Pode ser definida como uma epidemia e por isso salta à vista a necessidade de encontrar formas de limitar a progressão da miopia. Óculos, lentes de contacto ou cirurgia refrativa não travam a progressão desta patologia, mas acabam por ajudar a “tratar”. Apontam-se estratégias. Há as que resultam, as que provavelmente nunca resultam, as que poderão resultar e o que realmente resulta: sair de casa

A miopia é, efetivamente, um tema cada vez mais falado e estudado, nem sempre de forma consensual e quase sempre pouco fundamentado. A prevalência tem acompanhado as alterações ao nosso modo de vida e, também por isso, a miopia tem vindo a transformar-se numa verdadeira epidemia do século XXI. De facto adaptámo-nos muito facilmente às novas tecnologias. Aliás depressa demais mesmo, com uma rendição absoluta. Mudámos o modo de comunicar e de conhecer o mundo, mas também vamos alterando algumas das nossas caraterísticas, enquanto espécie.

As contas serão feitas mais tarde. Para já, admite-se alterações no cérebro, no polegar, na coluna e, claro, nos olhos. Não é de estranhar por isso que esta epidemia de miopia seja considera um dos distúrbios oculares mais comum no mundo.

Naturalmente que esta situação acarreta um peso socioeconómico importante e nada negligenciável, não só pela questão estritamente económica, mas também porque as complicações associadas à presença da miopia, particularmente da alta miopia, podem provocar casos de perda ou alteração de função visual em idade jovem, ativa. Seja pela maculopatia miópica, pelos descolamentos de retina, pelas cataratas, estrabismo ou glaucoma a miopia pode causar grande morbilidade.

Além disso, reduz significativamente a qualidade de vida das pessoas. Portanto, salta à vista (mais uma expressão oftalmológica) que é fundamental encontrar formas de limitar a progressão da miopia. Promessas não faltam, mas será que resultam? Podemos “tratar” a miopia com óculos, lentes de contacto ou cirurgia refrativa, mas que estratégias podem permitir travar o aumento da miopia? Nesse sentido, a Sociedade Mundial de Oftalmologia Pediátrica e Estrabismo estabeleceu uma declaração de consenso, descrevendo o que resulta, o que pode resultar, o que provavelmente não resulta e o que não resulta de todo no retardar da progressão da miopia.

Comecemos pelo que “não resulta” ou “provavelmente não resulta”. Há escolas que advogam o uso de óculos subcorrigidos. Esta prática é atualmente desaconselhada pois, não só não trava o aumento da miopia, como até a pode acelerar. O uso de lentes bifocais ou progressivas mostrou resultados positivos em alguns estudos, mas não comprovados noutros, e pouco duradouros no tempo. As lentes de contacto rígidas demonstram resultados animadores, mas não são muito confortáveis e, ao atuarem aplanando a córnea, perdem o efeito obtido com a descontinuação do uso.

Passando às estratégias que poderão resultar, recentemente usam-se lentes de contacto de duplo foco que “parecem” ter resultados positivos. A ortoqueratologia é outra dessas estratégias; consiste na utilização noturna de lentes de contacto de geometria especial que moldam a córnea aplanando a superfície do globo ocular, de forma a permitir obter uma imagem melhorada e com boa visão durante o dia sem óculos ou lentes de contacto. Parece uma estratégia apelativa que permitirá reduzir a progressão miópica em 40%. No entanto,

a alta taxa de infeções graves da córnea graves, com potencial para causar perda de visão significativa e permanente faz com que esta seja uma estratégia atualmente desaconselhada junto da comunidade oftalmológica.

Passemos então ao que importa, o que realmente “resulta”… Por incrível que possa parecer a alteração dos hábitos de vida com maior tempo passado em atividades ao ar livre e sob exposição solar retarda a progressão miópica, o que parece estar relacionado com a produção de dopamina influenciada pela exposição à luz solar. Da mesma forma, reduzir períodos de uso intensivo de trabalho de perto ou uso de devices (tablets, telemóveis) em excesso e sem intervalos também é aconselhado.

O uso de atropina, sob a forma de colírio em concentração baixa, conduz a uma redução comprovada na progressão miópica (estudos ATOM) que pode chegar a 50%. A concentração que melhores e mais estáveis resultados foi de 0.01%, ao mesmo tempo que causava menor perturbação nas crianças / adolescentes, nomeadamente dilatação pupilar, perda da acomodação (“focagem”) ou da visão de perto. Aguarda-se o momento em que poderemos de forma segura e fiável testemunhar a introdução no mercado ocidental deste medicamento… Ainda não chegou. Até lá, continuemos a ler e a navegar nos tablets com muitos intervalos pelo meio e a preferir sair de casa, pegar na bola, na bicicleta ou nos ténis e…Viver!

 

Rui Tavares

(Médico Oftalmologista)

 

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