A importância da manutenção numa unidade hospitalar

Não basta realizar uma manutenção de equipamento apenas quando este avaria ou tem um funcionamento deficiente. A necessidade de uma procura ativa de segurança obriga a que não se corram riscos desnecessários. Esta é uma área em que não se pode confiar na sorte. A manutenção hospitalar deve ter um compromisso vitalício com a segurança

Recordo que ao dar entrada numa instituição de saúde, prestes a ter a minha filha, pediram-me para colocar um termómetro, retirado de um porta-canetas de secretária. O visor indicava uma temperatura de 35ºC. Pediram-me para colocar um outro. Desta vez o valor indicado era de 37,3ºC. O profissional constatou que fazia mais sentido mas, pelo sim pelo não, deu-me um terceiro – 36,5ºC!

Como em princípio estava tudo bem, segui para a enfermaria e, ainda perplexa, não fosse eu sensível a estas coisas das medições, tive a preocupação de alertar “O melhor é colocar o primeiro de parte”. Foi tarde, já estava no copo e misturado com os outros.

Ora bem, sendo a temperatura corporal um sinal vital que pode servir como critério na administração de terapêutica, ou na decisão de avançar para uma cirurgia, como pode uma instituição de saúde manter em uso equipamentos com os quais não pode garantir a fiabilidade dos resultados? Isto claro, para além das questões de higiene, essenciais para evitar a proliferação de microrganismos.

Se transpusermos este aspeto para a dimensão dos parâmetros que necessitam ser controlados num hospital, de forma a garantir as condições necessárias à prestação de cuidados adequados e à segurança do doente, deparamos-mos com um universo de infraestruturas que necessitam de ser mantidas para assegurar a operacionalidade e fiabilidade dos resultados e procedimentos. Um universo tão vasto e disperso que incluiu os equipamentos que medem ou monitorizam, mas também os que servem de suporte aos procedimentos, bem como as instalações que visam a criação das condições ambientais exigidas,

É aqui que muitas administrações hospitalares ficam abaladas. Os custos com a manutenção hospitalar podem chegar a 50% dos custos totais numa organização desta natureza. As verbas disponibilizadas para este setor nunca são suficientes e há quem prefira ignorar que certos recursos existem, não fosse a iminência de os usar. Correm-se desta forma riscos desnecessários que podem resultar em danos sérios para a pessoa.

Por incrível que pareça, muitas instituições ainda se limitam a realizar a manutenção dos seus equipamentos mais críticos, somente em caso de avaria ou funcionamento deficiente. Termómetros; balanças; medidores de tensão e de outros sinais vitais; bem como de parâmetros que indiquem ou quantifiquem o nível de alguma patologia. Qualquer erro de indicação num destes equipamentos pode resultar em decisões clínicas erradas ou mesmo procedimentos invasivos desnecessários.

Desfibrilhadores e outros equipamentos, cuja carga elétrica debitada é regulável; difusores de quantidades ajustadas de fármacos; equipamento para manutenção da temperatura corporal e dos fluidos para perfusão… Consegue-se imaginar o dano causado no doente em caso de calibração deficiente de um destes meios? E as unidades de refrigeração, destinadas ao acondicionamento a frio de medicamentos e materiais? Como se pode garantir que, na sequência de condições de armazenamento deficientes, não se procede à administração inconsciente de fármacos deteriorados?

A manutenção de infraestruturas hospitalares, por norma sob a responsabilidade de um serviço de instalações e equipamentos, é um dos serviços mais críticos na garantia da qualidade dos cuidados de saúde e na redução da ocorrência de erros que coloquem em causa a segurança do doente. Por esta razão, há quem lhe chame o paradigma da gestão hospitalar.

Nesta perspetiva, a manutenção preventiva torna-se imperativa, quer ao nível das verificações periódicas obrigatórias e regulamentadas para cada tipologia de equipamento, quer no que respeita à confirmação de que os equipamentos estão efetivamente a produzir resultados válidos (confirmação metrológica), obtida por meio de calibração ou verificação do estado da calibração. As boas práticas indicam que todos os equipamentos médicos críticos, que medem e/ou monitorizam, devem ser sujeitos a calibração ou a verificação que ateste a sua adequação.

Ao nível das infraestruturas hospitalares incluem-se naturalmente as instalações de base ao funcionamento dos edifícios. Desde a instalação elétrica, incluindo equipamento de emergência que assegure a continuidade dos trabalhos em caso de falha, redes de gases medicinais e centrais de produção de ar, centrais térmicas e de refrigeração, até às unidades AVAC (aquecimento, ventilação e ar condicionado), todas devem obedecer a especificidades técnicas regulamentadas e verificadas periodicamente por entidades competentes.

Do ponto de vista da manutenção preventiva, as instalações devem ser alvo de um planeamento adequado que responda às exigências da legislação vigente e que garanta, não só a operacionalidade das mesmas, mas também um acompanhamento do seu desgaste e consequente reavaliação das necessidades de manutenção.

Os sistemas AVAC constituem talvez as instalações mais complexas do ponto de vista de manutenção. Estas unidades, equipadas com diversos filtros capazes de bloquear micropartículas, não só são responsáveis por assegurar as condições de temperatura e humidade exigidas para as diferentes áreas técnicas, nomeadamente blocos operatórios, como mantêm a qualidade do ar nos espaços e promovem os diferenciais de pressão, entre o interior e exterior das salas, de forma a diminuir os riscos de prevalência de microrganismos que podem levar à ocorrência de infeções. De ressalvar que uma higiene adequada minimiza, à partida, a probabilidade de elementos patogénicos circularem nesses espaços. Aqui já estamos a falar de consciencialização e políticas internas.

A complexidade de procedimentos envolvidos num Serviço de Instalações e Equipamentos de um hospital e a multiplicidade de infraestruturas presentes, obrigam a que as operações sejam suportadas por um sistema de gestão eficaz. Todas as atividades afetas ao internamento de um doente implicam o recurso a equipamentos que, em caso de falha, podem comprometer mais do que o tempo ou a qualidade do serviço, em última instância a vida da própria pessoa.

Ana Aquino

(Gestora de Qualidade)

 

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