Toca a intimidade individual e por isso mesmo é um assunto tabu. Aceita-se a fuga para o isolamento e assume-se que este é um destino herdado pelas mulheres da família. Ignoram-se as soluções e desconhece-se que em 90% dos casos a perda de controlo de urina tem solução, cirúrgica ou não

Depois dos 40 anos de idade, uma em cada 5 mulheres sabe do que aqui se fala e, destas, apenas 10% confessam a um médico o problema que as atormenta. A incapacidade em armazenar e controlar a saída da urina, designada por incontinência urinária, é um problema maioritariamente “delas”, mas não é exclusivo.

A prevalência desta patologia na mulher justifica-se pelas características anatómicas, hormonais, alterações decorrentes da gravidez, parto e cirurgias ginecológicas, enquanto que nos homens, este sintoma está quase sempre associado a alterações prostáticas e a sequelas de cirurgias pélvicas. Depois dos 40 anos de idade, as proporções são da ordem dos 33% para as mulheres e 16% para os homens. Ou seja, não estamos a falar de uma pequena fatia da população, até porque este é um sintoma que tende a revelar uma maior incidência à medida que a idade aumenta, encarando-se a situação como mais uma fatalidade do envelhecimento.

Além dos impactos sociais e económicos, devem ser sublinhadas as implicações que a incontinência urinária acaba por ter na qualidade de vida da pessoa. O isolamento é o passo que se segue, em resposta ao medo e à vergonha e, no caso das mulheres, ainda existe o tabu de que este é um problema herdado de todas as mulheres da família. As mães e as avós vivenciaram isso mesmo e admite-se que há uma sina que não podem evitar. Não é verdade. Há tratamentos, uns mais simples que outros.

Primeiro é preciso admitir o problema, procurar ajuda médica, seja junto do médico de família, seja recorrendo a um urologista. Segue-se o diagnóstico, que normalmente é muito simples, podendo ser feito logo na primeira consulta, com base na história clínica e no exame objetivo. Depois, o tratamento, individualizado e de acordo com o tipo de incontinência urinária.

Apesar de os sintomas terem algumas semelhanças, há vários tipos de incontinência urinária. Existe a incontinência de esforço traduzida por perdas com tosse, riso e/ou esforços físicos, sendo esta a mais frequente, que pode estar associada no sexo feminino à hipermobilidade da uretra, decorrente do enfraquecimento da musculatura pélvica, e no sexo masculino, a sequelas de cirurgias pélvicas.

Para este tipo de incontinência, o tratamento inicial é conservador, baseado na melhoria dos estilos de vida (perda de peso e cessação tabágica) e fisioterapia dos músculos pélvicos. Porém, quando existe falência do tratamento inicial, está recomendado o tratamento cirúrgico, normalmente simples, em regime de ambulatório e com elevada taxa de sucesso (>90%).

Outro tipo de incontinência urinária é a de urgência ou imperiosidade, caracterizada por perdas urinárias precedidas de uma urgência miccional (sem tempo para chegar a uma casa de banho), causando uma grande perturbação na qualidade de vida, pois pode ocorrer em qualquer lugar e sem aviso prévio.

Para iniciar o tratamento é necessário excluir outras patologias que podem causar sintomas semelhantes nomeadamente, infeções urinárias, litíase urinária e neoplasia da bexiga. O tratamento inicial é conservador, com reeducação vesical e alteração dos estilos de vida. Todavia, quando existe falência, está recomendado o tratamento farmacológico, com medicamentos orais que vão inibir as contrações da bexiga (relaxamento), com diminuição dos episódios. Nos casos onde existe a falência da medicação oral, pode ser administrada toxina Botulínica diretamente no músculo da bexiga ou neuromodelação.

Quando no mesmo doente está associada a incontinência urinária de urgência e a de esforço trata-se de uma incontinência urinária mista, sendo o seu tratamento inicial orientado para o tipo de incontinência que mais afete a qualidade de vida e, posteriormente, é tratado o segundo componente.

Um outro tipo de incontinência urinária frequente nos idosos é a transitória, uma situação que ocorre devido à presença de um fator precipitante (infeção urinária, fecaloma, restrição da mobilidade, fármacos…), normalmente autolimitada e resolvida após a correção da patologia que desencadeou a situação.

Quando a situação de incontinência urinária é mais complexa, como por exemplo a de regurgitação e contínua, o paciente deve ser necessariamente orientado por um Urologista.

Em síntese, a incontinência urinária não deve ser ignorada nem considerada como uma evolução natural do envelhecimento, nem como uma herança de mulheres de família. Hoje, existem múltiplos tratamentos eficazes e seguros para as diversas formas de incontinência urinária e que resultam numa melhoria significativa das queixas e da qualidade de vida.

 

Silvio Bollini

(Médico, Urologista)

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