A ferramenta é poderosa e tanto pode ser negligenciada como utilizada em excesso. A evidência já provou que os rastreios podem mudar o rumo das doenças, seja porque a evolução fica condicionada, seja porque a procura e o tratamento coexistem no mesmo ato, como acontece com o cancro cólon-retal. A procura de evidências ou sinais começa à nascença e o percurso não tem um prazo de validade

Evitar que a doença se manifeste, é este o objetivo dos rastreios. Se direcionarmos a atenção para a prevenção e não apenas para a cura, é mais fácil perceber como os rastreios são tão importantes. 

A pessoa está com saúde e assintomática, mas mesmo assim, em algum momento da vida é importante investigar se há ou não presença de doença. Os hipocondríacos adoram-nos, mas a restante população nem sempre adere aos rastreios, desvalorizando a importância de controlo da própria saúde. Por outro lado, os rastreios de base populacional promovem a equidade, mas só têm verdadeira eficácia quando aplicado em grupos etários em que existe uma alta prevalência da doença. A sua aplicação depende de uma relação custo/benefício, mas também da avaliação do risco. A exposição genética é determinante, tal como a idade e o estilo de vida, ambos indicadores a valorizar.

A ferramenta é poderosa e contribui para uma mudança na definição de Medicina que, para além da ajuda no processo de cura, acrescenta o ingrediente prevenção.

A missão é a mesma: continuar a procurar a doença, mas numa fase ainda muito precoce e em que existe a possibilidade de tratamento em tempo útil. E é aqui que, não raras vezes, o sistema falha, pois se o rastreio previne e deteta, a cura tem de chegar em tempo útil, para que o tratamento certo surja no tempo adequado, mudando efetivamente o prognóstico. Se tal não acontecer, o efeito do rastreio e do investimento que se faz perde-se e dilui-se na descrença.

E que rastreios existem? A evidência científica já demonstrou a utilidade de prevenir pelo menos 3 tipos de cancro: colo do útero; da mama e o cólon retal. À espera de consenso ainda fica o cancro da próstata, uma vez que ainda não existe unanimidade sobre o uso do teste do PSA para aferir melhoria na morbilidade e mortalidade. 

Mas, quando se procura a doença também poderemos ser “enganados” e devemos ter presente que os falsos positivos continuam a existir, justificando posteriormente a realização de exames mais invasivos, que possam ou não provar a existência de doença, tal como também pode existir o erro. Seja pela interpretação do exame, seja pelo pouco cuidado na preparação para o exame, como pode acontecer – por exemplo – numa má preparação para uma colonoscopia.

A evolução da doença pode ficar assim condicionada e, no caso do rastreio do cancro cólon-retal ainda se vai mais longe. A colonoscopia permite detetar a presença dos chamados pólipos e, simultaneamente, permite remover as lesões que, mais tarde ou mais cedo, poderão progredir para cancro. Ou seja o potencial de prevenir uma doença fatal é enorme.

Junte-se ainda as certezas que os estudos de genética trouxeram e que já levaram algumas mulheres a realizar, por exemplo, uma mastectomia preventiva. Angelina Jolie foi o caso mais mediático, mas houve outras. O histórico familiar e a alteração do gene BRCA1 faziam prever que as probabilidades de desenvolver um cancro justificavam este caminho preventivo.

Para lá do cancro, há outros rastreios, como o da retinopatia diabética ou os inúmeros testes (VIH/SIDA, hepatite, por exemplo), análises clínicas e imagens radiológicas que podem ajudar a prever várias doenças, porque podem relevar os chamados “achados”, identificar o risco ou mesmo a doença. Exige-se recursos e investimento, é certo, e por isso impõe-se o equilíbrio, evitando-se o que pode ser excessivo ou um empenho apenas em função de eventuais compensações financeiras que podem advir para o serviço, pelas taxas de participação num rastreio de determinada população. Afinal, os médicos atuam pelo melhor interesse dos seus doentes e não com vista à obtenção de resultados.

Hoje, o caminho da Medicina Preventiva pode ajudar a rastrear doenças cardiovasculares; comportamento da glicémia e dislipidemia; osteoporose; cancro do pulmão; glaucoma; degenerescência macular da idade e…. Muitos outros. Aliás, esta possibilidade de se pesquisar sinais começa a ser feita logo à nascença, quando submetemos os recém-nascidos ao teste do pezinho e a prática dos rastreios não tem um prazo de validade. Isto porque, mesmo depois dos 65 anos de idade, há rastreios que ainda importa fazer, o exame visual e dermatológico, são um exemplo, tal como a examinação da mama ou a rotina de análises clínicas e vigilância cardiovascular.

Deixar um Comentário