São infeções respiratórias altamente contagiosas e alguns sintomas são mesmo semelhantes. O que as distingue? A intensidade, a duração e as complicações, mas também o vírus que as desencadeia

Até fevereiro de 2019 é isso mesmo que se espera, que uma parte da população portuguesa seja afetada por gripe ou tão só por uma constipação. E esta não é uma adivinhação, é mesmo uma certeza. Os vírus que afetam as vias respiratórias coabitam facilmente com o Inverno e a própria estação do ano inibe-nos de sair para o ar livre. A concentração de pessoas em espaços fechados e a propagação de vírus são misturas típicas do inverno. A probabilidade de contágio é elevada, quer para a gripe, quer para a constipação.

Tosse e espirros são apenas alguns sinais premonitórios. Passamos ao lado, fazemos figas e tentamos alguns ziguezagues para fugir às partículas de saliva infetada que são claramente expelidas pelo “outro”. Resulta? Quase nunca. Mas é assim que começa a dispersão do vírus e, neste caso, ainda nem sabemos se o vírus é o influenza (A, B ou C) – que causa a gripe – ou se é um vírus rinovírus – o que provoca a constipação. Sim, é verdade, em ambos os casos há sempre um vírus. E se estivermos atentos a apenas alguns sintomas, diríamos que ambos os casos são iguais. Não é verdade. Parecem, mas não são.

Gripe e constipação são diferentes na intensidade e na duração da doença e, principalmente, nas complicações que daí advém. Por isso se insistimos tanto na prevenção, porque as complicações podem ser fatais para os chamados grupos de risco, como as pessoas com mais de 65 anos de idade, doentes crónicos e imunodeprimidos.

As gotículas com os vírus da gripe e da constipação são libertadas quando uma pessoa já contagiada, fala, respira ou tosse e a contaminação dá-se pelo ar ou pelo toque em objetos já infetados. Razão porque a responsabilidade de quem já está infetado é tamanha, pela forma como partilha os sintomas. O isolamento seria a forma ideal de reduzir o impacto e a propagação destas doenças altamente contagiosas, mas a benignidade aparente acaba por aligeirar os procedimentos e, não raras vezes, percebemos que acabou de passar por nós alguém que tossiu para o lado, é verdade, mas bem em cima de nós, tão só porque estávamos no local errado e à hora errada. A prevenção também começa assim, na forma como os outros, encaram a propagação da doença que o afeta.

Apesar de tomarmos todas as precauções, nem sempre conseguimos escapar às doenças da época e, se pudermos escolher entre gripe ou constipação, então que seja uma constipação. Nem sempre provoca febre e a dor no corpo é ligeira, mas não nos livramos dos espirros, garganta inflamada, nariz entupido ou de alguma tosse seca. Certo mesmo é que os sintomas aliviam em poucos dias. A cura é espontânea. Basta algum repouso, beber mais água do que o habitual, evitar o fumo, aliviar a obstrução nasal com soro fisiológico e recorrer ao paracetamol para contornar eventuais dores ou febre.

Normalmente, os sintomas da constipação reduzem o impacto e diminuem ao fim de três, quatro dias. Quando o vírus é influenza e por isso mesmo uma gripe, os sintomas são abruptos e, 48 horas depois do contágio, a febre pode ser elevada, a dor de cabeça pode ser forte e a fadiga, exaustão e dor no corpo podem ser intensos e com uma duração de até duas semanas. O nariz nem sempre fica entupido, tal como nem sempre há espirros, mas a tosse é frequente, bem como a sensação de peso no peito. Nos casos de síndrome gripal a situação pode durar uma a duas semanas e, se os sintomas se agravarem, é necessário estar atento para algumas das complicações da doença, como bronquite ou pneumonia.

Num e noutro caso, nunca é recomendado recorrer a medicamentos como o ácido acetilsalicílico ou antibióticos e isto tanto é verdade para a constipação, como para o síndrome gripal. Como se depreende os antibióticos não são eficazes numa infeção viral, contudo, se surgir uma infeção bacteriana, secundária ao estado de gripe, o seu médico pode prescrever a toma de antibiótico.

Paulo Queiroz

(Médico, Clínico Geral)

 

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