Quanto vale um abraço, é a pergunta que poderíamos colocar logo de início. Vale equilíbrio na produção de oxitocina. Não é um mito, é ciência. Há muita química dentro de nós e a felicidade e o equilíbrio também nascem assim, de reações químicas
Todos já ouvimos falar das hormonas femininas e masculinas, mas há outras, as que nos ajudam a crescer, as que regulam o sistema imunitário, as que regulam o fluxo sanguíneo, as que controlam os níveis de açúcar no sangue, que determinam o ciclo do sono… e ainda a hormona da felicidade. Química pura. Têm como missão regular a atividade do corpo humano, seja induzir ou inibir uma ação. Cada uma delas tem uma função diferente e, neste enredo de hormonas, há ainda uma glândula mestra, a hipófise ou glândula pituitária, alojada na base do cérebro. Também neste caso, o tamanho não conta, a hipófise não é maior que uma ervilha, mas não é por isso que deixa de cumprir a sua função de bio reguladora do que acontece no nosso corpo.

Estamos dependentes desta química e todo o nosso metabolismo passa por esta ação. Se crescemos para, anos depois, começarmos a envelhecer, a responsabilidade é do GH. É esta hormona que dá ordens para iniciar o processo de crescimento e também para o fortalecimento dos músculos e ossos. E se a insulina, outra hormona, regula os níveis de açúcar no sangue, a hormona HAD, que é antidiurética, permite um bom funcionamento dos rins.

Mas, para além destas hormonas basilares a um bom funcionamento do organismo, há outras que são essenciais ao nosso bem-estar. A oxitocina é um bom exemplo. Ela é responsável por desencadear o processo do parto e, desde esse momento, é esta mesma hormona que vai dar início ao desenvolvimento da relação entre mãe e filho. Mas, esta não é uma hormona apenas feminina. O sexo masculino também a produz e, hoje, a ciência já demonstrou que a oxitocina ajuda a modelar comportamentos, cognominando-se de a hormona do amor e da felicidade. O aumento de confiança entre as pessoas, as relações sociais positivas, a confiança, a calma e as relações de carinho são alguns dos efeitos da oxitocina.

Nada de estranhar se, um dia, lhe disserem que precisa de aumentar a dose de abraços. Um abraço por hora pode ser um exagero, bem sei, mas há quem sugira esta fórmula, a aplicar ao longo de um dia. A receita deve estender-se a casa, onde a dose deve ser reforçada, distribuindo abraços a todos os que vivem consigo, sem conta, nem medida. Para quê? Para alimentar o seu bem-estar e a saúde emocional, estimulando a produção de oxitocina. Não é um mito, é ciência e, neste caso, da responsabilidade das hormonas.

Mas, se não é muito dado a apegos, há ainda outras fórmulas para estimular a produção de oxitocina, fazer atividades que dão prazer, é um exemplo, tal como o exercício físico moderado, reter as memórias positivas ou, tão só, conviver com outras pessoas.

A felicidade e o equilíbrio emocional estão ainda dependentes de muitíssimos outros fatores, mas também da produção exagerada ou não de outra hormona, o cortisol. Considerada como uma hormona indispensável à sobrevivência humana, porque é responsável por regular o sistema imunitário, doenças inflamatórias, alérgicas ou reumáticas, o cortisol tem ainda como função regular e controlar a resposta ao stress e os seus níveis aumentam, sempre que temos de responder à pressão do dia-a-dia, razão porque à noite a sua produção diminui. Contudo, se o stress aumenta os níveis de produção de cortisol, os sintomas do stress também acompanham essa produção extra. Neste caso, o excesso não é benéfico e deverá ser contrariado com exercícios de relaxamento e com tentativas de aumento de produção de oxitocina, que irão acalmar os efeitos do stress. E, sempre que o nosso organismo está descontraído e relaxado, o aparelho cardiovascular agradece, o fluxo sanguíneo aumenta, a qualidade do sono melhora…

A esta mistura química ainda deveremos sublinhar o que os neurotransmissores fazem por nós. A dopamina, serotonina e endorfinas em doses q.b. são também uma garantia de bem-estar físico e mental. Ter sentido de humor, rir e retirar prazer em tudo o que faz, são alguns dos efeitos para manter a produção nas doses certas.

Por fim, se juntar um pouco de sol, fica com a receita completa. É com ligeiros banhos de sol que o nosso organismo vai buscar a vitamina D necessária, sim porque esta não é apenas uma mera vitamina, deve-se acrescentar que também tem uma função hormonal. E sim, leu bem, é o sol a principal fonte de produção de vitamina D, com a vantagem acrescida de ser a nossa pele a regular a quantidade exata que precisamos. É mais uma reação química necessária, mas que só deve ser feita quando a nossa sombra é maior do que nós e, de preferência, sem protetor solar. Dez minutos por dia bastam.

O nosso equilíbrio depende destes três fatores combinados: sol, hormonas e neurotransmissores, porque a felicidade de cada um de nós também é processada por uma mera reação química.

Ana Patrícia Oliveira

(médica endocrinologista)

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