O truque está na capacidade de transformar a luz num sinal neurológico. Ver é muito mais do que abrir os olhos

Habituámo-nos a olhar apenas para a cor dos olhos, pelas diferentes combinações de pigmentação que a íris assume. Teceram-se mitos, predicados e os poetas dedicaram-lhe canções. Todos percebiam que o mundo entrava por ali, mas desconhecia-se até onde chegavam as imagens que os olhos viam.

Afinal a íris é tão só um diagrama que, juntamente com a pupila, controlam a quantidade de luz que entrará por esse buraco negro, a que vulgarmente se chama menina do olho. A pupila acaba por ser a menina ginasta que, constantemente, ora contrai, ora relaxa. Quando há muita luz a pupila fecha e nos locais escuros dilata. Mas essa bolinha preta é, na verdade, um buraco.

É pela pupila que entram os feixes de luz que usamos nos exames de diagnóstico e esta é também a porta que o oftalmologista usa para visualizar o interior do olho e, se necessário, corrigir cirurgicamente alguma alteração no interior do olho. 

Imediatamente atrás da pupila localiza-se o cristalino, a lente natural que nos permite diferentes focagens instantaneamente. A elasticidade é uma das suas características e a sua missão principal é fazer com que os raios de luz vindos do exterior sejam focados na retina (invertidos). E é aí que acontece a chamada transdução, ou seja, a transformação de sinais de luz em sinais elétricos e estes em impulsos neurológicos, que seguem pelo nervo ótico para o cérebro. Ou seja, dizer que são os olhos que veem é um pouco redutor. O verdadeiro protagonista é o cérebro, até porque se algo interromper esta transmissão de sinais que chega ao cérebro resta apenas a escuridão, mesmo que todas as outras estruturas do olho estejam boas.

A visão humana tem esta capacidade de fazer a transdução da luz em sinal neurológico e por isso vemos. O olho humano foi para lá da perfeição e tem características ímpares. Ver é uma resposta natural que o cérebro produz, sempre que a parceria entre sinais luminosos e elétricos é perfeita. Na ausência de luz o cérebro não vê, é a luz que produz o estímulo necessário à visão.

Mas não acredite em tudo o que vê, porque a visão também é ilusão, neste caso, por culpa da disparidade retiniana. Apenas a fóvea, que tem micras de diâmetro e está localizada na mácula (retina) tem a capacidade de captar imagens com clareza e precisão. Acabamos por ver e perceber detalhes, tudo o resto é criado pelo cérebro. Mesmo assim, o detalhe que captamos resulta de uma soma de imagens que os olhos vão captando, saltando de movimento em movimento, uma ação que é necessária para preencher a imagem, mas que nos deixa cegos durante 0,03 segundos, ou seja, o espaço temporal em que – sem darmos conta – não recebemos informação visual. O cérebro não deixa estes espaços em branco e preenche esses momentos com imagens criadas por ele.

Na prática, nunca perdemos a sensação de movimento contínuo e de visão. E a visão que obtemos será sempre em 3D, a visão binocular e isso resulta da junção de duas imagens, as mesmas que são captadas pelos nossos olhos, mas que acabam por se juntar numa só.

O cérebro também tem as suas preferências e, mesmo quando são os dois olhos a captar e enviar imagens, um deles acaba por ser o preferido, é assim que se constrói o olho dominante. Basicamente, esse é o olho que o cérebro mais utiliza para receber a informação visual e para criar/reconstruir imagens. Todos nós temos um. É um pouco semelhante com a opção que fazemos em criança de escrever com a mão direita ou esquerda. Como é feita essa escolha ainda não se sabe, mas nos olhos acontece exatamente o mesmo que na escrita. 

Existem vários testes que ajudam a descobrir, trazemos um. Faça um triângulo com as mãos e estique os braços. Com os dois olhos abertos, focalize um objeto ao longe no centro desse triângulo. Alternadamente, feche e abra um e outro olho. O olho dominante será aquele que está alinhado com o objeto. No outro olho, o objeto estará deslocado e pode nem aparecer.

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