Pode estar presente no chouriço ou na carne seca degradada e chegou a ser estudada para uma utilização como arma química. A Medicina viu-lhe outro potencial e, apesar de ser conhecida pela finalidade estética, foi um oftalmologista que lhe deu a primeira aplicação prática. Confuso? Nem por isso. Os estrábicos agradecem esta alternativa terapêutica

A toxina botulínica é hoje um medicamento largamente difundido e reconhecido pelas suas aplicações em medicina estética da face. Mas poucos saberão dizer que as suas primeiras utilizações clínicas foram introduzidas por um oftalmologista.

Efetivamente, foi o Dr. Alan Scott que, no início da década de 80 do século passado, se interessou pela aplicabilidade clínica desta neurotoxina, capaz de obter uma paralisia flácida e transitória dos músculos. Concretamente, em casos de estrabismo.

O Clostridium botulinum foi identificado pela primeira vez no final do século XIX, na Bélgica, após casos de intoxicações alimentares fatais pelo consumo de presunto. O seu nome deriva do latim botulus que significa chouriço, pelo facto de a referida bactéria poder estar presente em enchidos e carnes secas degradados.

Nos anos seguintes, a neurotoxina que a dita bactéria produz foi estudada, conhecendo-se 7 serotipos (de A a G), tendo sido particularmente alvo de atenção a sua possível utilização como arma química durante as primeiras décadas do século XX.

No final da década de 1970, tiveram lugar as primeiras utilizações em humanos e em 1980 foram publicados os resultados da sua utilização em casos de estrabismo. Seguiram-se anos de utilização intensiva por parte dos oftalmologistas, em casos de blefarospasmo essencial (fasciculações e contrações involuntárias anormais dos músculos faciais em redor dos olhos), espasmo hemifacial e distonias cervicofaciais, patologias muito desconfortáveis e frequentemente incapacitantes para o doente.

Hoje em dia, embora controversa, a toxina botulínica é também reconhecida como uma excelente arma terapêutica em casos de estrabismos de aparecimento precoce, pequenos desalinhamentos residuais ou consecutivos e casos de estrabismos por paralisia da musculatura oculomotora.

A sua utilização com finalidade estética foi amplamente divulgada com a fórmula Botox® (serotipo A) que permite obter resultados rejuvenescedores com uma técnica segura, eficaz e pouco invasiva. Claro que os efeitos não são para todo o sempre. Com o tempo, a substância degrada-se e a sua durabilidade está sempre dependente do metabolismo de cada um e da quantidade aplicada.

Uma nota que é importante sublinhar prende-se com o modo de utilização da toxina botulínica. Deveremos sublinhar que a sua aplicação é terapêutica e, como tal, pressupõe um ato médico. Tem indicações bem precisas, complicações possíveis e resultados geralmente previsíveis. E tudo isso deve ser avaliado, ponderado, bem explicado e discutido individualmente com cada potencial paciente. Conseguir esta ponderação e pensar no bem-estar final do doente é também uma arte; como tudo na Medicina.

Rui Tavares

(médico oftalmologista)

 

 

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