Do encontro dos gâmetas de uma mãe e de um pai, surge um novo ser: essa célula inicial de que todas as outras serão réplicas – com o mesmo código genético

Em quarenta semanas esta célula iniciará um percurso de transformação semelhante ao processo que durou milhões de anos de evolução da vida na Terra, desde o ser mais simples (unicelular) até ao mais complexo – o ser humano.

Há mais de 500 milhões de anos apareciam os primeiros seres unicelulares na superfície terrestre, primordiais lampejos de vida que imediatamente começaram a cumprir o seu destino: inverter a entropia e o caos, e promover a organização e a auto preservação! E estas unidades de vida foram se tornando cada vez mais complexas – todas partilhando um código de síntese muito semelhante, foram se adaptando ao meio e adquirindo tamanhos e capacidades de acordo com uma evolução que progrediu do meio salino aquático, até à autonomia terrestre.

Também aquele pequeno ser unicelular gerado ainda na trompa do útero materno, irá percorrer uma aventura de evolução que o tornará num ser complexo. Vai-se multiplicando e diferenciando num processo de metamorfose acelerado, que ao longo do tempo vai construindo uma organização complexa que acaba por se tornar autónoma, quer na sua organização interna quer na sua relação com o meio.

E todas as células deste organismo têm o mesmo código genético.

E neste processo evolutivo que se desenrola em 40 semanas, há células (cada uma um ser vivo autónomo) que se especializam em funções específicas, outras multiplicam-se a diferentes velocidades, seguindo os grandes passos da evolução da vida no planeta: vivendo em meio liquido durante toda a gestação e apenas adquirindo a capacidade de trocas gasosas – passagem para o meio aéreo – no preciso instante do seu nascimento (mais um salto evolutivo gigantesco vencido em segundos)!

Mas mesmo para além do nascimento, a criança continua a evoluir e a adquirir capacidades e competências: agora passa a ser o meio ambiente, o protagonista da formatação – ainda largamente influenciado pelo código genético, mas determinante nas opções biológicas, físicas e psicológicas – do futuro ser.

O desenvolvimento humano emerge a partir da interação entre fatores biológicos e ambientais. Assim, se o crescimento inclui aspetos biológicos quantitativos (dimensionais), relacionados com a hipertrofia e a hiperplasia celular, a maturação pode ser definida como um fenômeno biológico qualitativo, relacionando-se com o amadurecimento das funções de diferentes órgãos e sistemas.

É deste contexto, desta longa caminhada filogenética de milhões de anos, resumida a menos de um ano de gestação, mas com as suas raízes profundas mergulhadas na árvore da vida, que se desenvolve uma criança: uma criatura pequena e frágil – mas tão cheia de vitalidade!

E cada criança é única!

Cada uma encerra em si, nos milhões de pequenas vidas que a constroem, um manancial tão vasto de saber inato e ancestral, que aquelas que nascem com características diferentes das normalizadas possuem potencialidades que, na sua grande maioria, são insuspeitas para a comunidade onde vivem.

Mas também para os profissionais e equipas dedicadas à integração destas crianças, é um desafio admirável ponderar numa dimensão que vai muito para além do conceito clássico de “reparação de uma ou várias funções fisiológicas” anormais. Há que aprender e entender, e acima de tudo: respeitar, as especificidades daquela criança. Porque se trata duma comunidade constituída por milhões de seres vivos, todos freneticamente a cumprir as leis da vida. À sua maneira!

Hoje, com a biotecnologia temos possibilidade de introduzir naquele universo de células – todas clones – microinstrumentos externos (chips) que com elas interagem. Como é que se fará esta ligação/comunicação? Trata-se de um vasto campo de investigação…
Como comunicar com os milhões de células desse organismo complexo que é um ser humano, todas com múltiplas ligações, com capacidades espantosas de adaptação, herdeiras de milhões de anos de aperfeiçoamento e de resposta aos diversos estímulos internos e externos!?
Um programa de “reabilitação funcional” numa criança com características físicas ou mentais diferentes da “normalidade” é, antes de mais, um processo de aprendizagem e de respeito pela Natureza.
Nestes casos, tantas vezes o papel se inverte e são os supostos pacientes que nos dão verdadeiras lições de vida!

Luís Silva

(médico otorrinolaringologista)

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