os norte-americanos fizeram essas contas e concluíram que o trauma ocular é a segunda causa de cegueira naquele país.


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Visão monocular

Apenas um olho tem a capacidade de visão. Terá dificuldade em avaliar distâncias (profundidade) e nunca poderá perceber os comentários que os amigos fazem a um filme em 3D. Para perceber e visualizar os efeitos das três dimensões é necessário ter visão binocular (a capacidade de ver bem e em simultâneo – com os dois olhos).

Sol que cega

Que a Nazaré tem as maiores ondas do mundo já quase todos sabemos, mas que o sol pode “cegar”, mesmo que temporariamente, ainda nem todos sabem. Foi preciso viajar até à Nazaré para Anderson Cooper, um jornalista da cadeia de televisão da CNN perceber que o sol também pode cegar. Cooper esteve duas horas no mar e admitiu que não sabia que a exposição solar podia provocar uma lesão na retina. Acabou por sentir os efeitos. Esteve 36 horas temporariamente “cego”.

Buraco macular traumático

Resulta de um traumatismo com impacto. A onda de choque do embate atinge a mácula, a pequena área na parte posterior do olho que é responsável pela visão central e que nos permite ver com nitidez. A cirurgia pode ser uma solução. Exige-se experiência.

Descolamento de retina

É uma situação tipicamente complexa. Pode surgir após um traumatismo ocular, num espaço de horas ou de anos. Ninguém pode antever o quando, onde e como. Há vários tipos de rasgadura, de localização, de tração. A solução exige grande especialização, do cirurgião e dos equipamentos de auxílio ao diagnóstico.

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