Desagradável e temida, real ou virtual, a dor pede sempre um bálsamo milagroso. Não importa como, o objetivo passa a ser apenas um: dominar a dor. O médico tem a palavra

A dor é um tema bem presente e que marca presença no dia-a-dia de quem está do outro lado da secretária de um consultório, porque o médico será sempre aquela boia de salvação do afogamento iminente.

Desengane-se quem pensa que falar da “dor do outro” é um tema simples, como à primeira vista pode parecer. Quem o fizer, terá de se sujeitar, inevitavelmente, à controvérsia quanto à forma como é apresentada ou referida a queixa ou tão só, como é que o outro avalia essa mesma dor.

Por definição, a dor é uma experiência biologicamente necessária (que ninguém quer vivenciar, é certo), mas também um alerta absolutamente necessário. É uma experiência sensorial, emocional e cognitiva desagradável e está relacionada com uma lesão tecidular real ou potencial, ou descrita como tal. Na maioria das vezes é essa mesma dor que justifica o frente a frente com um médico e esse será o único sintoma sinalizado, porque é tão só a dor que o doente diz sentir.

 

Como experiência desagradável que é, por definição, a dor acaba por ser temida e, muitas vezes até antecipada. E, por isso mesmo, além da dimensão física, há uma dimensão psicológica que não deve ser menosprezada.

De uma forma mais simples, a dor pode ser definida de duas formas:

Dor Aguda— sintoma essencial para a nossa sobrevivência, que faz a deteção fisiológica da agressão e geralmente de curta duração. Será assim um alerta de que algo não está bem.

Dor Crónica— traduz características de uma doença persistente (duração superior a 3 meses), de intensidade flutuante, incómoda, que leva ao sofrimento e alterações comportamentais mais ou menos marcadas.

 

Será ainda importante acrescentar que o impacto destes dois tipos de dor no quotidiano também é distinto, estando igualmente dependente da forma como o doente conceptualiza a sua situação de doença e como se revê no seu próprio papel.

Muitas pessoas com dor conseguem lidar de forma otimista com a sua condição e minimizar os efeitos nocivos decorrentes da mesma, outras porém e, sobretudo em situação de dor crónica, desenvolvem um conjunto de características comportamentais e psicológicas que permitem perceber já uma exacerbação do quadro álgico para além dos aspetos meramente físicos da dor, entre os quais a debilidade física considerável, decorrente da inatividade e da perda de interesse em atividades do quotidiano; desenvolvimento de quadro depressivo associado a vários sintomas disfuncionais (perturbações do sono, alimentação, utilização inadequada de sintomas com o objetivo de obter alguns ganhos pessoais, consumo exagerado de medicação usada no próprio controle da dor, ansiedade e depressão.

Os médicos devem tentar mensurar essa mesma dor, usando escalas ou o exemplo de outros doentes mas, não raras vezes, o doente também tentou o mesmo e começou o “tratamento” dessa mesma dor com analgésicos e de forma aleatória. Escondeu e esqueceu outros sintomas e, por vezes, perdeu a hipótese de chegar mais rapidamente à causa da dor.

Não raras vezes, os analgésicos já não são suficientes e aumenta-se a sua complexidade, enveredando por substâncias mais poderosas. Não importam os efeitos, seja no cérebro, seja no diagnóstico da dor. O objetivo passa tão só por dominar o sofrimento, a dor. Tão só, porque a definição de felicidade e/ou prazer também passa por isso mesmo, pela ausência de dor. A importância que o ato médico possa ter começa, precisamente, por aí, pelo controle dessa mesma dor. Estamos cientes disso.

 

Não cometendo a ousadia de fazer qualquer tipo de comentário sobre a complexidade do tratamento da dor crónica, pensamos que o tratamento precoce e efetivo da dor aguda será da maior importância para prevenir a sua cronicidade, evitando assim alterações do sistema nervoso, que levarão à persistência dos sintomas dolorosos mesmo após a lesão que lhe deu origem ter sido curada – porque a “memória da dor “ não se apaga, ela estará lá sempre.

 

Jorge Quadros

(Médico Otorrinolaringologista)

 

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