Não são apenas os dentes que necessitam de cuidados, as bochechas, língua e gengivas não devem escapar à vigilância de rotina. É aí que se instala uma doença inflamatória que tem potencial para se transformar em maligna. Líquen plano oral, já ouviu falar?

Merece a atenção de todos nós. Chama-se líquen plano oral e é uma doença inflamatória crónica, relativamente comum, com igual prevalência em ambos os sexos, mas mais predominante na meia-idade.

As lesões mais características são brancas, bilaterais e com um reticulado característico, em folha de figueira, conhecido como Estrias de Wickham (imagem 1). No entanto existem outras formas de apresentação, sendo talvez a mais importante a do tipo erosivo ou ulcerativo (imagem 2). Este tipo, como o nome indica, está associado a úlceras na mucosa da boca, e necessita de uma abordagem mais cuidadosa, pela maior possibilidade de transformação maligna (neoplásica).

As formas erosivas ou ulcerativas estão também mais frequentemente associadas a dor. As outras formas, mais indolentes, são muitas vezes, achados clínicos ocasionais na observação da boca por queixas não relacionadas ou durante um check-up dentário. Mas, note bem, em nenhum dos casos existe qualquer perigo de contágio, não existindo por isso qualquer risco de transmissão pela troca de beijos ou partilha de talheres.

As lesões orais também podem coexistir, em simultâneo, com outras lesões na pele do corpo, aliás é isso mesmo que acontece em cerca de 20 a 60% dos doentes com líquen plano oral. Mas, enquanto as manifestações orais são relativamente persistentes, uma vez que esta é uma doença crónica, as lesões cutâneas tendem a desaparecer em cerca de 1 a 2 anos.

Quando falamos de líquen plano temos ainda de falar das chamadas reações liquenóides, uma vez que têm a mesma apresentação que o líquen plano, sendo clinicamente indistinguíveis. No entanto, as reações liquenóides são causadas por fatores externos ao doente, como por exemplo medicação, enquanto o líquen plano é provavelmente provocado por uma alteração autoimune.

Muitos dos medicamentos que desencadeiam as reações liquenóides são de uso muito comum, como é o caso de alguns fármacos para a hipertensão arterial ou anti-inflamatórios. A maior parte das vezes, o diagnóstico entre as duas situações é difícil, por isso recomenda-se, sempre que possível, suspender o medicamento suspeito, para ajudar a diferenciar a situação.

Na presença de líquen plano oral deve ser sempre feita uma biópsia, para confirmar o diagnóstico e para despistar algumas doenças mais graves. Na maioria dos casos, o tratamento é simples, e é possível o controlo da doença com a administração de medicação tópica no local das lesões. Noutros casos, em que a doença toma uma forma mais agressiva, pode ser necessário administrar medicação oral.

Uma boa higiene oral e check-ups frequentes com profissionais de saúde habilitados são fatores importantes na deteção precoce de líquen plano e outras patologias orais.

João Pedro Marcelino
(Médico, Cirurgião Maxilo-Facial)

 

 

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